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Merendeiras das escolas públicas ganham reality show

Programa da TV Escola é mais que uma competição de culinária: mostra um Brasil que muitos desconhecem e a incrível dedicação das cozinheiras à profissão


A mineira Luciana Aparecida Pinheiro investe no aproveitamento total de alimentos (foto Carlos Henrique Santos/divulgação TV Escola)
A mineira Luciana Aparecida Pinheiro investe no aproveitamento total de alimentos (foto Carlos Henrique Santos/divulgação TV Escola)

No escândalo mais recente de desvios de verba da merenda escolar, a Operação Prato Feito, da Polícia Federal, descobriu detalhes sórdidos: em certas escolas, alunos eram alimentados com leite diluído em água e biscoito; em outras, eram impedidos de repetir as refeições, e a carne era trocada por ovo. Em contraposição aos crimes que realizam a expressão “tirar doce da boca de criança”, 50 milhões de refeições são servidas diariamente nas escolas públicas brasileiras e, por trás delas, existem mulheres que se dedicam a um ofício essencial num país que está prestes a voltar ao Mapa da Fome. É um pouquinho dessa história que está contada no reality show “SuperMerendeiras”, que a TV Escola estreia nesta sexta (28/09), às 21h.

As duras histórias de vida das merendeiras, seu amor por cozinhar em escolas, seu orgulho em levar comida gostosa aos estudantes e sua criatividade em incluir ingredientes regionais em suas receitas mostram pedacinhos do Brasil que muitos de nós desconhecemos.

O programa, no modelo de “Masterchef”, “Top Chef” e tantos outros que são febre mundial, reúne 10 merendeiras, finalistas das duas edições do concurso “Melhores Receitas da Alimentação Escolar”, promovido pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, do MEC, que gere os R$ 4 bilhões anuais do gigantesco Programa de Alimentação Escolar brasileiro (Pnae), um dos maiores do mundo. Os jurados são um nutricionista, um chef e um estudante de escola pública. Já o apresentador nada tem a ver com o tema, é o ator Eri Johnson. Mesmo assim, a atração vale a pena. As duras histórias de vida das merendeiras, seu amor por cozinhar em escolas, seu orgulho em levar comida gostosa aos estudantes e sua criatividade em incluir ingredientes regionais em suas receitas mostram pedacinhos do Brasil que muitos de nós desconhecemos.

Valorizar os ingredientes brasileiros 

De Tacaratu, cidade com pouco mais de 20 mil habitantes do sertão pernambucano e IDH 0,573, considerado baixo, vem Gilda Rosângela. Sua receita no concurso do MEC foi o “Caldo Nordestino Nutritivo”. Se estivesse no “Masterchef”, ela provavelmente diria que “desconstruiu” a famosa vaca atolada e transformou num caldo com mandioca, couve e coxão de bode. Na casa de Gilda, o marido cuida das crianças e ela vai trabalhar. A infância, como a das outras participantes, não foi fácil. “Minhas bonecas eram as espigas do milharal, com aqueles cabelos louros”, ela conta, no primeiro episódio do programa.  

O apresentador e as merendeiras na bancada, ao estilo "Masterchef" (Foto Carlos Henrique Santos/divulgação TV Escola)
O apresentador e as merendeiras na bancada, ao estilo “Masterchef” (Foto Carlos Henrique Santos/divulgação TV Escola)

Outra que valoriza os ingredientes regionais num grau equivalente ao do estrelado Alex Atala é Maria Cláudia Ferreira dos Santos, de Belém do Pará (de onde mais?). No concurso, a cozinheira usou tucupi e jambu, típicos do Norte, para criar a Macarronada Paraense, prato que lhe rendeu prêmio na prova do MEC. Haja criatividade para transformar  o macarrão, tão emblemático da merenda escolar por todo o país – quem estudou em escola pública sabe do que estamos falando – em algo diferente.

Um desafio para as merendeiras, que são sempre supervisionadas por nutricionistas, é preparar receitas nutritivas que agradem às crianças, que, como sabemos, não costumam se jogar no chão pedindo para comer brócolis, como naquele comercial. Maria de Lourdes Fidelis, de Matelândia, no Paraná, consegue fazer os alunos comerem cebola, brócolis e cenoura com sua Torta de Arroz Nutritiva, outro prato premiado no concurso. E eles pedem para repetir.

De quilombola a descendentes de alemães

Culturas diversas também estarão à mesa no reality. Uma das participantes, por exemplo, é de uma comunidade quilombola, a Ilha da Maré, na Bahia. Acostumada a trabalhar desde menina, Dejanira de Souza fazia artesanato e catava mariscos, mas já sonhava ser merendeira quando crescesse. Envolvida com suas raízes, ela recriou para o concurso a receita de abará. No lugar do feijão e do camarão, este impensável numa escola pública, entraram aipim e carne moída.

E se nossas origens africanas estão representadas, também tem espaço para outras ascendências. A merendeira Anilda Berger Jastrow vem da pequena Santa Maria do Jetibá, no Espírito Santo, onde vivem descendentes de alemães de uma região chamada Pomerânia, hoje no território da Polônia. O município preservou a cultura  e o idioma dos antepassados – Anilda fala até com um pouco de sotaque alemão – e vive basicamente de agricultura. Por isso em sua receita, o Bolo Salgado de Arroz, a merendeira, que só estudou até a quarta série, fez questão de valorizar os produtos da região. E nada mais atual do que investir em produtos locais. Aliás, por lei, 30% dos ingredientes da merenda escolar devem vir da agricultura familiar.

Aproveitamento total dos alimentos

Outra tendência da cozinha contemporânea também está no cardápio dessas merendeiras: o aproveitamento total dos alimentos. Um exemplo é a mineira Luciana Aparecida Pinheiro, de São Sebastião do Paraíso, usou talos de beterraba, couve e brócolis, além da casca da abóbora cabotiá para criar o seu  Arroz Minerim, que, de quebra, preserva as raízes da culinária da região e faz as crianças comerem verduras. A cozinheira ingressou na escola como auxiliar de limpeza e tem o maior orgulho da nova profissão. Não é a única. Das dez merendeiras selecionadas, todas listam razões para amar a profissão: combater a desnutrição, evitar a obesidade, fazer os pequenos ficarem fortes para estudar, coisa que muitas delas não tiveram oportunidade de fazer. “Ser merendeira foi a melhor coisa que fiz na minha vida”, resume Osmarina Pereira, de Iporá, Goiás.  


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