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Uma revolucionária contra o apartheid na educação infantil

Maria Cecilia Almeida e Silva fala dos 30 anos da Pró-Saber, a pequena faculdade que luta por pré-escola de qualidade para todos


Maria Cecilia Almeida e Silva à frente do Pró-saber

Numa das menores faculdades do Brasil, todo dia, ao longo de anos e anos, acontece uma revolução. Silenciosa, discreta, mas que já transformou a vida, direta ou indiretamente, de cerca de 24 mil pessoas, entre crianças, professores,  crecheiras e moradores de comunidades de baixa renda do Rio. Essa minúscula faculdade brasileira tem uma turma apenas por ano, e vestibular a cada três: seus alunos, profissionais de educação infantil da rede pública municipal, recebem formação de excelência. É graças a esse trabalho que muitos “cabras marcados para não aprender” acabam fazendo uma pré-escola de qualidade e chegam ao ensino fundamental em condições semelhantes às de crianças que frequentaram creches particulares.

Se não tem educação infantil de qualidade, não tem como se sair bem nem na alfabetização nem no ensino médio”, defende a psicopedagoga

Maria Cecilia Almeida e Silva
Diretora do Pró-Saber

Mas a revolução é longa. De acordo com o IBGE, em 2015, 75% das crianças de 0 a 4 anos estavam fora da creche ou da pré-escola. Em números absolutos, das 10,3 milhões de crianças nessa faixa etária, 7,7 milhões não têm acesso a educação infantil. “Se conseguirmos convencer as pessoas sobre a importância de investir nos anos anteriores ao da alfabetização, podemos revolucionar toda a educação e combater um apartheid que pode se estender pelo resto da vida. Se não tem educação infantil de qualidade, não tem como se sair bem nem na alfabetização nem no ensino médio”, defende a psicopedagoga Maria Cecilia Almeida e Silva, a mente irrequieta, sonhadora e cheia de ideias que está à frente da pequenina, e tão grandiosa, faculdade particular gratuita a serviço da educação pública, o Pró-Saber.

Formatura no Pró-Saber: pequena faculdade já mudou a vida de milhares (Foto de divulgação)
Formatura no Pró-Saber: pequena faculdade já mudou a vida de milhares (Foto de divulgação)

Numa casa cheia de plantas e cercada de arte por todos os lados, no Largo dos Leões, Humaitá, funciona o instituto que também atende crianças com dificuldade de aprendizagem e oferece pós-graduação em Psicopedagogia. E que a partir do dia 26 de agosto abre as portas para o grande público em comemoração aos seus 30 anos, com uma programação 100% gratuita de concertos, palestras e oficinas, além de uma grande exposição de arte contemporânea (confira aqui as atrações). O lema da festa é 30 anos de sonho e resistência. “Sonho de uma sociedade pela educação e pela transformação das pessoas; resistência para  não seguir a manada e continuar investindo no que acreditamos”, conta Cecília, que, nesta entrevista, explica por que acha perigoso o rumo que a educação vem tomando no Brasil. A pequena  faculdade  é de uma vida severina: tenta arrancar algum roçado da cinza (e se enche de esperança com as crianças). 

As crianças das classes mais favorecidas hoje em dia aprendem a ler praticamente sozinhas. A escola só sistematiza algo que elas já sabem. Mas as crianças mais pobres  não têm essa possibilidade, a não ser com o pré-escolar.

Maria Cecilia Almeida e Silva
Diretora do Pró-Saber

#COLABORA: Por que é tão importante investir em educação infantil?

MARIA CECÍLIA ALMEIDA E SILVA: Porque é na pré-alfabetização que elas já começam a se preparar para a leitura, para a escrita, para a interpretação do mundo. As crianças das classes mais favorecidas hoje em dia aprendem a ler praticamente sozinhas. A escola só sistematiza algo que elas já sabem. Mas as crianças mais pobres  não têm essa possibilidade, a não ser com o pré-escolar. É durante esses primeiros anos na escola que vão sendo criadas as condições e as possibilidades para depois se aprender a ler. Com o brincar, com a convivência. Mas não há creches para todos.

A educação é urgente e imediata. Perder um ano faz um diferença enorme. Perder dois anos pode  significar perder tudo.  Criança que não frequenta a pré-escola já chega à alfabetização marcada para não aprender.

Maria Cecilia Almeida e Silva
Diretora do Pró-Saber
Creche Cantinho da Natureza: professores formados na Pró-Saber (Foto de divulgação)
Creche Cantinho da Natureza: professores formados na Pró-Saber (Foto de divulgação)

Qual a consequência? Cada ano perdido na pré-escola mexe com a vida inteira de uma criança?

A educação é urgente e imediata. Perder um ano faz um diferença enorme. Perder dois anos pode  significar perder tudo.  Criança que não frequenta a pré-escola já chega à alfabetização marcada para não aprender. Na exposição comemorativa dos 30 anos do Pró-Saber, vamos ter um espaço dedicado a uma chamada das crianças em idade pré-escolar que estão fora das creches. Inspirados  no filme “Nunca me sonharam” (documentário de Cacau Rhoden sobre o ensino médio nas escolas públicas brasileiras), faremos a lista “Nunca me chamaram”.  É uma chamada simbólica, com nomes reais de crianças que estão na fila de espera de creches públicas no Rio. Queremos  reforçar que, quando não se investe em Educação Infantil, cria-se um apartheid social, a desigualdade só aumenta. E estamos provando com a experiência do Pró-Saber que a educação infantil de qualidade é capaz de superar as adversidades do meio em que a criança vive. A criança pode vir do lugar mais pobre e poderá se equiparar a qualquer outra criança. Minha filha tem uma escola de educação integral, filial do Pró-Saber, em São Paulo, na comunidade de Paraisópolis. Ela diz que no primeiro ano na creche as crianças da comunidade até podem apresentar alguma diferença, mas já no segundo se equiparam a quem frequenta algumas das melhores escolas particulares do país. Dizer que porque a criança nasceu pobre já está marcada para perder é falso. É inaceitável.

Um dos principais problemas do Brasil é o analfabetismo. Outro é o ensino médio. Mas como uma pessoa mal alfabetizada vai se interessar pelo ensino médio?

Maria Cecilia Almeida e Silva

O que acontece com as crianças que não frequentam a escola nestes primeiros anos de vida?

Antigamente, os bebês só eram considerados depois de nascerem, não havia o pré-natal. Mesma coisa com as escolas: só se entrava na classe de alfabetização, não havia a pré-natalidade do conhecimento. Mas já se sabe atualmente que os anos que antecedem a alfabetização são fundamentais para que os meninos aprendam a ler e a escrever com facilidade. E hoje um dos principais problemas do Brasil é o analfabetismo. Outro é o ensino médio. Mas como uma pessoa mal alfabetizada vai se interessar pelo ensino médio? Se todas as crianças brasileiras fossem imediatamente atendidas e recebessem já Educação Infantil de qualidade, precisaríamos de apenas nove anos para resolver o problema do ensino médio.

Mas a pré-escola não é um momento de cuidados básicos da criança? Em que momentos na escola realmente aprendem?

O tempo todo. É claro que a criança tem que ser cuidada, mas com o brincar e com a convivência com outras pessoas ela já começa a aprender. O brincar é fundamental. Por exemplo, uma tarefa que eu acho excelente: as crianças quando chegam à sala tiram os sapatos e  fazem um morrinho com eles. Depois vem a criança minúscula e sabe exatamente, naquele bolo todo, qual é o seu. Nesta brincadeira ela vai aprendendo o que é diferença e vai construindo a lógica. Outra atividade é deixar que uma criança distribua as mamadeiras. Por mais pequetita que seja, ela saberá muito bem qual mamadeira é de que criança. É uma tarefa lúdica que ajuda a construir as estruturas necessárias para a aprendizagem. Quando a comida é servida, tem-se o cuidado de não misturar todos os ingredientes numa sopa, para que a criança sinta gostos diferentes e aprenda a fazer a diferenciação, que é fundamental para seu cérebro, porque cria categorias diferentes. E ainda as crianças contando suas histórias, livres em suas fantasias, ou arrumando a sala como quiserem. Isso tudo é aprendizagem e no Pró-Saber os professores vão aprendendo essa importância. Que não é de qualquer jeito que se cuida de uma criança no pré-escolar. Que as atividades precisam ir muito além dos cuidados básicos.

Pré-escola: essencial para o desenvolvimento das crianças (Foto Burger/Phane)
Pré-escola: essencial para o desenvolvimento das crianças (Foto Burger/Phane)

Como é a formação dos professores de educação infantil no Pró-Saber?

Logo que entram, os professores fazem um mergulho em si, para entenderem a história de vida deles, e suas memórias. O intuito é de ele aprender a se valorizar e encontrar respostas para uma frase que nos guia em nossas reflexões: O que eu vou fazer com o que fizeram de mim. No segundo ano eles entram em contato com as teorias, já num patamar diferente. No Pró-Saber, todos os alunos que entram para fazer o Normal Superior já trabalham como professores em creches e escolas de educação infantil em comunidades de baixa renda. É a formação em serviço. Porque o grande problema da educação é a questão teoria versus prática.  A prática dos professores desafia o nosso ensinar. E isso muda tudo. No Pró-Saber, procuramos fugir da tagarelice. Não queremos que as palavras percam o sentido, então desde o início os alunos juntam as ideias com a prática e produzem com autoria.

As escolas se esforçam na inclusão da Arte no currículo, mas ainda é um adereço, um enfeite. Existe a preocupação, mas que cai por terra com essa questão avassaladora da eficácia da tecnologia

Maria Cecilia Almeida e Silva
Diretora do Pró-Saber

Por que a Arte ocupa um papel tão importante na formação dos professores no Pró-Saber?

A Arte é constitutiva no processo de construção do entendimento. Está disseminada em todas as disciplinas do Pró-Saber, é o que está por trás do pensamento, como diz Clarice Lispector. É a maneira de se ampliar a questão do entendimento no campo do não-dito, na intuição de conhecer o outro. As escolas se esforçam na inclusão da Arte no currículo, mas ainda é um adereço, um enfeite. Existe a preocupação, mas que cai por terra com essa questão avassaladora da eficácia da tecnologia. A tecnologia é importante, mas não é tudo. Esse imediatismo cria uma concorrência entre as pessoas e desumaniza a educação. Educar não é treinar. A tecnologia está a serviço da educação, mas nunca vai substituir o professor.

Por isso são 30 anos de sonho e resistência?

Sim. O sonho é de uma sociedade pela educação, pela transformação das pessoas, uma sociedade mais justa e mais fraterna. Mais feliz. E isso seria a paz. Mas a paz é uma construção, não é um prêmio, é uma luta. O conceito de paz como sinônimo de grande tranquilidade só existe para o morto: descanse  em paz. Para explicar a questão da resistência, recorro a um texto de Eugène Ionesco, “O rinoceronte”, uma peça superatual nos dias de hoje, e que estará presente na nossa semana de comemorações: é surrealista, é cômica, é dramática e seriíssima. Ionesco usa a metáfora do rinoceronte para explicar o que é seguir uma manada: os animais foram escolhidos porque têm uma casca dura, não precisam ser entendidos pelo outro porque se comunicam por grunhidos, são brutais e ao mesmo tranquilos. Não há um grande drama em ser um rinoceronte, não é? Então a cidade começa a ser invadida pelos animais, e aos poucos todas as pessoas vão virando rinocerontes. Só um casal, que jura amor eterno, resiste. Mas na última hora, a mulher desiste de resistir, por não suportar mais a luta por ser diferente. E o homem resiste, opta por ser o único ser humano da face da terra. Esta também é a nossa opção.  


Escrito por Simone Intrator

Simone Intrator

É jornalista e por 17 anos trabalhou nos jornais O Globo e Extra, no Rio, nas editorias de saúde, turismo e cidade. Também foi autora de uma coluna sobre sobre literatura no suplemento infantil Globinho e, em 2014, lançou o livro Parque e Jardins: refúgios cariocas, da editora Papelera Cultural. Mãe da Marina, de 15 anos, e do Rodrigo, de 11, Simone há três anos estuda psicopedagogia para se dedicar às suas duas maiores paixões: educação e crianças.

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