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Machismo é o nome do jogo

Mulheres sofrem discriminação, ofensas e assédio no mundo dos games


Mulheres que se aventuram no mundo dos jogos online têm que lutar contra os ataques machistas. Foto: Reprodução
Mulheres que se aventuram no universo dos jogos online têm que lutar com os ataques machistas. Foto: Reprodução

Que o Brasil é um país machista, com perspectiva de longa jornada pela frente até que essa realidade mude,  já é sabido. Mas talvez grande parte das pessoas não tenha consciência do que se passa com as mulheres brasileiras que se aventuram no mundo dos games. É um universo que pode até parecer cada vez mais inclusivo, com times e campeonatos femininos. Não é bem assim.

Basta entrar em fóruns online de discussão de jogos para ver a exorbitante quantidade de publicações em que mulheres se queixam de sofrer assédio quando jogam. É triste, mas possível comprovar o que elas dizem ao ler os comentários que se seguem às denúncias. São, em sua maioria, homens destilando seu ódio e preconceito, exigindo que parem com o “mimimi”, e por aí vai…

Segundo estudo publicado pela Universidade de Ohio em 2016, 100% das mulheres que jogam por pelo menos 22 horas semanais já sofreram algum tipo de assédio. O número é preocupante e, apesar de a pesquisa ter sido realizada nos Estados Unidos, o mesmo cenário se repete no Brasil

De acordo com a 4ª Edição da Pesquisa Game Brasil, divulgada em abril de 2017, as mulheres são maioria entre os brasileiros que jogam videogame. Com 53,6%, um aumento de 1 ponto percentual em relação ao levantamento do ano anterior, as mulheres seguiram por mais um ano na frente dos homens. A pesquisa é anual e encomendada pela Sioux, agência de tecnologia interativa; Blend New Research, empresa de pesquisa especializada em consumo; Núcleo de Estudos e Negócios em Marketing Digital da ESPM; e pelo Go Gamers, grupo de especialistas do mercado de games.

Segundo estudo publicado pela Universidade de Ohio em 2016, 100% das mulheres que jogam por pelo menos 22 horas semanais já sofreram algum tipo de assédio. O número é preocupante e, apesar de a pesquisa ter sido realizada nos Estados Unidos, o mesmo cenário se repete no Brasil. Muitas mulheres adotam nicknames masculinos ou neutros como alternativa para escapar do preconceito diário e de comentários maldosos.

Com o intuito de trazer visibilidade e mudanças a esse paradigma, foi idealizada uma campanha pela ONG Wonder Women Tech (WWT) em parceria com a Women Up Games – que luta pela inclusão de mulheres tanto no jogo quanto na criação e desenvolvimento dos mesmos dentro da indústria. O projeto #MyGameMyName convidou youtubers gamers brasileiros, todos homens, para usarem nicks femininos em partidas online e gravarem a experiência. O resultado assusta.

“A primeira fase do movimento foi a ação da troca de nomes para trazer o assunto à tona. A segunda fase será convidar as maiores empresas de games para tomarem medidas efetivas em relação a esse assunto”, explica Ariane Parra, da Women Up Games. Segundo as idealizadoras da campanha, a iniciativa atingiu 14 países nas primeiras 12 horas, alcançando mais de 12 milhões de pessoas. Projetos como o #MyGameMyName são fundamentais para que a ignorância sobre a temática do machismo nos games seja extinta, assim como o surgimento de equipes e torneios femininos, por menores que sejam, como é o caso do Fight Like a Girl, torneio amador feminino.

Isabella Gimenez, jogadora de Overwatch: "Cheguei a ouvir que eu era inútil, por ser mulher". Foto: Acerco pessoal
Isabella Gimenez, jogadora de Overwatch: “Era só minha voz sair no headset que eu já era posta pra baixo, como se fosse um lixo e uma jogadora que não merecesse respeito”. Foto: Acervo pessoal

Entretanto, a existência de times e campeonatos exclusivamente femininos gera polêmica e debate. Muitos acreditam que, ao invés de incluir, a atitude apenas cria mais segregação. Afinal, por não se tratar de um esporte com embate físico entre os jogadores, não haveria razão para separar as equipes por gênero. Na opinião da psicóloga Isadora Appel, também conhecida como Kyla, os times femininos devem ser a primeira etapa num processo de inserir a mulher no cenário competitivo dos games, mas não podem ser o estágio final.

Para Kyla, esses times devem funcionar como porta de entrada para o mundo profissional, visando o estabelecimento de times mistos, num momento posterior. Dessa forma, não estariam perpetuando a divisão, mas criando oportunidade para as mulheres. “Os times femininos surgiram por causa do preconceito. Existe uma parcela que prefere jogar neles por estar num ambiente protegido, entre aspas, num ambiente que não tem homens e onde, portanto, não serão alvo de assédio,  de piadinhas machistas…”  Ela também defende que as meninas joguem usando seus nicks originais, femininos, como forma de resistência.  

É fácil perceber o atraso no cenário feminino dos games ao analisar alguns casos que envolvem o jogo League of Legends, o LoL. Em maio de 2016, a jogadora Hanae Oseki entrou em conflito com a organização New Revenge e-Sports por sua equipe ter sido recusada para testes, por ser mista. Hanae chegou a argumentar que outras organizações já contaram com mulheres em suas equipes. Durante a conversa, que ela depois publicou no Facebook, um dos donos da New Revenge afirmou que as regras eram da própria organização e não da Riot Games – empresa de comunicação que regula e gerencia o LoL – e que não seriam mudadas por causa de uma “criança feminista”. Procurada na época, a Riot Games esclareceu que jogadores de qualquer gênero podem participar dos torneios, inclusive em equipes mistas.

Alguns meses antes, em março de 2016, o brasileiro Thales “Machampz” Lopes, então técnico do The Pink Storm,  time feminino de LoL protagonizou um grotesco episódio. Ficou  comprovado que ele assediava meninas – muitas delas menores de idade – e exigia que enviassem nudes, em troca de ajuda no processo seletivo para integrar sua equipe.  O caso gerou revolta no mundo dos games. Thales recebeu uma nota de repúdio de sua organização e foi demitido.

Você entra na página de qualquer mulher que está fazendo uma transmissão ao vivo e sempre vai ver um comentário pedindo pra ela mostrar os peitos ou gente dizendo pra ela voltar pra cozinha, para ir lavar uma louça

Malufoxy
Universitária, ex-jogadora de LoL

Já em novembro do ano passado, o streamer conhecido como MixRJ fez declarações machistas durante sua live (transmissão ao vivo do jogo). Ainda se pode encontrar o vídeo no Youtube em que ele diz odiar e não suportar mulheres que jogam LoL. “Sou babaca mesmo, não acho que combina, tá ligado? Não sou a favor, mano. Não dá. Me dá agonia”, disse,  provocando indignação na comunidade do LoL na rede. Tanta que ele, depois, gravou um vídeo com um pedido de desculpas.

Malufoxy, de 21 anos, já não joga LoL desde o final de 2015. Devido à combinação faculdade, trabalho e estresse no jogo, achou melhor parar. Ela considera “ridículo” o que as mulheres passam jogando. “Você entra na página de qualquer mulher que está fazendo uma transmissão ao vivo e sempre vai ver um comentário pedindo pra ela mostrar os peitos ou gente dizendo pra ela voltar pra cozinha, para ir lavar uma louça…”.

Malu explica que são sempre duas as reações possíveis: ou a mulher se torna objeto sexual ou comete erros apenas por ser mulher. “Quando descobrem que estão jogando com uma mulher, muitos começam a dar em cima, falam que vão te adicionar nas redes sociais ou até pedem pra você mostrar e fazer coisas, sabe? Outros ofendem, dizem que está explicado o motivo de você jogar mal e que ali não é seu lugar, afinal mulher e jogo não combinam”.

A ex-jogadora de LoL conta, ainda, sobre o preconceito que também sofrem as pessoas – em geral, homens – que seguem canais de mulheres e acompanham lives femininas. “Adoravam ofender as pessoas que só me assistiam. Isso era muito comum, não só comigo. Usam o termo ‘escravoceta’”, conta, falando de comentários  com a clara e infeliz tentativa de limitar a mulher a seu órgão genital e de dizer que quem a assiste só o faz por se sentir atraído fisicamente por ela.

As ofensas e xingamentos incomodavam tanto que Malu teve que recorrer diversas vezes a uma ferramenta que permite ao usuário bloquear certas palavras no chat das transmissões. Ele faz uma seleção de palavras proibidas e, quando alguém as escreve, aparecem asteriscos no lugar. “Só que, incrivelmente, sempre davam um jeito de escrever alguma outra coisa pra ofender. Eu tentava não ligar pra essas coisas, mas inevitavelmente você liga, sabe? Teve um dia que cheguei a interromper uma transmissão ao vivo, no meio do jogo, porque o chat estava ofensivo demais pra mim e para as mulheres. Não aguentei”.

E não há punição para os jogadores machistas? “A gente denunciava essas pessoas, escrevendo mensagens para o suporte do jogo. Algumas vezes, tomavam uma providência, gerando um tipo de represália ao jogador denunciado. Só que isso geralmente só ocorria com quem fosse alvo de um número elevado de denúncias”. Segundo ela, essas pessoas “tóxicas” – como são chamados os haters nos jogos – podem receber como punição uma suspensão ou, em casos mais sérios, podem perder a conta no jogo, o que significa perder todas as conquistas, criar uma nova conta e recomeçar do zero.

Ela não vê perspectivas de melhora no cenário feminino competitivo. “Nada parece ter mudado, de 2014 pra cá. O cenário masculino cresceu de forma absurda, mas no feminino não vejo diferença nem melhora, de verdade. Continua estagnado, sabe? É triste demais”. O universo profissional masculino de League of Legends, realmente, segue crescendo. Foram mais de 80 jogadores no campeonato mundial em 2016, 43 milhões de pessoas assistindo à final e 1,6 bilhões de dólares de lucro, somente para a Riot Games. E, apesar desse sucesso, não há, por exemplo, jogadoras mulheres no CBLoL, o principal torneio de LoL do Brasil.

Segundo Natália Franco, diretora administrativa da Brave e-Sports,  a ausência de mulheres no cenário profissional tem, sim, relação com o machismo. “Os caras nunca vão pensar na garota primeiro. Talvez uma coisa aconteça pela outra – mulheres veem que os donos das organizações não ligam para elas e não se esforçam, e os donos veem que as mulheres não se esforçam e não as priorizam como escolha para integrar suas equipes”.

 A jogadora de Overwatch Isabella Gimenez, de 25 anos, conta ter sofrido inúmeros ataques machistas. “Eu experimentei o pior que o mundo tóxico da comunidade tinha a me oferecer. Cheguei a ouvir que eu era inútil por ser mulher. Era só minha voz sair no headset que eu já era posta pra baixo, como se fosse um lixo e uma jogadora que não merecesse respeito. Foram absurdos xingamentos contra mim, minha família e afins”. Isabella diz já conseguir ignorar a maioria dos comentários que ouve. E optou também por não falar mais nos grupos. Uma medida que adotou é denunciar toda vez que lê ou ouve um comentário maldoso em relação às colegas, durante as partidas. “Se as pessoas são punidas? Duvido muito. Não vejo homens sendo punidos por coisas muito piores, o que dirá em um jogo online. Existem movimentos de grupos que estão se organizando, hoje em dia, e qualquer forma de resistência, pra mim, é válida. O que eu tento fazer é apoiá-los da melhor forma possível”, diz ela, que  está com um projeto para levar mulheres ao mundo do RPG de mesa e online. Afinal, não custa repetir: lugar de mulher é onde ela quiser.


Escrito por Thaís Mandarino

Thaís Mandarino

Carioca crescida na região Sul Fluminense, Thaís Mandarino é formada em Jornalismo pela PUC-Rio. Trabalhou como assistente de produção nos programas Entre Fronteiras, do Canal Futura, e Observatório da Imprensa, da TV Brasil. Apaixonada pela escrita, é estudante de roteiro, e acredita que o cinema e a palavra são ferramentas potentes de resistência e reinvenção.

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Um Comentário

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  1. Excelente Post. Como Player online infelizmente tenho q assistir esse tipo de atitudes na web periodicamente. Triste pensar que no seculo 21 ainda exista tamanha ignorância sem fundamento. Uma tremenda falta de respeito. Queira ver se fosse a mãe/irmã/namorada deles.

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