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Alerta aos solidários, ma non troppo

Morrendo de medo da intimidade excessiva num mundo repleto de blablacars


Imaginem esta estrada com alguém tagarelando ao seu lado...
Imaginem esta estrada com alguém tagarelando ao seu lado…

Quando fui convidado a escrever no #colabora até estranhei, afinal o site fala de um mundo mais criativo, tolerante e generoso. Vamos dizer que essa história de ajudar nunca foi o meu forte. Minha mãe, coruja que é, sempre disse que eu nunca fui colaborativo, muito pelo contrário. A versão dela é confirmada com entusiasmo pela minha mulher, que também não perde a oportunidade de acrescentar que estou piorando com o tempo. Quando se fala sobre minha tolerância e generosidade as duas caem na gargalhada. Mas criativo sou, invento sempre novas formas de ser indiferente às críticas. Quem me convidou tinha alguma razão.

Não consigo pensar em sacrifício maior do que aturar uma viagem de carro com desconhecidos. Prefiro enfiar um lápis no olho e rodar

Tenho visto muitas notícias assustadoras por aqui, ao menos para mim. Uma das mais terríveis é essa moda do BlaBlaCar, o aplicativo para caronas. Nos transportes públicos, ao menos, já existem códigos de comportamento estabelecidos: a conversa é limitada e se resume a platitudes e comentários sobre o tempo. Mas no carro particular presume-se que já exista, com perdão pela palavra, uma intimidade, então ( Horrror! Horror! Horror!) pode se falar sobre qualquer coisa. A classificação de bla para os calados, blabla para os normais e blablabla para os malas dos infernos também é muito falha. Se voce vai para Búzios, por exemplo, e resolve dar carona para uma pessoa calada, categoria “bla”, para não se chatear. Aí no inicio da jornada a pessoa já manda um “votei no Bolsonaro!”. Como é que fica? Você vai seguir o resto da viagem tranquilo? E se, por exemplo, a pessoa diz “O Fluminense ainda tem que pagar a terceira divisão”. Eu, tricolor, faço o quê? Mando o rubro negro pro porta-malas? Complicado, muito complicado. Fora outros problemas práticos da convivência forçada sem regras. Quem é que controla o rádio? E o ar condicionado? E as paradas para comer e esticar as pernas? E se o outro for um daqueles metidos a co-pilotos que dão pitacos sobre a velocidade e a hora certa de ultrapassar? Esse BlaBlaCar vai ser uma fábrica de serial-killers, podem anotar.

E devo acrescentar que todos os cubanos entram com louvor na categoria BlaBlaBlaBlaBla, de quem fala até (não) dizer chega

Para não dizerem que sou um pária imprestável, já fiz um bonito nessa área. Em Cuba aluguei um carro e percorri o interior por quinze dias. Lá é de bom tom dar carona, eles consideram que se você tem um carro normal e está dirigindo sozinho, não há nenhum motivo para não levar mais três pessoas. Coisa de comunista comedor de criancinhas e fã de ditadura gayzista e bolivariana. O fato é que como estava lá segui o código dos nativos. Dei carona para médicos, engenheiros, lavradores e até uma garota de programa. Com essa eu tive que fingir que era gay, já que ela não estava muito disposta a perder a viagem. A tática se revelou um tiro no pé, ela logo lembrou que tinha um sócio muito bem dotado, atuando no mesmo ramo, e estabelecido no nosso caminho. A mentira pode ter, além de pernas curtas, um pênis grande. Por sorte escapei, incólume, do paredón.

O fato é que com esse episódio dei por encerrada minha cota de caronas, pagas ou não. Então não me sinto culpado em fugir do BlaBlaCar, já que assim poupo o resto da humanidade de me ouvir reclamar de tudo por horas. Estou colaborando, viu mamãe?

 


Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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