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Ar-condicionado: crescem as vendas, os custos e os riscos

Causa da morte dos dez jovens atletas do Flamengo, aparelho é um desafio ambiental, energético e de segurança


Fábrica de compressores na Alemanha. O país é um dos que mais investe em inovação e eficiência energética. Foto Sebastian Kahnert/DPA
Fábrica de compressores na Alemanha. O país é um dos que mais investe em inovação e eficiência energética. Foto Sebastian Kahnert/DPA

As primeiras análises dos peritos não deixam dúvidas. A causa do incêndio que provocou a morte dos dez jovens atletas das categorias de base do Flamengo foi um curto-circuito no ar-condicionado. Resta saber se ele foi ocasionado por um pico de energia, pelas chuvas dos últimos dias, falha na instalação do aparelho ou simplesmente por falta de manutenção no Ninho do Urubu, o centro de treinamento do clube, que fica em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio. O fato é que, assim como crescem as vendas, puxadas pelo calor senegalês nas nossas cidades, crescem também as histórias de descaso na hora de fazer a instalação e a manutenção dos aparelhos. O que os torna, certamente, mais perigosos do que os liquidificadores, citados pelo ministro Onyx Lorenzoni em uma lamentável comparação com as armas de fogo.

No ranking mundial da eficiência energética, o Brasil ocupa o vigésimo lugar entre os 25 países que mais consomem energia no mundo. Itália e Alemanha empatam em primeiro lugar, com 75,5 pontos de 100 possíveis

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), os aparelhos de ar-condicionado já são responsáveis por 14% do consumo de eletricidade no Brasil. Foi graças a eles que o horário de pico, tradicionalmente registrado por volta de oito da noite, passou para duas da tarde. A previsão é de que até 2030, 60% dos brasileiros terão pelo menos um aparelho em casa. O que elevará a parcela de eletricidade consumida por eles para cerca de 40%. Esse crescimento gera impactos no bolso do consumidor, na matriz energética do país e na emissão de gases de efeito estufa do Brasil. Mas provoca também uma elevação nos riscos de doenças respiratórias e no registro de acidentes. Infelizmente, ainda não se disseminou entre a população o hábito de fazer uma manutenção regular nos aparelhos e nem de evitar que um curioso qualquer de plantão se encarregue da instalação.

No capítulo das doenças, uma das bactérias mais perigosas encontradas nas tubulações de ar é a legionella, causadora de infecções agudas e pneumonia, que podem levar à morte. Uma das suas vítimas mais famosas foi o ex-ministro das comunicações Sérgio Motta, que morreu em 1998. É verdade que ele já sofria com uma doença crônica pulmonar quando contraiu a bactéria, mas a doença piorou e o levou à morte.

Flores sobre a bandeira do Flamengo. Luto pela tragédia que matou dez pessoas. Foto Carl de Souza/AFP
Flores sobre a bandeira do Flamengo. Luto pela tragédia que matou dez pessoas. Foto Carl de Souza/AFP

No aspecto climático, em 2016, o Brasil foi um dos 197 signatários de um tratado internacional que prevê a redução drástica na produção de gases utilizados em aparelhos de refrigeração. Os HCFCs e os HFCs (hidrofluorcarbonos) são encontrados em geladeiras, freezers, ares-condicionados e até nas bombinhas usadas contra a asma. Ambos têm efeitos danosos para a vida no planeta, seja porque ajudam a destruir a camada de ozônio ou porque têm impacto nas mudanças climáticas. O potencial de influência no aquecimento global é de 1.000 a quase 4.000 vezes maior do que o dióxido de carbono. O tratado, que recebeu o nome de Kigali, numa referência à capital de Ruanda, onde foi assinado, vem sendo discutido no Congresso há algum tempo, ele já foi aprovado na Comissão de Relações Exteriores da Câmara e na Comissão de Meio Ambiente, mas ainda precisa passar pelo plenário e depois ser ratificado pelo Senado.

Junto com a implementação da Emenda Kigali, que começaria no Brasil em 2024, existe um grande debate para melhorar a eficiência energética dos aparelhos de ar-condicionado. No ranking mundial da eficiência, o Brasil ocupa o vigésimo lugar entre os 25 países que mais consomem energia no mundo. Itália e Alemanha empatam em primeiro lugar, com 75,5 pontos de 100 possíveis, seguidos por França, Reino Unido e Japão. A Alemanha investe mais de US$ 2,5 bilhões por ano em eficiência energética (US$ 31 per capita) e a Itália, mais de US$ 1,5 bilhão (US$ 25). O Brasil destina ao setor apenas US$ 191 milhões (US$ 0,94).

Simplificando, em uma escala de 0 a 6 nos níveis de eficiência, o país estaria no nível 3,02, enquanto os países mais desenvolvidos estão no nível máximo. Um dos estudos feitos pela EPE prevê que essa eficiência suba de 3,02 W/W para 5,0 W/W, até 2035, o que representaria uma economia de R$ 44 bilhões para os cofres públicos. O equivalente a geração de quatro usinas termelétricas como a Norte Fluminense, uma das maiores térmicas a gás natural do país. Ou seja, ainda temos um caminho longo a percorrer na área de eficiência energética, na redução das doenças, nas emissões de gases de efeito estufa e na prevenção de tragédias como esta. É possível, basta ter vontade política e dar um pouco mais de valor à vida humana.


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