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Imprimindo o futuro em 3D

Os ganhos da quarta revolução industrial e o desafio de garantir um amanhã sustentável


Figura humana, impressa em 3D, numa exposição em Nova York. Foto Cem Ozdel/Anadolu Agency
Figura humana, impressa em 3D, numa exposição em Nova York. Foto Cem Ozdel/Anadolu Agency

E se, em vez de parcelar em 12 vezes sem juros o novo modelo de smartphone, você puder simplesmente imprimir um aparelho novo? Imprimir o novo telefone em casa, assistindo àquela TV que você também imprimiu, sentado naquele sofá de três lugares impresso por você. Tudo isso enquanto outra impressora 3D faz (ou melhor, imprime) o seu jantar. Imagine um mundo onde você pode simplesmente produzir, em casa, todos os bens de consumo que você quiser: do pão integral com sete grãos ao novo celular, daquela batinha que você viu no shopping outro dia ao split para a sua casa.

O mercado tem que entender que qualquer negócio tem que envolver colaboração e gerar fluxo. Todo dia me pergunto: o que faço está gerando um fluxo sustentável? Está gerando troca?

Karina Israel
COO da start up canadense YDreams.

“Vamos imprimir até a própria casa”, nos conta Karina Israel, COO da start up canadense YDreams. Israel refere-se à empresa chinesa Winsun New Materials, pioneira na utilização da tecnologia de impressão 3D na construção civil que já constrói prédios de até cinco andares e realizou a façanha de imprimir dez casas, de 60 metros quadrados cada uma, em apenas 24 horas!

Karina ressalva, entretanto, que este novo mundo só existirá se houver uma preocupação com a sustentabilidade e com a abundância para todos: “não haverá futuro se não houver esta preocupação. O mercado tem que entender que qualquer negócio tem que envolver colaboração e gerar fluxo. Todo dia me pergunto: o que faço está gerando um fluxo sustentável? Está gerando troca?”. Sem esta troca positiva e sustentável, diz ela, não há futuro.

Por falar em futuro, cientistas já testam nanomáquinas que poderão manufaturar tudo (incluindo cópias delas mesmas), até um nível molecular, produzindo uma “nanofábrica”. Esta “nanofábrica” poderá fabricar tudo: roupas, móveis, eletrônicos e até mesmo comida processada. Quer uma xícara de café com leite? A nanomáquina vai produzir a xícara, o café e também o leite.

A empresa holandesa 3D Chef já comercializa alimentos impressos de acordo com o desejo do cliente e a gigante automobilística Ford já testa uma impressora 3D, em seu Centro de Pesquisa e Inovação em Michigan, que poderá produzir carros de diferentes tamanhos. Também testando a impressão de protótipos de peças que serão usadas em veículos futuros, a empresa já afirmou que estas impressoras poderão representar uma ruptura na forma como produzimos carros hoje. E, quem diria, mais sustentáveis: “as peças que são impressas podem ser mais leves do que as equivalentes normalmente fabricadas, e podem ajudar a melhorar a eficiência de combustível”, informa o comunicado da empresa.

O Papa Francisco segura a prótese de uma mão produzida em 3D. Foto Filippo Monteforte/AFP
O Papa Francisco segura a prótese de uma mão produzida em 3D. Foto Filippo Monteforte/AFP

Toda esta realidade até aqui descrita encaixa-se no que chamamos de Indústria 4.0, ou Manufatura Avançada ou Quarta Revolução Industrial. E atenção: já está em curso. Conciliando diferentes recursos tecnológicos, como plataformas autônomas, IoT (Internet of Things), Processamento e análise de dados e outras tecnologias, a quarta revolução industrial representará uma mudança significativa nos processos produtivos tradicionais. Estes processos de produção terão que trabalhar de forma descentralizada e em tempo real, integrando máquinas, pessoas, softwares. Sem falar nos modelos virtuais de simulação de fábricas, na capacidade de armazenamento de dados via cloud computing e em uma grande capacidade de adaptação.

O fato é que nunca tivemos tanta informação, nunca foi tão fácil e tão barato armazenar e processar dados, nunca estivemos tão conectados. Esta nova realidade e as novas tecnologias a serem aplicadas na indústria já estão revolucionando a produção e a cadeia logística com a possibilidade de termos a customização de produtos em massa. Pelo andar da carruagem, pode ser que as novas tecnologias consigam retirar da indústria, tal como a entendemos hoje, a posição todo-poderosa de única produtora de bens de consumo.

Vamos lá: imagine impressoras 3D imprimindo outras impressoras 3D. Que, por sua vez, imprimirão outras e outras e, pouco a pouco, cada cidadão, desde que tenha acesso à matéria prima bruta, poderá produzir todos os bens que desejar, em uma inédita descentralização da produção. É o que se chamaria de sonho de consumo, se este sonho não trouxesse junto com ele alguns pesadelos: com que matéria prima vamos produzir (imprimir) tantos produtos? Os recursos do planeta serão suficientes? Como lidaremos com o lixo produzido a partir de todo este processo de manufatura avançada? Onde buscaremos recursos energéticos para fazer todas estas novas máquinas funcionarem?

A maioria destas questões ainda não tem resposta, mas já se vislumbram iniciativas no fim do túnel. Para José Rizzo, presidente da ABII, Associação Brasileira de Internet Industrial, “as tecnologias digitais presentes na Internet Industrial e no movimento da Indústria 4.0 têm grande potencial para redução de desperdícios, como gasto energético, e perdas de materiais na produção. Quando, por exemplo, um veículo chega de forma mais rápida ao seu destino guiado pelo Waze, ele consumiu menos combustível e emitiu menos poluentes”.

Já existem estudos, projetos e mesmo empresas que reciclam materiais para transformá-los nos filamentos que alimentarão as impressoras 3D. O analista de sistemas Rafael Aguiar, colaborador da ONG goiana Programando o Futuro, já produz impressoras 3D a partir de lixo eletrônico: “começamos a perceber que muitas peças presentes nas impressoras 3D podem ser encontradas em outros dispositivos, como scanners e passamos a reciclá-los”. Assim nasceu a primeira impressora 3D produzida a partir de materiais reciclados. Para a produção desta impressora 3D reciclada, a ONG utilizou vários materiais: correias, fios, fontes de computador, rolamentos, display de LCD, botões, etc. “Conseguimos baratear o custo de produção em mais de 50%”, diz Rafael que ressalva, entretanto, que a ONG ainda não tem uma linha de montagem: “mas já vendemos algumas impressoras produzidas a partir destes materiais reciclados.” Segundo ele, ainda não se sabe se este tipo de reciclagem será viável para a lógica de mercado “mas é bastante vantajoso utilizar o lixo eletrônico”.

A premiada empresa holandesa Better Future Factory já recicla plástico para transformá-lo em filamentos para impressoras 3D. E a americana Filabot, que se declara comprometida com desenvolvimento de soluções “verdadeiramente sustentáveis”, desenvolveu uma máquina que transforma lixo plástico em filamentos para impressoras 3D. A empresa tem como missão ajudar a reciclar plástico e diminuir lixo e desperdício, produzindo filamentos a um custo baixíssimo.

O jogador Cristiano Ronaldo e o seu "clone", produzido em 3D. Foto Yoshikazu Tsuno/AFP
O jogador Cristiano Ronaldo e o seu “clone”, produzido em 3D. Foto Yoshikazu Tsuno/AFP

Ficam ainda muitas questões para serem respondidas sobre o futuro. Se pensarmos sobre países em desenvolvimento como o Brasil ou a China. Como a economia chinesa, por exemplo, reagirá quando os consumidores deixarem de precisar de produtos industrializados e passarem a customizar, do conforto de suas casas, os bens de que necessitam? Que novos modelos de negócios terão que surgir? E quanto ao Brasil? O país ainda enfrenta atrasos em infraestrutura e automação, o que nos coloca em estado de alerta. Ou acertamos o passo, ou corremos o risco de ficar para trás. Para José Rizzo, “o Brasil tem totais condições de se inserir nesta revolução. Com o objetivo de aumentar as chances de sucesso para o país, fundamos recentemente a Associação Brasileira de Internet Industrial (ABII) que tem como missão acelerar o desenvolvimento e a adoção da Internet Industrial no país. Fazemos isso através de um ecossistema que envolve empresas privadas de todos os portes e segmentos de atuação, universidades, escolas técnicas e centros de pesquisa e órgãos do Governo ligados ao tema”.

Temos uma longa viagem pela frente e na bagagem a cabeça cheia de perguntas em aberto. Vamos torcer para que esta viagem gere o fluxo sustentável a que se referiu Karina Israel, da YDreams. Estejamos atentos.


Escrito por Gisela Campos

Gisela Campos

É publicitária e jornalista. Mestre em Literatura Brasileira e autora dos romances As ideias todas (Record), As boas vindas (Relume Dumará) e Bill e a máquina do tempo (Diadorim). Mora em Botafogo com a filha Manuela e a cachorrinha Mel.

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