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Tambores da África fazem tremer a vanguarda do século 21

A descoberta pós-moderna de Francis Bebey, criador de músicas que misturam o som dos pigmeus à tecnologia ocidental


Coletânea de músicas de Francis Bebey: destaque na lista dos “101 Álbuns Mais Estranhos no Spotify”, do The Guardian. Foto: Reprodução

Que a música da África é o grito da aurora após a pós-modernidade já se sabe nos guetos da vanguarda há alguns anos. Que o digam as festas mais descoladas das nossas metrópolesselos cool alemães, o arquivo virtual de fitas k7 de grupos afro dos 80 e 90, Awesome Tapes From Africa, as vernissages, as instalações, algumas das bandas ocidentais alternativas mais excitantes (Django Django, Metronomy, Hot Chip, Vampire Weekend), as publicações premium gringas, as redes sociais e sei lá mais quem.

Algum tipo de criatividade que não se encontra mais no grosso da música pop misturada contemporânea, que chegou ao status de arte da pasteurização, está neste refúgio africano que tem mexido com a gente, o afrobeat. A música de sintetizador da África do final dos anos 1960 e dos 1970 soa como uma estranha seiva do futuro se contrastada com o leite talhado das minguadas canções globais que frequentam as paradas de hoje

A exemplo de Dinho Ouro-Preto, que cantou “a Europa está um tédio, vamos transar com estilo, nós só temos um remédio, descendo o Rio Nilo”, em 1984, os habitantes do século 21 vêm trazendo da África anciã a sabedoria, o ritmo, o espírito da floresta, a pureza do batuque com os pés no chão e a cabeça girando nas nuvens para estes tempos de reconexão com a terra e novo encantamento. A ressaca da nostalgia comandada pelos enlatados dos U.S.A de nove às seis finalmente bateu. E o bode com o excesso de tecnologia está morando na sala.

Algum tipo de criatividade que não se encontra mais no grosso da música pop misturada contemporânea, que chegou ao status de arte da pasteurização, está neste refúgio africano que tem mexido com a gente, o afrobeat. A música de sintetizador da África do final dos anos 1960 e dos 1970 soa como uma estranha seiva do futuro se contrastada com o leite talhado das minguadas canções globais que frequentam as paradas de hoje com suas batidas ralas, sem coração valvulado, e suas frases melódicas preguiçosas.

Francis Bebey. Foto: Reprodução/Youtube

Na rede de mama África balançam corpos, mentes e corações em cadências místicas que vão deixando de ser absorvidas como exotismo pelos ouvintes urbanos. Sua linguagem já é apreendida por nós, mas ainda há uma chama de estranheza que não se extingue ali. Música ritualística, de cerimônia, de pintura em tons desérticos, de tribo. selvagem? Não. cerebral, contemplativa, mântrica, de apelo às altas mentalidades, um chamado ulterior da mata.

Em matéria de 2013, o The Guardian anunciou os 101 álbuns mais estranhos no Spotify. Francis Bebey estava entre eles, representado pela coletânea “Francis Bebey — African Electronic Music 1975–1982”. Sua fama não é impressionante, mas há cerca de 56 mil ouvintes mensais do artista no programa de streaming e seu maior sucesso, “The Coffee Cola Song”,  tem consideráveis 750 mil audições por lá.  A coletânea é como as que o selo Analog Africa edita. E, falando em Analog Africa, lembro dos sons de Cabo verde, conhecidos pelo mundo graças à coletânea “Space Echo”,  que também ocupou espaço no The Guardian.

Suas músicas flutuam entre o misterioso, o evocativo, o bem-humorado e o transe, atingindo um grau diamante de psicodelia, num ajuste finíssimo do que vem do seio africano — a flauta usada pelos povos pigmeus, por exemplo — com o que vem dos colonizadores — os sons sintéticos, fabricados em teclados inteligentes

Bem, a lógica de Francis é a mesma que move “Space Echo”. Nas palavras do Guardian: “Para promover a música africana, Francis Bebey armou um plano simples: usar a tecnologia ocidental para fazê-la soar mais familiar”. Não é à toa que bandas como o Metronomy enfiaram um afrobeat subliminar no seu indie rock (experimente ouvir “New Track”, de Bebey, ao lado de “Radio Ladio”, um dos primeiros sucessos do Metronomy e verá a impressionante semelhança entre as duas). A via é de mão dupla.

Mas who’s that Bebey Boy? Quando o camaronês, filho de um ministro protestante, criado entre livros e discos, começou a gravar essas músicas geniais, ele já estava com 30 e poucos anos. Suas músicas flutuam entre o misterioso, o evocativo, o bem-humorado e o transe, atingindo um grau diamante de psicodelia, num ajuste finíssimo do que vem do seio africano — a flauta usada pelos povos pigmeus, por exemplo — com o que vem dos colonizadores — os sons sintéticos, fabricados em teclados inteligentes.

Talvez o que mais explique a música de Bebey seja a densidade das florestas equatoriais que não veem a luz do sol. O que se espera da África é algo solar, amarelo e laranja, vibrante. Não que a música de Bebey não seja vibrante. Ela é, mas não é uma música solar, contraditoriamente, com a exceção de sua canção mais conhecida, “The Coffee Cola Song”. O sentimento noturno percorre a maioria de suas composições como pode provar o título sugestivo de uma delas, “Sanza Nocturne”.

Uma flauta de som muito agudo, intrigante e etéreo, que às vezes soa como um xilofone dentro de um tronco de árvore, marca suas músicas, que transitam pelo folk e pela eletrônica minimalista com igual desenvoltura. Essa flauta tocada pelo próprio Bebey – também multiinstrumentista, e que se mudou nos anos 1950 para Paris, para estudar música na Sorbonne – é uma invenção dos povos pigmeus da áfrica. O especialista francês em música étnica Simha Arom, que pesquisa esse gênero há mais de vinte anos, abordou a polifonia (sobreposição de melodias) do som dos pigmeus da África Central em seus estudos. Até essa revelação, pensava-se que apenas a civilização ocidental era capaz de chegar a esse nível de sofisticação. E a música dos pigmeus não é só polifônica, é também em contraponto (várias vozes em diversas combinações), algo bastante incrível por tratar-se de um povo que desconhece a escrita.

Mas voltando a Bebey, que também foi poeta e jornalista, foi em Paris que ele se frustrou com o que percebeu como um preconceito de colonizador com os ritmos africanos tradicionais. É aí que nasce a fusão da tecnologia ocidental com a sonoridade africana, que alguns corajosos vinham experimentando.

Talvez a larga popularidade de “The Coffee Cola Song” (1982) se dê pela “referência aos estilos de synthpop emergentes” na época, como diz o The Guardian. Sua melodia altamente assobiável e a mistura do synth moderno com o sample de um “hindewhu” (solo de flauta dos pigmeus) tornaram-na irresistível. Mas o que choca mesmo nessa canção — que  que acaba de pintar num teaser delicioso no instagram do escombro , projeto de synthpop de luciano oliveira (The Twelves)— é a sua letra. “Tem gente na cidade, gente doida na cidade, comendo pão, manteiga e mel, e bebendo café preto e cola. Eles acreditam que somos homens selvagens só porque não usamos dinheiro e não bebemos café e cola. Mas se você pudesse ir lá e visse como eles vivem, então, você descobriria como eles são selvagens, muito mais que nós, eles continuam sonhando com guerra, ódio e crime por toda parte, que é onde eles podem encontrar o dinheiro que precisam pra comprar café e cola”.

Glup!

O contraste da letra triste de simplicidade e verdade perfurantes com a melodia de verão atípica para o universo um tanto soturno de Francis Bebey faz com que a canção fique ainda mais mágica. Cantando o amor e o divórcio pigmeus, as flores tropicais, a condição masculina, o terceiro mundo e os crocodilos, Bebey foi absoluto em seu afrobeat ora de caixinha de música, ora de baticum mântrico. A descrição do Guardian para “Pygmy Love Song”, uma de minhas favoritas, é perfeita e dá a dimensão do quão pop dentro da sua estranheza é a música de Francis Bebey: “A dolorosamente pesada e amigada com o yodel (maneira de cantar alternando pitch normal e falsete) ‘Pygmy Love Song’ soa como o tipo de gravação que Damon Albarn (Blur; Gorillaz) daria seu dente de ouro para compor”.

Bebey morreu aos 71 anos, em 2001, depois de entregar ao mundo o livro que é considerado o trabalho fundamental sobre música africana, “African Music: a People’s Art”, um guia dos músicos, instrumentos e formas de fazer música nesse continente tão rico.


Escrito por Leilah Accioly

Leilah Accioly

Nascida no Rio de Janeiro, Leïlah Accioly é jornalista de formação e inquieta por vocação. Escritora e poeta, lança seu primeiro livro em setembro. Artista visual, criadora do evento transmídia Sarau Eletrônico e cofundadora da revista Vertigem, foi curadora e diretora de exposições. Acaba de fundar a startup de design de móveis e marcenaria digital, Movendo.

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