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Quando doar não custa nada

Microcrédito transforma a vida de pequenos empreendedores na periferia de São Paulo


Maria da Consolação exibe, feliz, uma das camisas produzidas para as grifes do Capão Redondo. Foto Florência Costa
Maria da Consolação exibe, feliz, uma das camisas produzidas para as grifes do Capão Redondo. Foto Florência Costa

Maria mostra uma pilha de roupas em cima de uma mesa e pinça do meio dela uma camiseta polo listrada laranja e branca, com mangas e gola pretas. Ela segura as mangas, estica o tecido de algodão e aponta, sorridente, o bordado feito na sua máquina industrial com a inscrição Vila Fundão, marca de uma loja do Capão Redondo, seu bairro, na periferia de São Paulo. “Eu costurei uma dessas para o Mano Brown há alguns anos e como ele apareceu na TV vestindo a peça, fez o maior sucesso”, conta.

Desde os 16 anos Maria da Consolação Pimental é empreendedora na área de corte e costura e hoje está à frente da Aba Pai Confecções. Mas chegou o momento de expandir um pouco o seu pequeno negócio para atender mais demandas de lojas locais. Ela precisava construir um terceiro andar na casa que abriga a sua confecção para colocar mais mesas de corte de tecidos. Maria, no entanto, não tinha dinheiro para bancar a reforma.

Em geral, quando um empreendedor da periferia precisa investir no seu negócio o que ele faz? Vai ao banco pedir um empréstimo e se depara com altas taxas de juros, burocracias e exigências que não o deixam evoluir. Não faz sentido cobrar mais de quem pode menos

Lemuel Simis
Fundador da Firgun

Em agosto, no entanto, ela acabou descobrindo um jeito diferente de financiar seu sonho: um empréstimo coletivo sem juros que lhe deu os R$ 4 mil que precisava. A Firgun, uma startup de financiamento coletivo, propõe um novo paradigma para o microcrédito voltado ao empreendedorismo. Os R$ 4 mil foram coletados de 38 financiadores que receberão o dinheiro empregado em 10 meses. Não existem taxas ou encargos no caminho.

“A Firgun é o ponto de encontro para que isso aconteça. A ideia é proporcionar um espaço virtual para que empreendedores da periferia encontrarem outras pessoas que possam financiar seus investimentos”, explica Lemuel Simis, um dos fundadores da fintech.

Funciona como um crowdfunding, mas há uma diferença: o apoiador receberá de volta não uma recompensa, mas o valor que emprestou e assim poderá apoiar outros empreendedores. É uma forma de promover a inclusão financeira e o empoderamento econômico na base da pirâmide.

“Em geral, quando um empreendedor da periferia precisa investir no seu negócio o que ele faz? Vai ao banco pedir um empréstimo e se depara com altas taxas de juros, burocracias e exigências que não o deixam evoluir”, constata Simis. Os bancos cobram mais de quem pode menos e os empreendedores da “quebrada” não conseguem acesso a um crédito justo.

“Não faz sentido cobrar mais de quem pode menos”, diz ele. Palavra de origem hebraica, Firgun significa “sentimento de orgulho pelas conquistas de outra pessoa”.

Mineira de Sobrália, Maria – que aprendeu a costurar com 13 anos, vendo a sua mãe trabalhar – veio para São Paulo sozinha, ainda adolescente, em 1988, e ficou na casa de um primo. A partir daí, começou a costurar uniformes para escolas e para empresas, batendo de porta em porta em busca de clientes. Em 2002,  comprou a primeira máquina de bordar. No ano seguinte, após Mano Brown aparecer na TV com a camisa que Maria havia costurado para a loja Vila Fundão, mais de mil pedidos foram feitos. “A blusa era chave, top, da hora”, descreveu. Maria ri e explica: “Essas são gírias daqui, significa muito bom”. Depois disso, Maria deixou de costurar uniformes para dedicar-se somente a costurar roupas para as marcas do Capão Redondo.

Maria e Lemuel Simis, um dos fundadores da Firgun. Foto Florência Costa
Maria e Lemuel Simis, um dos fundadores da Firgun. Foto Florência Costa

Mas como a Firgun avalia se a pessoa que vai captar o empréstimo é de confiança?  Lemuel Simis explica que há vários procedimentos antes de iniciar a campanha de crowdfunding. Um deles é a avaliação de uma ONG que trabalhe a capacitação empreendedora, garantindo o potencial do negócio a ser financiado. No caso de Maria, a organização que a avalizou chama-se Banca, do Capão Redondo.

Também é aplicado questionário que resulta numa pontuação. “É o famoso score que os bancos tradicionais fazem, mas o do Firgun é diferente. Leva-se em conta outros indicadores como hábitos de consumo, conhecimentos financeiros básicos, estrutura familiar, relacionamento com risco etc”, diz Simis.

Duas pontas de uma rede solidária são conectadas. De um lado, empreendedores que precisam de capital para investir em seus negócios. De outro, pessoas que estão dispostas a ajudar com pequenos financiamentos. Simis lembra uma pesquisa do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, realizada em 2015: naquele ano 52% dos brasileiros fizeram doações em dinheiro que totalizaram quase R$ 14 bilhões, valor que corresponde a 0,23% do PIB do Brasil.

“Acreditamos no capitalismo consciente e na economia colaborativa como motores de uma sociedade mais justa e sustentável”, afirma Simis, ressaltando que seu projeto se encaixa nos objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas. O oitavo dos 17 objetivos desta agenda se propõe a promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo, com emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos.


Escrito por Florência Costa

Florência Costa

Jornalista freelancer, especializada em cobertura internacional e política, foi correspondente na Rússia pelo Jornal do Brasil e serviço brasileiro da rádio BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia para ser correspondente do jornal O Globo É autora do livro “Os Indianos”.

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