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Despidas para empoderar

Mulheres desfilaram com os seios à motra nos blocos, marcando posição contra o machismo


Foliãs no bloco da Orquestra Voadora:  topless como atitude política. Foto de Fernando Maia/Riotur

No Rio de Janeiro, Carnaval e nudez costumam estar relacionados. Em 2017, porém, a ausência de roupa parece ter adquirido uma conotação diferente. Enquanto a TV Globo, pela primeira vez na história, exibia seu ícone máximo da festa, a Globeleza, vestida, mulheres desfilavam nos blocos de rua exibindo seus corpos, numa atitude claramente política e com um só objetivo: liberdade.

A nudez no bloco representa a liberdade e aceitação do seu corpo do jeito que é, sem a necessidade de estar dentro do padrão de musa de escola de samba

Ana Karolina Ribeiro
Bacharel em Direito

– Foi o primeiro Carnaval em que me senti segura e confortável para fazer um topless. Percebi que estava em um ambiente onde podia ser livre, dona de mim e, ao mesmo tempo, acolhida, com tantas outras mulheres fazendo o mesmo.  A nudez no bloco representa a liberdade e aceitação do seu corpo do jeito que é, sem a necessidade de estar dentro do padrão de musa de escola de samba -, diz a bacharel em Direito Ana Karolina Ribeiro, de 28 anos, que foi sem a parte de cima da roupa para o Bloco Secreto, na Praça Mauá.

Quem também resolveu desfilar com os seios à mostra em um bloco foi Marcela Balbuena, de 21 anos. “Não posso falar por todas as mulheres, mas acredito que a nudez é uma forma de mostrar que o nosso corpo é só nosso. Quando eu tirei a blusa, várias meninas desconhecidas vieram falar comigo e agradeceram por eu ter mudado um pouco a cabeça delas. Disseram que nunca tinham tido coragem, mas que, no próximo Carnaval, talvez tivessem. Os homens, por muito tempo, objetificaram os seios femininos e se sentiram donos deles. Acho que a mensagem é: ‘Não! O corpo é nosso’, afirma a estudante de Direito, que se divertiu no Bunytos de Corpo, na Praça da Bandeira.

O corpo tem ocupado um lugar central nas lutas feministas contemporâneas. Em diversos movimentos recentes, como a Marcha das Vadias e a campanha #eunãomereçoserestuprada, a nudez tem sido utilizada como um ato político para reivindicar um dos principais lemas dessas lutas no presente:  ‘Meu corpo, minhas regras’.

Tatiane Leal
Mestra em Comunicação

Além de exibir o corpo, as mulheres também ostentavam  tatuagens temporárias com mensagens de empoderamento feminino e de combate ao assédio, como “Beijo não é pedágio”, “Não é não”, “Fantasia não é convite” e “Deixa ela em paz”. Para Tatiane Leal, doutoranda e mestra em Comunicação pela UFRJ, a ausência de roupa é, também, fruto da luta feminista nos tempos atuais.

De peito aberto contra o machismo. Foto de Fernando Maia/Riotur

– Acredito que a nudez nos blocos possa ser vista como um ato político intencional, por parte de algumas mulheres, mas principalmente como um reflexo das discussões que o feminismo tem levantado nos diversos espaços sociais. Em uma festa popular como o Carnaval, em que a nudez feminina sempre foi objetificada como fonte de prazer masculino, muitas mulheres decidiram exercer a nudez enquanto sujeitos. Ficaram nuas por sua própria vontade, não se voltando ao olhar do outro, mas para se sentirem bem com elas mesmas. Outro ponto que pode ter motivado essas atitudes é o constante questionamento dos padrões de beleza que os movimentos feministas têm realizado. Não é somente o corpo considerado “em forma” que pode ser exibido, mas cada mulher passa a ser incentivada a amar seu próprio corpo. As relações entre corpo e empoderamento são bastante claras nesses discursos.

Campanhas recentes tiveram no corpo feminino sua principal forma de protesto e representação. A nudez, como diz Tatiane, se transformou em um “instrumento político”.

– Na perspectiva das ciências sociais, nosso corpo pode ser compreendido como algo que tanto é estruturado e transformado pela cultura quanto pode ser ele mesmo um instrumento político. É uma arena de luta em que novos significados e linguagens podem ser investidos. O corpo tem ocupado um lugar central nas lutas feministas contemporâneas. Em diversos movimentos recentes, como a Marcha das Vadias e a campanha #eunãomereçoserestuprada, a nudez tem sido utilizada como um ato político para reivindicar um dos principais lemas dessas lutas no presente:  “Meu corpo, minhas regras”. É a ideia de que o corpo da mulher lhe pertence e é dela o direito sobre ele, noção comumente negada em uma sociedade marcada pelo assédio e pela precariedade nos direitos reprodutivos –, conclui Tatiane.

De peito aberto com purpurina na Orquestra Voadora (Foto Fernando Maia/Riotur)
Toda purpurinada, na Orquestra Voadora. Foto de Fernando Maia/Riotur

As meninas selecionaram minuciosamente os espaços onde iriam brincar o Carnaval com os seios à mostra, justamente para evitar qualquer tipo de assédio por parte dos homens. “Não faria topless em algum bloco da zona sul, escolhi o Secreto por ter um viés alternativo”,  afirma Ana Karolina. Marcela faz coro. “Eu só fiz isso nos blocos em que me sentia confortável. Em vários outros, não tive coragem, porque tinha certeza que rolaria assédio”.

Totalmente solidário ao movimento das mulheres, o músico argentino Marcos Eric Ortiz,  26 anos, que toca saxofone na Orquestra Voadora, conta que, nos blocos, ouviu “comentários bem desnecessários” de homens quando passavam diante de uma mulher com os seios à mostra. “Achamos que é assim mesmo, que existe algum tipo de poder do homem sobre a mulher, que a mulher é fraca, que a mulher não pode. Está na hora, passou da hora há muito tempo, de crescer de verdade, de rever essa cultura toda, de refazer, de evoluir.”

Marcos também aderiu à nudez no Carnaval. Tocou no bloco da orquestra sem roupa, só com uma meia cobrindo o pênis. “Foi liberdade, diversão e provocação também. Provocação a esse moralismo, essa caretice, essa repressão que nos rodeia”, diz. “Botei uma meia como tapa sexo porque me diverte, porque quero, porque não estou ofendendo ninguém. Assim deve ser, com homens e principalmente com mulheres, que são sempre mais julgadas, reprimidas, ofendidas, e assediadas estejam como estejam”. Claro que chamou muita atenção. Se sofreu assédio? “Algumas mulheres tocaram minha bunda, sim. Mas, infelizmente, não duvido de que se fosse uma mulher assim no Carnaval de rua, teria sido muito assediada”, diz.

Marcos Ortiz é otimista em relação às mudanças que movimentos como o que as foliãs fizeram nas ruas podem provocar. “Falar sobre o assunto é o primeiro passo, aos poucos vamos tomando consciência, entendendo, mudando. Tenho fé de que os filhos da nossa geração terão já outra visão. Num futuro próximo, tudo será bastante diferente. Só com luta isso será possível. Por isso, bóra lutar. Salve o Carnaval de rua, salve a arte de rua, salve a liberdade, salve a igualdade!”.

Qual a diferença, então, entre a nudez feminina nos blocos “alternativos” e nos desfiles das escolas de samba? Para Tatiane Leal, o ato de tirar a roupa, em cada um desses contextos, é quase antagônico. “Ainda que se possa dizer que as mulheres também escolham exibir sua nudez na Sapucaí, é inegável que há uma mediação forte dos meios de comunicação, em um Carnaval atravessado por uma série de interesses comerciais. Os corpos femininos das famosas que são destaque nas escolas de samba são vendidos como parte do atrativo da festa, e se tornam chamariz para a audiência na TV e para cliques nos portais de notícias”, diz a mestra em Comunicação.

Tatiane lembra que as musas do Carnaval, muitas vezes, declaram se submeter a dietas rigorosas para exibir o corpo perfeito na avenida. “É o único corpo desejado e permitido nesse espaço. Assim, a nudez da Sapucaí é alvo de uma objetificação mais institucionalizada. Entretanto, esse espaço do Carnaval atravessado pela grande mídia também pode se configurar em uma arena de luta, como pode se observar na transformação da Globeleza, este ano. Essa mudança pode mostrar a percepção de uma sensibilidade da opinião pública em que o estereótipo da “mulata exportação”, uma imagem machista e racista arraigada historicamente em nossa cultura, passa a ser questionado por uma população mais ampla, a partir das discussões feministas sobre a objetificação do corpo da mulher”.


Escrito por Gabriel Cassar

Gabriel Cassar

Gabriel Cassar é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ e autor do livro "Ressaca do adeus e outras crônicas", lançado pela Editora Chiado, em 2017. Já trabalhou nas áreas de publicidade e propaganda, assessoria de imprensa e redação. Atualmente, é dono da página "Gabriel Cassar - Crônicas, Contos e Poesias" e colaborador fixo do blog "Jornalismo de Boteco".

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