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Crivella, não deixe a feira das Yabás morrer

Carta ao prefeito eleito do Rio pede vida longa ao evento, uma celebração à cultura negra


A cultura negra está nos sabores da culinária e na música na Feira das Yabás (Foto Berg Silva)
A cultura negra está nos sabores da culinária e na música na Feira das Yabás (Foto Berg Silva)

Senador,

Parabéns por sua eleição. Tomara que o senhor consiga cuidar das muitas agendas de nossa cidade.

Neste domingo, aconteceu a última Feira das Yabás de 2016. Foi, como de hábito, uma tarde memorável de celebração à cultura negra, no ritmo preciso do samba conduzido por Marquinhos de Oswaldo Cruz. Uma multidão toureou o mormaço apocalíptico – o Centro de Operações aferiu 49,3º de sensação térmica – para se esbaldar na festa tarde adentro.

Mas havia um clima de incerteza em relação à sobrevivência do evento, que existe graças ao patrocínio da Prefeitura. Não há qualquer sinalização visível do setor público, numa indefinição angustiante para algumas dezenas de pessoas que vivem da feira. Entre elas, senador, estão as senhorinhas que fazem a comida sublime vendida em 16 barraquinhas, e os responsáveis pela música magistral.

A Feira das Yabás é um espetáculo com a melhor cara da cidade. Para começar, acontece num endereço-chave da civilização carioca. Talvez, num corpo a corpo das muitas campanhas de que participou, o senhor tenha passado por lá. Chama-se Praça Paulo da Portela

O senhor não deve conhecer, por ser de outra tribo, temente a outros credos. Jogo jogado, cada qual com seu cada qual. Mas a Feira das Yabás é um espetáculo com a melhor cara da cidade. Para começar, acontece num endereço-chave da civilização carioca. Talvez, num corpo a corpo das muitas campanhas de que participou, o senhor tenha passado por lá. Chama-se Praça Paulo da Portela. Pequena, típica do subúrbio, oferece mesinhas-tabuleiro (daquelas usadas por aposentados), alguns bancos e menos árvores do que o necessário para enfrentar o sol. Em frente, está a Estrada do Portela, que fecha ao trânsito da vida real para o samba passar. Lota sem propaganda nem badalação, apenas no boca a boca dos apaixonados pelo babado. Senador, precisa ver a alegria de quem vai e de quem recebe o povo. Harmonia, contentamento, dança – mágica pura.

(Para lhe poupar a pesquisa: Yabá, na origem africana, significa Mãe Rainha, termo atribuído a Iemanjá e Oxum. No Brasil, passou a ser utilizado para se referir a todos os orixás femininos.)

Estômago satisfeito, o provo samba na Feira das Yabás, sempre no segundo domingo do mês (Foto Berg Silva)
Estômago satisfeito, todo mundo samba na Feira das Yabás, sempre no segundo domingo do mês (Foto Berg Silva)

Muito além da feira mensal, ali funciona um dos abrigos da mais autêntica cultura formadora do Rio. Um pouquinho adiante, em frente ao ponto onde a mangueirense Vera Caju monta a barraca do cozido, fica a Portelinha, berço da maior vencedora do nosso Carnaval. Neste domingo, Jerônimo, lendário passista, ex-mestre-sala e hoje diretor de harmonia, ensaiava uma ala coreografada. Permitia olhadas breves, mas logo enxotava os curiosos, preocupado em afinar o passo da turma que vai para a Sapucaí.

O início dessa história, aliás, ajuda muito a entender o dever do poder público com a cultura popular. Era bem ali que desfilava a Vai Como Pode, pioneira do Carnaval, no meio da década de 1930 – um tempo em que antecessores seus na Prefeitura obrigavam as escolas a pedirem autorização na Delegacia de Costumes para sair. (As manifestações dos negros sempre duelaram com o preconceito e a burocracia estatal para existir. O samba ontem, o funk hoje… #vaivendo)

Para o Carnaval de 1935, o responsável pelo registro, delegado Dulcídio Gonçalves, implicou com o nome. Achou desrespeitoso e não deu o aval. Criou-se o impasse, pitangas foram choradas a rodo, até que o doutor, querendo se livrar daquela gente aborrecida, perguntou: “Querem desfilar aonde?” Diante da resposta – a Estrada do Portela –, decretou: “Então, o nome é Portela”. Para o senhor ter a dimensão da importância do que acontece naquele trecho mítico do subúrbio.

E a História invade o presente, na celebração aos saberes d’África, que chegaram aqui no bojo da violência inominável da escravidão. Estão lá a generosa gastronomia das senhoras – do peixe frito com molho de camarão e pirão de Tia Nira à carne-seca com abóbora de Selma Candeia; da rabada com batata e angu de Dona Neném ao angu à baiana de Neide Santana; da carne assada com macarrão de Tia Edith ao frango com quiabo de Rosimeri (primeira-dama da Feira), entre outras maravilhas. Mesmo o senhor, nesse jeitão meio diet, ia adorar.

Testemunhar o miudinho de Tia Nira, que chega de bengala e enfeitiça o público com seu passo impecável, é de graça – até porque vale muito mais do que dinheiro. Desfila, naquele corpo miúdo de 76 anos, todo um povo lutador, que vence a intolerância em nome da arte tatuada em seu DNA. Sem ele, aqui não seria o Rio de Janeiro

Não fosse o menu, pelo exemplo admirável de empreendedorismo, tão caro a adoradores do liberalismo, da iniciativa econômica etc. E, lembre-se, os agentes ali são senhoras negras gerando renda, no setor de serviços, vocação tão maltratada neste enclave de sol, montanha, flores e mar, que lhe caberá governar. Neste momento infame de torniquete na Previdência e aperto no bolso do povo trabalhador, elas merecem ainda mais cuidado e carinho dos homens brancos, donos do mundo e do mercado, como o senhor.

Apetites saciados, chega a sobremesa musical para materializar o sonho de uma terra melhor, ao som de joias como “Geografia popular”, canção-manifesto de Marquinhos, Arlindo Cruz e Edinho que descreve o sonho do passeio por uma cidade fraterna e integrada, desde Deodoro até chegar, em rimas de partideiro, ao Leblon. Ou “Vai ô nega”, o hino da feira (de Marquinhos e Ivan Milanês), momento de as Yabás subirem ao palco para receber as palmas da plateia, pela comida, pelo clima, pela energia, pela História.

Testemunhar o miudinho de Tia Nira, que chega de bengala e enfeitiça o público com seu passo impecável, é de graça – até porque vale muito mais do que dinheiro. Desfila, naquele corpo miúdo de 76 anos, todo um povo lutador, que vence a intolerância em nome da arte tatuada em seu DNA. Sem ele, aqui não seria o Rio de Janeiro – este que o senhor tanto insistiu em governar. Manter a feira é, assim, uma espécie de obrigação cívica, da pátria carioca.

O próximo encontro das Yabás está marcado para 8 de janeiro de 2017, o segundo domingo do mês, como manda a tradição iniciada há oito anos. Viabilizá-lo já será atribuição sua. Vem com a gente na hashtag, senador: #AFeiradasYabásNãoPodeAcabar

Boa sorte.
Vida longa às yabás


Escrito por Aydano André Motta

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Foi comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”.

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