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O preço que pagamos pela falsa democratização da moda

Em artigo, Yamê Reis explica por que só com a redução do consumo e da produção de roupas é possível caminhar rumo à sustentabilidade


Consumidores compram roupas de segunda mão no mercado de Gikomba, em Nairóbi. (Foto: SIMON MAINA / AFP)
Consumidores compram roupas de segunda mão no mercado de Gikomba, em Nairóbi: ampliar a coleta e revenda de peças usadas está nas metas da ONU (Foto: SIMON MAINA / AFP)

A moda sempre esteve associada ao sonho, à criatividade, à representação de identidades e às mudanças de comportamento na sociedade.  Quando comecei nessa indústria, o ritmo em que se davam a criação e a produção nos permitia conhecer cada fábrica, cada elo da cadeia que materializava nossas ideias em roupas. Vivíamos tempos pré-globalização, e o mundo caminhava em outro ritmo.

Com o novo milênio, a indústria da moda, como tantas outras, sofreu uma enorme transformação. As unidades produtivas foram transferidas para a Ásia em busca de preços mais competitivos. Ao mesmo tempo, o aumento da escala possibilitou que uma grande quantidade de produtos ganhasse as araras das lojas, inundando o mercado e provocando a sensação de uma “democratização da moda”. As marcas de fast fashion passaram a dominar o mercado, acelerando o consumo de produtos de baixa qualidade e preço.

Produzimos 53 milhões de toneladas de fibras para a fabricação de roupas e têxteis por ano, para jogar fora ou queimar 73% delas

Yamê Reis

No entanto, em 2013, um evento trágico joga luz sobre uma face até então pouco questionada desse processo: mais de mil costureiras foram mortas em um incêndio em uma confecção em Bangladesh, e o mundo passou a questionar as condições em que essas roupas eram produzidas e a que custo.  Os relatos que se seguiram só aumentaram o horror. Em um cenário que só podemos descrever como uma versão moderna da escravidão, mulheres recebiam centavos de dólar por dia trabalhando em condições absolutamente desumanas.

Parentes seguram cartazes com os rostos de vítimas da tragédia do Rana Plaza, prédio que desabou matando centenas de costureiras em Bangladesh (Foto: MUNIR UZ ZAMAN / AFP)

A partir daí, um grupo crescente de profissionais de moda passou a questionar os padrões estabelecidos pela indústria. O movimento global Fashion Revolution viralizou o questionamento “Quem faz as nossas roupas?” e, na resposta, mostrava que o preço da roupa barata era financiado à custa de pessoas que trabalhavam em condições desumanas.

A produção global de têxteis emite 1,2 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa anualmente, mais do que os voos internacionais e os transportes marítimos juntos

Yamê Reis

Ativistas passaram a revelar o imenso impacto ambiental do consumo desenfreado de roupas sem valor, que muitas vezes sequer são usadas e seguem para a incineração ainda com as etiquetas de compra penduradas — produzimos 53 milhões de toneladas de fibras para a fabricação de roupas e têxteis por ano, para jogar fora ou queimar 73% delas. Componentes químicos, como pigmentos e corantes tóxicos, usados sem critério ou segurança, envenenam rios, e imensas plantações de algodão encharcadas de agrotóxicos provocam a morte de trabalhadores no campo.

No campo das mudanças climáticas, a produção global de têxteis emite 1,2 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa anualmente, mais do que os voos internacionais e os transportes marítimos juntos. A indústria da moda é considerada em rankings como o segundo maior poluidor global, perdendo apenas para o setor de Óleo e Gás. Acredito que esses dados sejam eloquentes o suficiente para justificar que medidas emergenciais sejam tomadas não apenas pelos players responsáveis pela indústria, mas também por governos, que devem instituir as políticas públicas necessárias para uma mudança efetiva no rumo desse triste quadro.

Para pensar em sustentabilidade na moda é preciso, no entanto, ir além das questões de legislação: é necessário priorizar as pessoas e o seu entorno. Produtos verdadeiramente sustentáveis são aqueles feitos em condições que respeitem as boas condições de trabalho e com materiais que causem o mínimo impacto possível no meio ambiente, mas não acaba aí.  Moda sustentável também precisa de comércio justo, transparência, produtos não tóxicos, menor consumo energético, redução de emissões, respeito aos direitos humanos e preservação dos recursos naturais, entre outras coisas.É nesse contexto que surge o movimento slow fashion, um novo modelo, baseado no olhar rigoroso e responsável para toda a cadeia produtiva e que possibilita que a as marcas se assegurem de que todos os envolvidos no processo estejam sendo remunerados de forma justa e atuem em harmonia com as melhores práticas  sociais e ambientais.

Enquanto as grandes marcas de moda continuarem colocando essa quantidade massiva de roupas nas lojas, nessa mesma velocidade, a sustentabilidade será impossível

Yamê Reis

Quando falo de slow fashion, sempre cito o exemplo da marca franco-brasileira de tênis VEJA/VERT. Mesmo com um crescimento significativo nos últimos anos, a VERT continua produzindo no ritmo de sua cadeia produtiva, sem pressionar seus fornecedores por prazos mais curtos de entrega ou preços mais reduzidos. O látex extraído da Floresta Amazônica para a fabricação dos solados continua sendo transportado nas canoas e lanchas pelo rio, e o algodão agroecológico do Ceará que compõe o cabedal do calçado tem seu preço negociado com as cooperativas, sem intermediários. Não há pressão de mercado que faça a VERT acelerar seu modelo de negócio, pois isso colocaria em xeque sua própria razão de ser, seu propósito como marca.

A coleção da Osklen recebeu o nome de ASAP (As Sustainable As Possible), uma brincadeira com o termo as soon as possible e uma referência à urgência em adotar medidas nesse sentido (Foto: Marcio Madeira_/ Divulgação)
A coleção ASAP (As Sustainable As Possible), da Osklen: uma brincadeira com o termo as soon as possible e uma referência à urgência em se adotar medidas nesse sentido (Foto: Marcio Madeira_/ Divulgação)

Outra marca brasileira que tem atingido altos padrões de sustentabilidade é a Osklen, com seu pioneirismo no investimento em novos materiais e fibras regenerativas. Seus projetos de geração de renda em comunidades indígenas e de baixa renda da Amazônia são apoiados pelo Instituto-e, uma organização social ligada à marca, em um trabalho consistente e de alto impacto socioambiental.

Mais um bom exemplo de negócio inovador é o da marca AWAY TOMARS. Fundada pelo brasileiro Alfredo Orobio e sediada em Londres, a ATM é uma plataforma de design colaborativo da qual participa uma comunidade de mais de 2 mil pessoas. Os participantes criam peças, sob a orientação de design da marca, e as que recebem mais de 100 votos são colocadas para a produção, com financiamento pelas pessoas interessadas no projeto. Com isso, a ATM não apenas democratizou o processo criativo, mas também criou um modelo de negócios que não gera sobra de produtos, um dos grandes vilões do impacto negativo da moda.

Em um plano mais estratégico, organizações globais, como a ONU, a Global Fashion Agenda e a Ellen MacArtur Foundation, vêm liderando a discussão, a tomada de ações, a discussão de metas e o engajamento dos atores rumo à economia circular, modo de produzir em que os resíduos de uma indústria se tornam matéria-prima para outra.

Para 2030, em consonância com a Agenda 2030 da ONU, as metas envolvem ampliar a coleta e revenda de roupas usadas, além de incentivar o uso de fibras têxteis recicladas. No design e na gestão, é esperado que as marcas usem de forma eficiente seus recursos energéticos e hídricos e, ainda, que rastreiem toda a cadeia produtiva, reduzindo o impacto ambiental e garantindo condições dignas de trabalho.

No entanto, a discussão de fundo que precisa ser enfrentada é a da redução do consumo: produzir menos e com mais qualidade para durar mais. Enquanto as grandes marcas de moda continuarem colocando essa quantidade massiva de roupas nas lojas, nessa mesma velocidade, a sustentabilidade será impossível.

Enquanto isso não ocorre efetivamente, cabe a nós, consumidores conscientes, sempre procurar e apoiar marcas éticas — muitas delas surgiram nos últimos anos, com novos valores e propósitos. Só assim a moda pode recuperar seu papel criativo, renovador e regenerativo. Por isso, precisamos falar sobre esse tema. Por isso, eventos como o Ethical Fashion importam.

* Idealizado por Yamê Reis, Rio Ethical Fashion (REF) reunirá grandes nomes da indústria mundial entre os dias 6 e 8 de junho


Escrito por Yamê Reis

Yamê Reis é a idealizadora do Rio Ethical Fashiom. Atualmente atuando como coordenadora de Design de Moda no IED-Rio, a executiva de moda tem carreira desenvolvida na liderança de projetos com forte impacto no mercado brasileiro, potencializando capacidades criativas e gerando novos negócios em empresas como Cantão, Totem e Le Lis Blanc. Em 2017 fundou a Moda Verde, empresa que atua nas áreas de Educação, Direção Criativa e projetos especiais para Moda Sustentável. Seu objetivo central é colaborar com empresas que desejem contribuir de forma positiva para a construção de uma moda socialmente responsável e com baixo impacto ambiental. Socióloga e fundadora do Partido Verde nos anos 80, Yamê atuou em projetos pioneiros como Amazon Life (1993), produziu e desfilou a primeira coleção feita com tecidos de hemp para sua marca autoral Yamê Reis (1994) e lançou no Fashion Rio o primeiro jeans orgânico nacional, uma parceria do Cantão com o selo NOW (Natural Organic World) (2007).

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