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Circulação de duas moedas separa turistas de cubanos

População pode trabalhar, mas não consumir nos ambientes frequentados exclusivamente por estrangeiros


Turistas seguem o guia pelas ruas de Havana: 4,7 milhões visitaram Cuba, em 2017. Foto: Ricardo Brasil

Quando as empresas estrangeiras tiveram autorização para começar a investir em hotelaria em Cuba, a partir da metade dos anos 1990, os turistas chegaram, atraídos pelas construções históricas, pelas praias de areia branca e, claro, curiosos por conhecer a ilha que adotara o regime socialista e vivia sob o embargo norte-americano desde os anos 1960.

As levas de turistas parecem ter apontado o caminho para o país reverter o quadro de crise econômica aguda, instaurado com o fim dos subsídios soviéticos no final da década de 1980, sem perder seus princípios ideológicos centrais: contar com o apoio empresarial internacional e até mesmo cubano.

Raúl Castro, que assumiu o comando do país em 2006, com o afastamento de seu irmão, Fidel Castro, por problemas de saúde, inspirou-se no modelo vietnamita para autorizar o surgimento de empresas privadas no setor de serviços, mantendo nas mãos do Estado os setores de saúde, educação, cultura, defesa nacional, infraestrutura e sistema financeiro. O Vietnã, desde 1991, conta com o desenvolvimento de parques industriais financiado por capital estrangeiro.

Leia também “Cuba, entre mitos e verdades” e “Cuba, um país involuntariamente sustentável

Nem todos os estabelecimentos comerciais estão abertos aos cubanos, pois só aceitam pagamentos em CUC, que é a moeda do turismo. Com isso, temos ambientes frequentados exclusivamente por estrangeiros, nos quais os nativos podem trabalhar – mas não consumir

Surgem então os cuentapropistas, trabalhadores por conta própria, que vão abrir sapatarias, salões de beleza, barbearias, paladares (restaurantes residenciais); ou alugar quartos e imóveis para turistas, entre outros pequenos negócios. Os agricultores também receberam autorização para produzir e vender a preços livres nos mercados urbanos.

De acordo com o Ministério do Trabalho e Seguridade Social de Cuba, os cuentapropistas representam cerca de 12% do total de trabalhadores ocupados do país, sendo que 32% são jovens, 33% são mulheres, 16% são assalariados em alguma empresa estatal e 11% são aposentados. Nos dois últimos casos, trabalhar por conta própria indica uma forma de melhorar os rendimentos da família.

Salão de beleza: pequenos negócios ganham força na ilha. Foto: Ricardo Brasil

O aparecimento dos cuentapropistas está associado ao desenvolvimento de uma classe média em Cuba, indicando uma estratificação social que se reflete em diferenças geográficas, nos hábitos e no consumo. Bairros mais turísticos contam com serviços urbanos melhores do que os populares. O transporte coletivo admite diferenciação por preço – ônibus com ar condicionado são mais caros, oferecem mais conforto e não transportam passageiros em pé.

Nem todos os estabelecimentos comerciais estão abertos aos cubanos, pois só aceitam pagamentos em CUC, que é a moeda do turismo. Com isso, temos ambientes frequentados exclusivamente por estrangeiros, nos quais os nativos podem trabalhar – mas não consumir. Por outro lado, ser turista não significa ter acesso livre a tudo em Cuba. Andar de transporte público, por exemplo, pode ser complicado. Os ônibus só recebem em pesos cubanos  (CUPs) – como eu não podia comprar na casa de câmbio, tive que trocar com o garçom de uma cafeteria.

O principal bairro visitado pelos turistas é o de Habana Vieja, ponto inicial de Havana, fundado em 1519 pelos espanhóis, e que vem sendo restaurado com o apoio do capital internacional. É um centro histórico, com construções dos séculos XVII, XVIII e XIX,  reconhecido pela Unesco, desde 1982, como Patrimônio Cultural da Humanidade. Situada próxima ao porto, a região recebe cruzeiros que despejam milhares de visitantes diariamente, que inundam bares, restaurantes e andam pelas pequenas ruas em grupos, com câmeras e celulares e até guias turísticos. Esses visitantes. em geral, não se aventuram por outros bairros, concentrando-se em Habana Vieja. Sua chegada representa a entrada de moedas fortes – e a oportunidade de novos negócios.

Havana é uma cidade segura, onde se pode usar o celular para fotografar sem medo de ser assaltado e mulheres andam sozinhas à noite, com total tranquilidade

A coexistência das duas moedas e o aumento no número de estrangeiros visitando o país colaboram para a intensificação da prática da gineteria – pequenos golpes que malandros e espertos aplicam nos turistas, como vender charutos falsificados, supervalorar o preço de transportes como bicicletas e táxis, pedir para comprar fraldas para os filhos e acabar sumindo com o dinheiro, entre outros. O assédio sobre os turistas chega a ser desagradável. Geralmente, achavam que nós éramos italianos, o que de cara já estabelecia um patamar alto para os preços dos serviços.

Tínhamos que negociar o tempo todo, alegar que também somos latino-americanos como eles, para conseguir preços mais palatáveis. Um processo no mínimo cansativo, mas em nada ameaçador ou agressivo. Pelo contrário, Havana é uma cidade segura, onde se pode usar o celular para fotografar sem medo de ser assaltado e mulheres andam sozinhas à noite, com total tranquilidade  (embora tenha visto muito assédio masculino). Nas caminhadas pela cidade, é comum cruzar com meninos que passam pedindo “una moneda” –  25 centavos de euro equivalem a 6 pesos cubanos.

Flanando pelas calçadas de Havana: segurança. Foto: Ricardo Brasil

O salário médio mensal na ilha, em 2016, foi de 740 pesos cubanos (CUP), o equivalente a pouco mais de US$ 29, segundo a publicação Salário Médio em Cifras 2016, do Escritório Nacional de Estatística e Informação da ilha. Grande parte dos moradores quer trabalhar para o turismo, pois isso representa ter acesso a ganhos mais altos. Alguns cubanos que alugavam quartos diretamente para turistas agora também estão no Airbnb, que chegou no país em abril de 2015, pouco depois de o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reatar as relações diplomáticas com Cuba.

A circulação simultânea de duas moedas portanto, alimenta o desejo por dólares e outras moedas estrangeiras, por bens de consumo e provoca conflitos de identidade na população. Não à toa, a juventude de Havana se veste com roupas falsificadas de marcas americanas, com logomarcas em tamanhos grandes e cores fortes. Num primeiro momento, é uma imagem que contrasta e parece deslocada da trajetória do povo cubano. Olhando novamente, é como se estivéssemos circulando pelos subúrbios e comunidades cariocas. Em muitos momentos, Cuba é aqui.


Escrito por Lucia Santa Cruz

Lucia Santa Cruz

Sou jornalista, professora universitária, com doutorado em Comunicação e Cultura, casada com o fotógrafo Ricardo Brasil, mãe do Lucas, da Isabela e da Aninha e avó do Teo. Entre outras disciplinas, dou aula de história do jornalismo e radiojornalismo. Trabalhei em jornais diários impressos, revistas segmentadas, emissoras de rádio e em comunicação corporativa. Muitos dos veículos por onde passei não existem mais, mas sigo acreditando que o jornalismo é essencial para sociedades complexas, por ser capaz de identificar e de contar histórias e de nos ajudar a enxergar quem somos. Apaixonada por livros, gatos e chocolate (não necessariamente nessa ordem).

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  1. Passei 10 dias em Cuba em 2016. Viajei por algumas cidades e fui para o interior. Tenho muitos amigos lá. Trouxemos um amigo cubano nosso para passar um mês no Brasil também e ele ficou tão encantando como eu fiquei por Cuba. Logo logo volto para matar a saudade e sentir aquela sensação de sonho nostálgico. Quando te mandarem pra Cuba, se puder, vá!

  2. Gosto muito dos seus textos, eles dão uma ideia muito bacana de Cuba. Estive lá em novembro de 2017 e pude comprovar muitas dessas impressões que vc teve. Entretanto, o acesso à “moneda nacional” , o CUP (Peso Cubano) a estrangeiros não é proibido. Já sabendo que alguns locais aceitavam apenas CUP – inclusive locais turísticos, como a Coppelia – já troquei na própria CADECA. Isso é algo que aprendi lá: sempre ter pesos cubanos em mão pra poder comer, se locomover e comprar coisas que fazem parte do dia-a-dia deles. É a melhor experiência que se pode ter em Cuba. Um país maravilhoso, com problemas econômicos, claro (infinitamente melhor economicamente do que seus vizinhos no Caribe), com pessoas incríveis e que, com certeza, só é o que é hoje por causa da Revolução.

  3. Pedro, estivemos em Cuba na mesma época, em novembro de 2017. Entretanto, nas três Cadecas em que fomos – do aeroporto, no Hotel Nacional e em La Rambla, tentamos trocar pesos cubanos e não nos foi autorizado. Nas três disseram que só poderíamos comprar pesos convertibles.
    De todo modo, que bom que nossas impressões são próximas. Cuba é realmente um país muito interessante, apesar das dificuldades.

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