Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Profissão: educadora do campo

Elisângela Carvalho se formou pelo programa da Pedagogia da Alternância e dá aula em escola Sem Terra


Elisângela Carvalho: a agricultora se formou como professora pelo programa da Pedagogia da Alternância/ Foto: Custódio Coimbra
Elisângela Carvalho: a agricultora se formou como professora pelo programa da Pedagogia da Alternância/ Foto: Custódio Coimbra

Ela nasceu no Rio de Janeiro, mas foi em Minas que encontrou seu lugar de existir. Por existir, entenda-se estudar, se formar, se afirmar, repartir e amar. Elisângela Carvalho é, antes de mais nada, agricultora. No campo, aprendeu a sonhar e a multiplicar. No lote de 13 hectares que ocupa com o companheiro, camponês professor de geografia, no Assentamento Dênis Gonçalves, na Zona da Mata de Minas Gerais, ela plantou feijão. Semeou dez quilos, colheu 200. Mas a sina de Elisângela, a Elis, é ensinar.

Há muita dificuldade de acesso às escolas, elas são distantes do trabalho e da moradia. O camponês, muitas vezes, precisa parar de estudar para trabalhar. As diretrizes da Educação do Campo respondem a essas precariedades. A educação é construída com os sujeitos, para os sujeitos

Elisângela Carvalho
Professora do campo

Na sala de chão batido demarcada por uma cerca de bambu, efêmera como a incerteza da vida, por isso itinerante, Elis dá a dimensão da sua responsabilidade à frente da escola recém-inaugurada no acampamento da Fazenda São José, uma porção de terra abandonada do complexo de nome Liberdade e ocupada por 315 famílias Sem Terra. É ela quem lembra e pontua a contabilidade dramática do déficit educacional no campo – 37mil. Este é o número oficial, registrado pelo Censo Escolar do MEC, de escolas fechadas nos últimos 15 anos, no Brasil rural, essa vasta porção de terra e gente invisível, que as cidades só enxergam no noticiário policial. Vista por esse ângulo, a abertura de uma nova escola em acampamento do MST, como a autorizada pela Secretaria Estadual de Educação de Minas Gerais, ganha outra relevância.

A professora enumera as várias razões para o fechamento das escolas no campo, entre elas o baixo número de alunos. “Isso se deve às dificuldades de acesso às escolas, distantes do trabalho e da moradia. O camponês, muitas vezes, precisa parar de estudar para trabalhar”, afirma. “As diretrizes da Educação do Campo respondem a essas precariedades. A educação é construída com os sujeitos, para os sujeitos”, diz.

Criança em acampamento Sem Terra em MG/ Foto: Gustavo Stephan
Criança em acampamento Sem Terra em MG/ Foto: Gustavo Stephan

Fruto de uma parceria do Incra com diversas universidades, o Programa Nacional de Educação nas Áreas de Reforma Agrária, aprovado em 1998, oferece uma direção para superar a precariedade educacional do campo. Abrange desde o Ensino Fundamental até a universidade, mediante a apresentação de projetos vinculados à Pedagogia da Alternância, por meio da qual a agricultora Elis obteve sua licenciatura em Educação do Campo, na Universidade Federal de Minas Gerais.

Na vastidão deste Brasil de tantas porteiras, o desafio da escola perto da moradia é uma das diretrizes operacionais aprovadas, em 2015, para a educação do campo no Estado de Minas Gerais. “Trata-se de um reconhecimento da necessidade e da especificidade do camponês, um direito”, ensina Elis. Quantos quilômetros uma criança ou mesmo um adulto precisa caminhar para chegar à escola da cidade mais próxima?

Sem Terra: Educação do Campo inclui disciplinas que se relacionem com cotidiano/ Foto: Gustavo Stephan
Sem Terra: Educação do Campo inclui disciplinas que se relacionem com cotidiano/ Foto: Gustavo Stephan

Outra diretriz da Educação do Campo é a de incorporar ao currículo conteúdos úteis para os educandos. Isso é fácil? Não. Principalmente porque, em geral, os professores não são do campo e desconhecem os conteúdos. A diretriz permite que sejam contratados, preferencialmente, educadores que tenham a ver com a realidade do campo, capacitados a trabalhar com os conteúdos que fazem sentido para o camponês, sem prejuízo do Currículo Básico Comum (CBC). Na nova escola do Acampamento da Fazenda São José, todos os seis professores e a auxiliar de serviços básicos, têm formação no MST.

Fala a Elis: “A educação tem como princípio trabalhar com a identidade e a cultura camponesa, porque o sujeito camponês tem uma história e uma vida a serem valorizadas. Na cidade, ainda hoje, em pleno século 21, a gente sofre muito preconceito com a forma como vai à escola. Se uso chapéu e chinelo de dedo, sou discriminado. A nossa escola trabalha com a simbologia, o movimento, a bandeira, a mística, a palavra de ordem, tudo isso tem um sentido. E a gente tem essa liberdade nas diretrizes da educação no campo”.

As disciplinas estão agrupadas e consolidadas em áreas de conhecimento. Linguagens (português, arte, língua estrangeira e educação física), Ciências Sociais e Humanas (geografia, história, sociologia, filosofia e ensino religioso), Ciências da Vida e da Natureza (biologia e química) Agroecologia (meio ambiente e sustentabilidade) e Matemática e Ciências Agrárias.

"Escola é para além de quatro paredes", diz professora de Sem Terra/ Foto: Gustavo Stephan
“Escola é para além de quatro paredes”, diz professora de Sem Terra/ Foto: Gustavo Stephan

A evasão escolar é um problema que requer atenção especial. No próprio assentamento Denis Gonçalves, alunos abandonaram os estudos porque a área é enorme e a escola fica distante da moradia de muitos. O professor tem que seduzir o educando, observa Elis. “O aluno tem que ser ouvido. Todos os dias ele vai trazer alguma questão para o professor”, conta.  “Quando a gente pensa a educação do campo, precisa considerar que, mesmo que o aluno não termine os estudos, a experiência vivida dentro da escola, com educadores que vão conseguir ouvi-lo e entender por que ele está cansado e dormindo na aula, vai ser transformadora”.

A escola deve ter partido, sustenta a professora. “Escola é para além das quatro paredes. Temos autorização para funcionar pelo estado. Mas mesmo que não tivéssemos, a gente faz processos de formação informal todo o tempo. Nas assembleias, nas reuniões de núcleo e em outros espaços de atividades coletivas. Temos a consciência de que não dá para separar a educação da política, não tem escola sem partido, não tem neutralidade”.


Escrito por Cristina Chacel

Cristina Chacel

Jornalista e escritora, atuou nos principais jornais do Rio de Janeiro. Há 20 anos trabalha como freelancer, com criação de textos jornalísticos e institucionais e projetos sociais e solidários. É autora de dezenas de livros, entre eles Rio de Cantos Mil, com fotos de Custodio Coimbra.

5 posts

2 Comentários

Deixe uma mensagem
  1. Estou feliz de participar de uma escola do campo, é realidade poder sentir os educandos participar e interagir em uma educação que valoriza o Ser .Parabéns Professora Elisangela PÁTRIA LIVRE …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *