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‘Meu lugar no mundo fui eu que determinei’, diz pioneira do jornalismo esportivo

Décadas antes do movimento #DeixaElaTrabalhar, primeira repórter a cobrir uma Copa do Mundo por um jornal relembra o machismo velado e também o escancarado nas redações


O ícone João Saldanha e Mariucha: jjovem repórter recebeu elogio do veterano (Foto arquivo pessoal)
O ícone João Saldanha e Mariucha: jjovem repórter recebeu elogio do veterano (Foto arquivo pessoal)

Nunca achei estranho, excepcional ou diferente. O tempo ia passando, as coisas acontecendo e tinha a certeza de que estava no meu lugar. Seguia em frente, subia um degrau, mais tarde outro, e tudo me parecia normal. Vivia em um ambiente masculino, sendo, por bom tempo, a única mulher. Minha matéria-prima era um assunto dito de homens, mas descrito por uma mulher. O futebol era o meu trabalho, e eu era uma mulher. Hoje, ao ver a campanha lançada pelas jornalistas assediadas durante o exercício da profissão, paro e penso que, se para mim era muito natural e não notava o que ocorria a minha volta, nem sempre foi assim para os homens que me cercavam.

Foi um homem que me deixou falar quando, no último dia de um mês de trabalho para a Rádio Jornal do Brasil, entrei em sua sala, de chefe de redação do JB, e pedi um emprego como repórter. “Você tem experiência?”, me perguntou. “Não, para ter experiência preciso de um emprego. Alguém um dia vai ter que acreditar em mim”, desafiei.  Ele me pediu que voltasse ao terminar minha tarefa e, ao me ver de novo, mais uma pergunta: “É verdade que você adora esporte?” Não precisei responder, minha expressão disse por mim. Em um segundo José Silveira me encaminhou ao editor e me deu a notícia de que estava contratada como estagiária, sem nem saber que me proporcionava tudo o que mais queria na vida.

Cresci louca por futebol, tricolor fanática, trocando os programas com as amigas pelo Maracanã.  Sempre fui fã também dos esportes olímpicos, vôlei, natação, basquete, atletismo e por aí vai. A emoção presente no esporte é o que me enlouquece. A vitória, a derrota, o milésimo de segundo, o recorde batido, a superação, o gol.  Praticar, nem pensar, de ver já fico cansada. Cresci escrevendo o que sentia, o que via, o que imaginava. Daí, o jornalismo esportivo foi mera consequência.

Certo dia o editor se superou. Leu a carta de uma moça com um pedido de estágio, escalou um dos repórteres para entrevistar a candidata e, achando divertidíssimo, deu carta branca para a contratação – desde que ela fosse bonita. E assim a seção de Esportes ganhou sua segunda mulher.

A Editoria de Esportes do JB foi meu lugar no mundo por muitos anos. E, sem me dar conta, apanhei. Do editor que, ao chegar, provocou a saída imediata de outra mulher, recém- contratada pelo chefe anterior. Triste, ela me desejou boa sorte na despedida e fez um alerta: “Ele não gosta das mulheres”. Chorei algumas vezes ao saber que ele me imitava na minha ausência, ao ser tratada de forma irônica e ao ver que meu trabalho não era levado a sério. Certo dia ele se superou. Leu a carta de uma moça com um pedido de estágio, escalou um dos repórteres para entrevistar a candidata e, achando divertidíssimo, deu carta branca para a contratação – desde que ela fosse bonita. E assim a seção de Esportes ganhou sua segunda mulher.

Comecei no amador (jargão que reúne os outros esportes), “lugar das mulheres”, mas seguia com o olho comprido para o futebol. Enquanto não chegava lá ia aprendendo, fazendo e melhorando. Trabalhava entre feras e, para evitar uma lista, vou citar apenas uma:  João Saldanha. Colunista, não ficava na redação, mas ia sempre ao jornal. Calça e blusa jeans, chegava com as laudas na mão, apoiava o braço no armário próximo à janela e conversava com quem ali estivesse. Gaúcho, valente, vulgo João Sem Medo, me chamava de “guria” e me olhava meio de longe, talvez com certa desconfiança – até um dia me deixar sem reação.

Voltava de minha primeira cobertura internacional, um Campeonato Sul-Americano de Vôlei, e na chegada à redação vi uma lauda dobrada e presa na minha máquina de escrever.  Era um bilhete de João elogiando meu trabalho. Curto e direto, como ele. Fiquei atônita, surpresa. Ele não falou comigo, deixou o recado por escrito, de forma discreta. Era o maior troféu que poderia ganhar. O João que batia na mesa, andava armado e era uma lenda do futebol brasileiro me dizia para seguir. Sem falar na frente dos outros homens, mas dizia. Agradeci e o arrastei até o estúdio da fotografia para que tirasse umas fotos a meu lado. Ele não teve como recusar.

Treino da Copa do Mundo de 1990: primeira repórter de jornal a cobrir o evento (Foto arquivo pessoal)
Treino da Copa do Mundo de 1990: primeira repórter de jornal a cobrir o evento (Foto arquivo pessoal)

O futebol chegou aos poucos e, para mim, continuava tudo dentro da maior normalidade. Escrever crônicas e as atuações dos jogadores, lhes conferindo notas pela performance em campo, era uma responsabilidade que só me atraia. Ficava com essa parte enquanto os “meninos” faziam as entrevistas nos vestiários. Não me passava pela cabeça como o leitor ia encarar meu nome assinando aquelas matérias, até que numa manhã de segunda-feira estava em um café, e na mesa ao lado dois homens liam o jornal e conversavam sobre as notas conferidas aos jogadores. “Esse nome deve ser pseudônimo, né? Não vai ser uma mulher a escrever isso”, deduzia um deles. Fiquei muda. Não ficaria de novo.

Em 1990 o futebol foi na veia. Estava na equipe do JB que ia para a Itália e minha função era cobrir os adversários do Brasil. Maior adrenalina da vida. Primeira Copa. Nunca uma repórter de um jornal brasileiro tinha participado da cobertura de um Mundial, mas ainda bem que não soube disso até voltar. As editorias de jornais eram redutos mais masculinos, na TV a coisa já era mais leve. O glamour acabou em pouco tempo, a ralação era imensa, a tensão permanente, a voltagem em último grau. Passei inacreditáveis perrengues, mas não importava, estava na Copa do Mundo.

‘E desde quando mulher entende de futebol? Ela deveria estar em casa, lavando e cozinhando’. Eu estava ao lado dele, de frente para todos os repórteres, que viraram imediatamente os olhos para mim. Apenas sorri, tão enigmática quanto a Monalisa. Até hoje ele sequer percebeu o que falou na minha cara.

O segundo adversário da seleção brasileira seria a Costa Rica e lá fui eu cobrir os treinos comandados pelo técnico Bora Milutinovic. Consegui alguns minutos de entrevista com ele, que, após a última resposta, revelou um espanto: “Nunca vi uma mulher entender assim de futebol”. Não me senti mal ao ouvir a frase, não percebia o que estava embutido no comentário. No fim do jogo não tirei tão de letra. O Brasil suou para vencer por 1 x 0 e fui para a entrevista de Bora. Quando levantei a mão, como outros tantos, o assessor que comandava a coletiva avisou que era a última pergunta e deu voz a um homem na primeira fila. Bora apontou para mim e disse no microfone: “Vou responder a ela”. Todos na sala se viraram e me olharam. Senti momentaneamente o peso de ser mulher naquela multidão de homens.

Mariucha na Copa de 1994, na equipe do filme oficial do evento (Foto arquivo pessoal)
Mariucha na Copa de 1994, na equipe do filme oficial do evento (Foto arquivo pessoal)

Na Copa do Mundo seguinte, nos Estados Unidos, deixei o Jornal do Brasil e integrei a equipe que produziu o filme oficial da FIFA sobre o Mundial. Eram cerca de 30 pessoas e de mulher só duas, eu e uma na administração. O Brasil foi tetracampeão, meus amigos homens confessaram a inveja ao me verem dentro do gramado, e acabei mudando meu rumo. Abri uma agência de comunicação e segui trabalhando no mundo do esporte dominado por homens. Atendi uma vasta lista de clientes e, entre eles, times de futebol, como Botafogo e Fluminense. No dia a dia do futebol vi de tudo, mas segui firme, continuava no meu lugar.

Minha segurança de ser mulher, vencer preconceitos, trafegar no mundo dos homens e encarar o machismo vem de berço. Instintivamente já me defendia e com o tempo fui clareando minhas memórias e minha compreensão. O que mudou de lá para cá não foi o mundo, foi a minha consciência.

E estava ocupando meu lugar, de assessora de comunicação, na sala de entrevista coletiva do Maracanã, ao lado da mesa do entrevistado, quando o dirigente começou a falar sobre a atuação da “bandeirinha” que havia prejudicado o time. Inconformado, não mediu palavras e desancou a moça (que, de fato, cometera erros fundamentais para a derrota). No meio do discurso, não aguentou: “E desde quando mulher entende de futebol? Ela deveria estar em casa, lavando e cozinhando”. Eu estava ao lado dele, de frente para todos os repórteres, que viraram imediatamente os olhos para mim. Apenas sorri, tão enigmática quanto a Monalisa. Até hoje ele sequer percebeu o que falou na minha cara.

Meu lugar no mundo fui eu que determinei e cada vez tenho mais certeza de que será sempre aonde eu quiser. Aos 8 anos comecei a ir ao Maracanã e não parei mais. Fui levada por minha mãe, sempre por ela. Foi ela quem me transmitiu essa paixão pelo esporte, pelo futebol, pelo Fluminense. Aos 82 anos, não perde um jogo, acompanha NBA, Superliga de Vôlei, torneios de tênis e até mesmo os Jogos Olímpicos de Inverno. Minha segurança de ser mulher, vencer preconceitos, trafegar no mundo dos homens e encarar o machismo vem de berço. Instintivamente já me defendia e com o tempo fui clareando minhas memórias e minha compreensão. O que mudou de lá para cá não foi o mundo, foi a minha consciência.


Escrito por Mariucha Moneró

Mariucha Moneró é jornalista e começou a carreira no Jornal do Brasil, onde trabalhou por 10 anos. Saiu do jornal para exercer a função de jornalista chefe do Filme Oficial da FIFA na Copa do Mundo de 94. No mesmo ano fundou a Mm Press Assessoria em Comunicação, agência que dirigiu até 2011, quando se associou à Ideal. Hoje dirige a MMoneró Comunicação. Tem dois livros publicados.

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