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Idosos sem medo da internet e cada vez mais conectados

O uso da web pela terceira idade está em ebulição para pesquisar, comprar e até namorar


Hidebrando, de 100 anos, no Facetime: internet mudou a vida dele (Foto de divulgação)
Hidebrando, de 100 anos, no Facetime: internet mudou a vida dele (Foto de divulgação)

Vovô no Facebook, vovó no WhatsApp e – por que não? – no Tinder. É isso mesmo: engana-se quem pensa que os idosos aceitaram a condição de excluídos digitais. Velha é a ideia de que eles não estão online. Eles não só estão conectados como aproveitam à beça o ciberespaço: estão nas redes sociais, batem papo no WhatsApp, procuram por amizades que o mundo analógico apartou, leem jornais online, pesquisam sobre tudo no Google e namoram, formam grupos de amigos e combinam de sair e viajar.

O uso da internet pela terceira idade está em ebulição e pôs fim ao estigma da aversão e do medo da tecnologia. Eles estão ativos e cada vez mais. De acordo com dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, em apenas quatro anos o número de pessoas maduras conectadas mais do que dobrou, saltando de 8% em 2012 para 19% em 2016.

Nos últimos oito anos, o Brasil ganhou 4,8 milhões de internautas da terceira idade. Em 2008, eram apenas 360 mil; hoje, são mais de cinco milhões de usuários com mais de 60 anos, um mercado que movimenta mais de R$ 330 bilhões por ano.

Dou muito trabalho ao Google, pois não paro de perguntar, são muitas as dúvidas. Faço aulas de inglês para principiantes, pois nunca saio desse estágio (risos). Escuto músicas no YouTube, que me estimulou a fazer aula de canto. Também jogo Candy Crush. Faço uso constante do FaceTime, que chamo de “Cara a Cara”, onde faço contato com amigos e familiares no Brasil e no mundo

Hildebrando Siqueira
Internauta, de 100 anos

Além de manter contato com amigos e familiares, eles já usam a internet para facilitar a vida – desde o pagamento de contas até a compra de produtos. Não à toa, são um dos grupos que mais consomem em redes virtuais de varejo: nada menos que R$ 15 bi/ano.

Pesquisa nacional intitulada “Os 60+ e a internet”, realizada pelo Sindilojas de Porto Alegre, descobriu que nada menos que 49% dos idosos fazem ou fizeram compras na internet; 63,7% usam smartphone (destes, 89% usam o WhatsApp); 83% acessam a internet todos os dias. Ou seja, dão um banho em muito jovem por aí.

Compras, viagem e lazer na mira deste público

Hildebrando Siqueira tem 100 anos, não vive sem o iPad, diz que o Google é seu melhor amigo e faz inglês pela internet, onde ele não só se reconecta com o passado, mas com o presente e, principalmente, com o futuro. Sua exclusão digital teve fim há quatro anos, quando os netos apresentaram o iPad. Hoje, é mais conectado que todos eles e levou os irmãos mais novos, um com 95 anos e outra com 81 anos, a viver em eterna lua de mel com o ciberespaço. Hoje, fazem guerra para mostrar quem é o mais conectado e antenado.

Em entrevista por email, Hildebrando conta que a internet mudou sua vida, e para melhor. Além da comunicação com amigos e familiares, ele se sente conectado e não mais ausente à tecnologia atual.

“Dou muito trabalho ao Google, pois não paro de perguntar, são muitas as dúvidas. Faço aulas de inglês para principiantes, pois nunca saio desse estágio (risos). Escuto músicas no YouTube, que me estimulou a fazer aula de canto. Também jogo Candy Crush. Faço uso constante do FaceTime, que chamo de “Cara a Cara”, onde faço contato com amigos e familiares no Brasil e no mundo”, enumera.

Hildebrando e a irmã, de 81 anos: ele incentivou seus contemporâneos a usar a rede (Foto de divulgação)
Hildebrando e a irmã, de 81 anos: ele incentivou seus contemporâneos a usar a rede (Foto de divulgação)

Segundo a neta de Hildebrando, a psicóloga Désirée Sulam, a relação do avô com a internet é motivo de orgulho e diversão da família toda.

“Ele se acha! Leonino, é vaidosíssimo, quer usar WhatsApp, manda e-mail e acaba estimulando meus tios a fazerem a mesma coisa e, assim, eles vão vencendo os medos”, conta Désirée, completando: “Acho lindo ele se colocar na posição de aprender, combater o medo e ser mais ativo. Agora, a gente brinca que ele é um E.T. Tem total independência e prova que os idosos são capazes e não deviam ser vistos pelas famílias como estorvo ou na posição de só servir para cuidar dos netos”.

Désirée está certíssima. Ainda conhecemos muito pouco sobre os sonhos e os desejos dessa parcela da população. Dispostos a desvendar este mercado, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e a Confederação de Dirigentes Lojistas (CNDL) desenvolveram um estudo com idosos acima de 60 anos, visando a mapear o estilo de vida dessa população e a sua relação com a tecnologia.

O estudo descobriu, por exemplo, que mais da metade das pessoas da terceira idade (53,9%) acessam a internet, sendo que 39,3% a utilizam diariamente e dois em cada dez (19,1%) usam para compras online. Os eletroeletrônicos (51,2%), eletrodomésticos (43,1%) e viagens (41,9%) são os itens mais comprados virtualmente.

A pesquisa mostra que entre as principais motivações para o uso da internet estão o relacionamento com familiares (62,9%), amigos (59,8%), a busca por notícias sobre economia, política, esportes e moda (47,8%), e informações sobre produtos e serviços (43,0%). Entre as redes sociais e aplicativos de celular mais utilizados pelos idosos estão o Facebook (77,3%), o WhatsApp (73,5%) e o Youtube (39,8%).

A “barioca” (baiana/carioca) Celé Duboc, de 71 anos, é bem o perfil indicado pela pesquisa. Dona de uma rede imensa de contatos, a maioria amigos antigos que reencontrou, ela diz que a internet a mantém antenada com o mundo. “Costumo saber das novidades de política, literatura, notícias das novelas (gosto muito)! Só não curto baixaria e fico com raiva das fake news”, ela conta.

Vivem mais, amam mais

Pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva mostrou que o número de idosos conectados ao mundo virtual aumentou 1.000% nos últimos oito anos no Brasil. Metade dos idosos conectados tem entre 60 e 64 anos, mas dois de cada dez têm mais de 70 anos. A região Sudeste registra o maior número de idosos conectados, com algo em torno de 60%; em seguida vem o Sul, com 18%. Conta muito a disponibilidade de conexão estável e veloz à internet e o acesso a smartphones, os dispositivos preferidos dessa faixa etária.

Conectados e ativos, eles ficam cada vez mais otimistas e passam a fazer parte da comunidade digital. Para conhecer pessoas, usam aplicativos como o Tinder ou outros focados na faixa etária acima dos 60 anos, como o Slitch, o Happn, o Kickoff e o OkCupid.

O mercado, enfim, está acordando para o incrível potencial de um público que se expande e busca entender os sonhos e desejos de uma parcela imensa da população. Segundo pesquisa do IBGE divulgada em dezembro de 2017, a expectativa de vida no Brasil é de 75,8 anos, o que representa um aumento de 13,3 anos em relação à média dos anos 1980.

Slitch, um ponto de encontro virtual para idosos se encontrarem na real (Reprodução)
Slitch, um ponto de encontro virtual para idosos se encontrarem na real (Reprodução)

Vive mais, sonha mais, deseja mais, compra mais. O público sênior demonstra imenso poder de compra e, assim, oferece uma excelente oportunidade para marcas. De acordo com o relatório “Consumer Generations”, divulgado pela Tetra Pak, o poder de compra dos consumidores acima de 60 anos deve superar R$ 30 trilhões em todo o mundo em 2020. No Brasil, o estudo aponta que este público tinha 11% da renda na última década, mas nos próximos quatro anos a expectativa é que eles passem a ter 16%.

Senhora Youtuber!

A reboque da melhoria da qualidade de vida e das inovações tecnológicas, surge um novo comportamento. Foi-se o tempo em que a única opção da terceira idade era estar disponível para os filhos e netos. Eles já conhecem e reivindicam seu papel na sociedade, e a tecnologia como um todo – e a internet, em particular – é parte fundamental desse processo.

Mãe de dois filhos, avó de três netos, a cabeleireira Sonia Nesi, de 70 anos, não aceitou ficar apartada do mundo virtual: decidiu virar Youtuber! No canal “Fazendo a cabeça, com Sonia Nesi”,  ela dá dicas de beleza e cuidados com os cabelos por meio de transformações de visual.

Sonia, de 70 anos, tem um canal sobre beleza no YouTube (reprodução)
Sonia, de 70 anos, tem um canal sobre beleza no YouTube (reprodução)

O canal é novo, foi lançado no início de fevereiro, mas a expectativa é grande! Já estão no ar quatro episódios. Com eles, Sônia quer “quebrar a internet” e ficar conhecida como a mais “senhora” Youtuber do Brasil.

Se depender dos dados de mercado, Sonia está certíssima ao apostar no interesse do público sênior por dicas e produtos de beleza. A pesquisa “Beleza na Terceira Idade”, realizada pelo Mundo do Marketing, em parceria com a Reds e eCGlobal, mostrou que 60% das mulheres acima de 55 anos estão insatisfeitas com a própria aparência e encontra dificuldades para encontrar cosméticos adequados à sua faixa etária. Trata-se de um mercado com imenso potencial de consumo mas quase inexplorado pelas grandes marcas.

De acordo com Renato Veras, diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade (UNATI) da Universidade do Rio de Janeiro (Uerj), os idosos se sentem empoderados quando aprendem a domar a tecnologia, o que se torna cada vez mais comum.

Veras lembra que não se trata apenas de acesso à internet, mas a jogos que ajudam na cognição e aplicativos. Diz ainda que a tecnologia é uma das estratégias para a mudança do pensamento retrógrado do sistema de saúde em geral. Que precisa evoluir para acompanhar o envelhecimento da população.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o mundo terá dois bilhões de idosos até 2050. No Brasil, o número de pessoas acima dos 60 anos deverá crescer ainda mais rápido que a média internacional. De acordo com o Relatório Mundial de Saúde e Envelhecimento de 2015, a quantidade de idosos brasileiros triplicará até a metade deste século. Hoje, essa parcela já representa 12,5% da população no país.

Benefícios do uso da internet

A internet pode trazer inúmeros benefícios para a terceira idade. Além da praticidade, estimula o raciocínio e oferece acesso facilitado a informações sobre saúde, bem estar e qualidade de vida. Além disso, muitos idosos sofrem de depressão e isolamento social e ferramentas como Facebook e WhatsApp podem ajudar a mantê-los conectados à sociedade, principalmente aqueles que têm algum tipo de limitação física.

Estar conectado ao mundo ainda pode ajudar a retardar o envelhecimento cerebral, mantendo o cérebro ativo e dinâmico. Além isso, ajuda na preservação do processo cognitivo.

Como diz o internauta Hildebrando, se o idoso tiver saúde física e mental ele poderá enfrentar os preconceitos, caso existam. “Se eu sofri algum preconceito, não percebi, pois a minha atitude é de aprender e sempre positiva, nada de negativismo”, ensina.


Escrito por Elis Monteiro

Elis Monteiro

É consultora e professora de Marketing Digital da Fundação
Getulio Vargas (FGV), do Instituto Europeu de Design (IED) e da Universidade Veiga de Almeida (UVA)

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