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A menina tímida que conquistou os holofotes

A história da premiada atriz e dramaturga Grace Passô, que driblou a pobreza e o racismo para deixar sua marca no teatro e no cinema. Sem esterótipos, por favor


Grace Passô: da periferia de Belo Horizonte para o topo do teatro. Foto: Divulgação
Grace Passô: da periferia de Belo Horizonte para o topo do teatro. Foto: Divulgação

Por onde Grace Passô, deixou sua marca. Com o perdão do trocadilho (previsível), a vida desta atriz, diretora e dramaturga, que pavimentou seu caminho até o topo do teatro brasileiro, não tem clichê algum.  Grace, 37 anos, é a síntese do que é ser uma artista de pele preta em nosso país, ao mesmo tempo que escapa de qualquer  lugar comum ou de estereótipos que lhe queiram imputar ao falar de artistas ligados a causas raciais. Agraciada por prêmios como o de melhor atriz do Festival do Rio pelo filme “Praça Paris“, de Lúcia Murat — que entra em circuito nesta quinta-feira (26 de abril) —,  Prêmio Shell (de melhor autora, por “Vaga carne” e “Por Elise”),  prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte, também pelo texto de “Por Elise”), entre outros, Grace, antes de ser Passô, foi Grace Anne Paes de Souza, menina tímida e silenciosa, caçula de sete irmãos.  “Sou de uma família de trabalhadores valentes, como toda família brasileira”, diz.

Me agrada olhar para as coisas com um certo silêncio. Eu me alimentei de literatura e comecei, ainda criança, a ler Guimarães Rosa, que foi o norteador desse meu desejo de escrever

Grace Passô
Atriz, diretora e dramaturga

Ela nasceu na cidade de Pirapora, em Minas,  às margens do Rio São Francisco. Perdeu o pai, funcionário público, quando ainda era recém-nascida e viu a mãe enfrentar a pobreza e  “todas as dificuldades de uma família que sai do interior para a cidade grande”.  Com a morte do marido, a mãe de Grace decidiu migrar com os sete rebentos para Belo Horizonte. Morando no bairro Alípio de Melo, na periferia da capital mineira, mesmo em meio à pobreza, Grace teve a vida muito atrelada à arte. Ela sempre teve contato com livros e presenciou inúmeras conversas, entre sua mãe e seus irmãos mais velhos, sobre teatro, música e exposições de arte.

Assim, a menina tímida e quietinha começou a se nutrir daquilo que lhe daria base no futuro. “Sempre fui muito observadora e silenciosa. Eu sou assim até hoje, sabe?, me interessa muito o olhar meditativo sobre a vida, associado à ação. Me agrada olhar para as coisas com um certo silêncio. Eu me alimentei de literatura e comecei, ainda criança, a ler Guimarães Rosa, que foi o norteador desse meu desejo de escrever. Depois, Hilda Hilst… Sempre tivemos contato com a arte mesmo sem nunca ninguém ter trabalhado com isso. Só eu, depois, que tive essa oportunidade, essa sorte.”

Com esse repertório familiar sensível, Grace teve a chance de entrar no Centro de Formação Artística Tecnológica, aos 13 anos, em 1994, quando BH ainda tinha poucos cursos de teatro. E, como ainda é tristemente comum, não era nenhuma novidade que, entre seus colegas, ela fosse uma das poucas negras que conseguiram chegar ali.

Óbvio que nunca foi fácil estar em lugares em que eu era a única negra.  E isso ainda acontece. Jamais fui o modelo perfeito para os espaços que eu queria conquistar

Grace Passô

“Havia algumas pessoas negras no curso amador que eu frequentava,  mas, desde o início, os espetáculos que eu queria fazer eram muito brancos. A escola técnica onde me formei sempre foi muito disputada, pois ainda não existia curso de artes cênicas nas faculdades de Minas. Acho que eram dois ou três negros na turma, entre 20 alunos”, revela.

Segundo ela, a questão racial nunca foi muito discutida dentro de casa.  “Nós falávamos de luta de classes, comunismo, desigualdades sociais do Brasil… Claro que o tema surgia dessa discussão. Mas, com certeza, por sermos vítimas do racismo à brasileira, lidávamos com isso de  forma mais indireta. Mas sempre acreditei muito na minha visão crítica de mundo.  A consciência de raça foi algo que sempre afirmei. Óbvio que nunca foi fácil estar em lugares em que eu era a única negra.  E isso ainda acontece. Jamais fui o modelo perfeito para os espaços que eu queria conquistar.”

Grace, pequenina, com seu bolo de aniversário: timidez. Foto: Acervo Pessoal
Grace, pequenina, com seu bolo de aniversário: timidez. Foto: Acervo Pessoal

A atriz aprendeu com a mãe a se impor nos lugares em que a sua cor não era a mesma das outras pessoas. “Minha mãe me dizia: ‘Vai, entra nos espaços que não parecem ser seus e sem pudor. Nem pensa se é negra e se não é’. Ao mesmo tempo que tinha essa consciência, ela mesma estava tentando vencer esses espaços da branquitude em que somos invisibilizados. Só no final do curso de teatro é que comecei a encontrar pessoas com quem podia trocar impressões sobre o significado de ser uma artista negra no teatro brasileiro.”

Desde então, Grace Passô teve peças traduzidas em seis idiomas, como “Por Elise” (2005), “Amores surdos” (2006), “Mata teu pai” (2007), “Vaga carne” (2016) e a mais recente, “Preto” (2018). Nelas, trata de questões como machismo, racismo e negritude, de forma muito singular. Mesmo com tanto estofo, ela se preocupa com as apropriações de sua imagem e com os estereótipos, muito comuns,  como o da “negra forte”. “Vejo isso de forma positiva, mas também extremamente perigosa. Fico muito preocupada quando me definem como ‘negra’ de forma simplista. Quando isso é feito por lugares da mídia sem responsabilidade real no combate ao racismo e na abertura de espaço para negros. Ou por instituições que não querem abrir mão de seu olhar branco sobre o Brasil. Me preocupo com a obsessão em me definir como ‘mulher negra’. Isso é legal se de fato essas pessoas estiverem preocupadas com uma mudança legítima da sociedade, mas é perigoso quando a negritude vira um slogan”, reflete.

Mesmo com essa a preocupação, a dramaturga entende tudo isso como parte de um longo processo de luta, de amadurecimento das narrativas e de um momento em que as artes cênicas, assim como todos os meios de produção artística do país, estão cada vez mais sendo cobrados por representatividade. “A arte brasileira está tendo que reagir a toda essa complexidade, pois a militância negra brasileira provocou essa  mudança de patamar. Foi dado um passo, mas ainda bem pequeno, exigindo outros. É preciso que as pessoas tenham noção de que estão falando de uma questão muito grande e que requer uma mudança de toda a sociedade.”

Enquanto isso, a atriz sente que está fazendo a sua parte. Ela se diz cada vez mais conectada com aquela menina quieta, que observava tudo antes de catalisar uma ideia, um pensamento, para transformá-los em ação. Mas está sempre em atividade. “Acho que é impossível viver sem estar atenta. Sou uma artista brasileira e, como toda mulher, faço muitas coisas ao mesmo tempo. Me sinto uma pessoa em ebulição”, resume.


Escrito por Gilberto Porcidonio

Gilberto Porcidonio

É repórter do jornal "O Globo" e sociólogo em formação pela PUC-Rio. Especializa-se em cultura e questões raciais. Como poeta, mantém o alter-ego Frederico Latrão e, como escritor, é um dos autores da coletânea "Larica Carioca", sobre os quitutes dos bares do Rio de Janeiro, além de manter o blog 'O Títere'.

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