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Desculpem, mas eu gostei da Flip

Um retrato amoroso da edição 2016 da Feira Literária de Paraty, acusada de elitista e esnobe nas redes sociais


A russa ganhadora do Prêmio Nobel Svetlana Aleksiévitch fala para 3 mil pessoas
A russa ganhadora do Prêmio Nobel Svetlana Aleksiévitch fala para 3 mil pessoas / Foto: Mariana-Newlands

A Flip foi linda. Pode não ter tido mesas sobre a crise política – e eu achava que deveria ter – mas a Laura Liuzzi inventou a humilhação poética e deixou cristalina a ilegitimidade múltipla do Temer. O J.P. Cuenca achincalhou o governo patético do Rio (chamar o Paes de “Pereira Passinhos” foi lindo). O Gregorio Duvivier foi um mediador desmedido e falou também, e a Tati Bernardi estava rouca “de tanto dizer Fora Temer”. Tá bom, digam que isso é pouco, mas não foi nada pouco a inteligência sublime e maravilhosa do Leonardo Fróes, falando do desastre de Mariana e do Brasil, e quem não viu política pra valer, das boas, das imensas, na fala da Svetlana Aleksiévitch, do Ricardo Pereira, do Benjamin Moser, do Caco Barcelos, do Misha Glenny, meu deus, vocês precisam prestar mais atenção.

A Flip foi linda. Pode ter sido só um encontro festivo que “não influencia no destino cultural do país”, mas apresentou para um bando de gente a poesia da Ana Cristina Cesar, que pode não ser o turning point da literatura mundial mas é um pulo do gato no modo de fazer poesia do Brasil, e muita gente conheceu a Ana pela primeira vez, e a poesia marginal, e o que veio depois, e o depois. Fazer as pessoas conhecerem poesia não é pouca coisa.

A Flip foi linda. Pode ter considerado como “herdeiras de Ana C.” apenas mulheres (e os homens? E os gays?), mas teve a Heloisa Buarque falando de questão de gênero (“as mocinhas secundaristas arrasam”), e o Benjamin Moser se declarando um gay feminista. Vocês juram que não acham isso bom?

Se eu puder deixar uma única imagem dessa Flip 2016, fique com a seguinte: três mil pessoas (mil dentro, duas mil fora da tenda) em um silêncio absoluto, silêncio de cortar com faca, ouvindo a fala mais relevante da literatura mundial, a russa ganhadora do Prêmio Nobel Svetlana Aleksiévitch, enfiando uma estaca no nosso peito acomodado, falando dos horrores do século, da necessidade de escutar as pessoas, da empatia, de estar no mundo de um jeito consciente.

A Flip foi linda. Pode ter tido a abertura com dois homens, mas um deles era o Armando Freitas Filho, minha gente, presta atenção no homem, na poesia do homem, nos poetas que ele acolhe, no modo de fazer poesia, na teoria do filho único, no jeito do Armando se mover no mundo, façam isso, e parem de dizer que escolhê-lo para abrir a Flip é um modo de calar as mulheres, é uma escolha machista.

A Flip foi linda. Pode ter tido a ausência de autores negros, e é lamentável, pode ser um evento de elite, as pousadas são caras, a cidade não ficou tão cheia, “falta glamour nas festas” (sim, disseram isso), faltou que os autores preparassem suas falas e, olha, preencha aqui tudo que você critica, e provavelmente você vai ter razão, e que bom que tem esse evento, essa festa, pra você botar defeito.

A Flip foi linda. Pode não ter feito “consulta ao público” e não ter “trazido o Paulo Coelho” (que, sim, já foi convidado em edições anteriores), mas trouxe o Karl Ove Knausgård, que foi impecável no seu número provavelmente encenado outras vezes, mas era a primeira vez aqui, e quem quis ouvi-lo saiu satisfeito da vida, porque foi uma fala de literatura, de escrita, de livro, uma coisa linda.

A Flip foi linda, porque a Flip nunca é só a Flip. A cidade estava cheia de debates incríveis, e teve Shakespeare, e teve filmes, e teve falas, e teve gente se encontrando de um lado para o outro, e teve piadas, e teve festas. E quem quis ver viu.

A Flip foi linda por isso e muito mais. Mas, se eu puder deixar uma única imagem dessa Flip 2016, fique com a seguinte: três mil pessoas (mil dentro, duas mil fora da tenda) em um silêncio absoluto, silêncio de cortar com faca, ouvindo a fala mais relevante da literatura mundial, a russa ganhadora do Prêmio Nobel Svetlana Aleksiévitch, enfiando uma estaca no nosso peito acomodado, falando dos horrores do século, da necessidade de escutar as pessoas, da empatia, de estar no mundo de um jeito consciente. Eram três mil pessoas se emocionando com uma russa com um casaquinho soviético florido, que dizia numa voz mansa da necessidade de ser otimista, e de lutar para que as pessoas não precisem tanto ser otimistas, da necessidade de amar – sem pieguice, coma seriedade de uma russa que aprendeu a ver apenas o que importa. Se isso, se o silêncio à beira mar, e aquelas três mil pessoas ouvindo, não vale a pena, então é fácil: não vá à Flip. Eu vou. E, desculpa, mas eu gostei da Flip.


Escrito por Ana Lima Cecílio

Ana Lima Cecílio

Ana Lima Cecilio é formada em filosofia pela USP e trabalha há doze anos no mercado editorial.

2 posts

Um Comentário

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  1. A FLIP foi linda pra quem se sentiu representado por aquelas pessoas. Ou seja, homens e mulheres brancxs. É muito fácil achar lindo quando a representatividade está posta na mesa, quando você se enxerga. Quero ver achar lindo e bater palma quando você é invisível e sua existência como ser político é completamente apagada e ignorada. Quero ver achar lindo quando em um evento sobre MULHERES, você MULHER NEGRA simplesmente não está ali, não foi convidada, não foi representada. Simplesmente não existe naquele universo elitista e de completa exclusão. A FLIP foi uma VERGONHA. Nao esqueça que as mulheres negras são maioria da população brasileira e não há nada de lindo em invisibilizar essa existência.

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