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A velocidade do Funk

A 130 ou 150 BPM, movimento não para de crescer, nas ruas e nas redes sociais


O DJ Rennan da Penha faz uma selfie com alguns dos seus milhares de seguidores. Foto Divulgação
O DJ Rennan da Penha faz uma selfie com alguns dos seus milhares de seguidores. Foto: Divulgação

Quinta-feira, fim de tarde, Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá. No térreo, recepções para dois eventos ladeiam os elevadores. De um lado, moças elegantes de preto informam que o evento no auditório do quinto andar – com poltronas e capacidade para 100 pessoas – é reservado a convidados e reúne empresários e autoridades do setor para discutir o turismo, em crise, do Rio. Do outro, uma dupla de jeans e camiseta recebe os interessados na 6ª Conferência do Funk, movimento musical da periferia por onde o pior da crise – as restrições aos bailes no começo da década – parece ter passado. A sala para o debate dos funkeiros é simples e a plateia jovem, negra e com forte presença feminina, bem diferente do público – branco, masculino, traje esporte fino, meia-idade – do quinto andar.

O funk sempre foi criminalizado e, mesmo assim, resistiu e só faz crescer

Mateus Aragão
Organizador do 7º Rio Parada Funk

Para o público desinformado, entre eles, este jornalista, a abertura dos dois dias de debate tem um título incompreensível: “150: A batalha dos BPM”.  Pois esta é a maior polêmica do funk atual desde que o veterano DJ Cabide – Everton Ramos de Araujo, 42 anos, quatro filhos – esculachou, via redes sociais, a moda dos jovens DJs de tocar clássicos do funk com 150 batidas por minuto (BPM!). Em tempo: as músicas dos bailes costumavam ter 130 BPM e o foco da crítica era a maior estrela da nova geração, o DJ Rennan da Penha. O troco veio rápido, com Rennan usando suas redes sociais – 150 mil seguidores no Facebook, 50 mil no Instragam – para contra-atacar: Cabide estaria sendo oportunista e usando a polêmica para se promover às custas da fama do jovem rival.

A DJ Iasmim Turbininha, na mesa de chapéu escuro, é uma das adeptas do 150 BPM. Foto Oscar Valporto
A DJ Iasmim Turbininha, na mesa de chapéu escuro, é uma das adeptas do 150 BPM. Foto: Oscar Valporto

A fama não é pequena: o podcast de um baile a 150 BPM (sem vídeo) do DJ Rennan da Penha no Youtube já teve 574 mil visualizações.  O vídeo do Baile da Gaiola – 40 minutos – na festa de aniversário de 22 anos (ou 21, há controvérsias) do funkeiro, com quase 20 DJs convidados, já foi visto por 334 mil. O evento é anunciado como a festa que parou o Rio, porque, de verdade, o trânsito da Zona Norte deu um nó no último sábado de junho com a multidão que foi ao baile que Rennan comanda semanalmente no Complexo da Penha. Seus shows vivem lotados não somente na Penha, mas também na favela da Nova Holanda, no complexo da Maré, onde o Baile do Meu Pai é outro sucesso de público, e no Morro do Chapadão. No Youtube, três vídeos do Baile da Gaiola 2017 tiveram juntos mais de 1 milhão de visualizações.

O garoto da Penha – de quem outro filho ilustre do complexo, o ex-atacante do Flamengo Adriano Imperador, é fã – não é a única estrela em ascensão do revigorado movimento funk. A música mais ouvida via Spotify em 2016 foi Arrocha da Penha, mistura do funk carioca com arrocha nordestino, do MC Flavinho, cujo clipe oficial, com direito a mulheres seminuas, já teve mais de 9 milhões de visualizações no Youtube. O clipe tem participação especial do MC Marvin que também dá o ar de sua graça em outro sucesso carioca no Spotify – Ela se Joga, do Dennis DJ, com 3,8 milhões de visualizações no Youtube.

O DJ Cabide, no microfone, defende a batida tradicional. Foto Oscar Valporto
O DJ Cabide, ao microfone, defende a batida tradicional. Foto: Oscar Valporto

Apesar da polêmica entre as gerações, os funkeiros reunidos na conferência indicam que o movimento só cresce. Pioneiros dos bailes ainda estão na ativa como as equipes Cash Box, Soul Grand Prix, ambas nascidas nos anos 70, e Furacão 2000, sucesso desde os anos 80. E uma novíssima geração ganha espaço alavancada pelas redes sociais. Enquanto os empresários – quase todos homens – discutiam calendário de eventos para o Rio no quinto andar, lá embaixo a estrela do segundo painel – sobre mulheres no funk – era Iasmim Turbininha, 20 anos, nascida na Mangueira, considerada DJ revelação de 2007. Outra adepta do arrocha funk e do 150 BPM, Turbininha tem canal no Youtube com 125 mil inscritos e quatro clipes com mais de 1 milhão de visualizações. Ela garante que também está com a agenda lotada.

O Rock in Rio – cujo idealizador Roberto Medina é um dos palestrantes do quinto andar – pode não ter aberto suas portas ao funk, mas os debates na conferência do segundo andar mostram que a vitalidade do movimento vai muito além do sucesso do Dream Team do Passinho, único representante do ritmo no megafestival. Ou a presença do funk “Oh Novinha”, do paulista MC Don Juan, na trilha sonora da novela global “A Força do Querer”, onde baile funk é sinônimo de gente armada de fuzil. Mas nem a criminalização do funk assusta o pessoal dos bailes. “O funk sempre foi criminalizado e, mesmo assim, resistiu e só faz crescer”, garantiu logo no começo da conferência, Mateus Aragão, organizador não apenas deste evento, como do 7º Rio Parada Funk, encontro de DJs, MCs e grupos que promete lotar a Praça da Apoteose no dia 24 de setembro, mesmo dia do encerramento do Rock in Rio, um sinal de que o funk parece invisível para o pessoal reunido no quinto andar.


Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica croniquetas semanais sobre suas andanças pela cidade.

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