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Grupo Fé No Clima trabalha para unir religião e ciência

Iniciativa inter-religiosa rompe barreiras e tenta explicar como os desafios climáticos influenciam a vida das pessoas


Imagem feita durante encontro de representantes religiosos . Foto Divulgação/Fé no Clima
Imagem feita durante encontro de representantes religiosos . Foto Divulgação/Fé no Clima

As mudanças climáticas são um fato. Quase ninguém mais duvida disso. As emissões de gases de efeito estufa provocadas por atividades humanas são a principal causa do aquecimento global. Sobre isso também já há um razoável consenso. A dúvida que atormenta dez em cada dez cientistas de todo o planeta gira em torno da real influência dessas mudanças em episódios específicos como as enchentes dos últimos dias na região de Curitiba e o calor de 40 graus nas ruas do Rio.

Entendemos, como nos orienta o Papa Francisco, que ‘o urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar’

Ulrich Steiner
Secretário-Geral da CNBB

Enquanto essas questões não são devidamente sanadas, um grupo de religiosos e fiéis de diversas crenças faz um trabalho corajoso e inovador: tentar explicar para o grande público, de maneira clara e convincente, a relação entre aquecimento global e o dia-a-dia das pessoas. Em especial, mostrando o que cada um pode fazer para minimizar os seus efeitos. A ação inter-religiosa deu seus primeiros passos na Rio 92, cúpula da ONU que aconteceu no Rio de Janeiro, mas se tornou um movimento de incidência política em 2015, às vésperas da COP 21, Conferência Climática que aprovou o Acordo de Paris, tratado global que pretende reduzir as emissões globais. Na época, o grupo ajudou a pressionar o governo brasileiro a buscar metas mais ambiciosas de mitigação dos impactos climáticos.

Alice Amorim, coordenadora de política e engajamento do Instituto Clima e Sociedade (ICS) e uma das primeiras a se engajar no projeto, explica que o “Fé no Clima” quer transformar termos científicos em questões práticas, exemplificando para o público-alvo (no caso, os fiéis) como associar a responsabilidade individual à mudança do clima.

“No caso do Brasil, a gente sabe que a maior parte das emissões são do desmatamento e uso da terra. É preciso associar este problema ao modelo de consumo, que está ligado ao padrão de alimentação. Tem todo um encadeamento lógico que traz reflexões religiosas (…) São pontos de partidas diferentes, mas com pontos de chegada bastante semelhantes”, explica.

Indígena faz ritual durante evento pela preservação das águas, realizado no Rio de Janeiro, em 2017. Foto Divulgação/Fé no Clima
Indígena faz ritual durante evento pela preservação das águas, realizado no Rio de Janeiro, em 2017. Foto Divulgação/Fé no Clima

Confiança do povo
Considerada polêmica, a aliança entre fé e ciência pode dar certo no Brasil. Uma pesquisa feita pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), em 2018, perguntou aos entrevistados quais eram as instituições nas quais eles mais confiavam. A Igreja apareceu em primeiro lugar, com 40,1%. Ao mesmo tempo, outro estudo, desta vez feito pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, diz que a atitude dos brasileiros em relação à ciência e à tecnologia é muito positiva e otimista (61% se mostraram interessados ou muito interessados no tema). Então, por que não unir os interesses? É o que algumas religiões têm tentado.

Lama Padma, presidente do Centro de Estudos Budistas Bodistava e integrante da linhagem Tibetana Nyingma, diz que a discussão do clima abarca todas as 10 áreas rurais e 50 centros budistas existentes pelo país. Segundo ele, o desenvolvimento da agricultura sintrópica, método que aproveita as lições da natureza para cultivos sadios e produtivos (há cerca de 45 hectares de plantações geridas desta forma pelos budistas), e o incentivo à alimentação orgânica contribuem para disseminar a importância da preservação.

O pastor Ariovaldo Ramos, da Comunidade Cristã Reformada de São Paulo e líder da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, explica que são feitos estudos bíblicos e rodas de conversa sobre a questão ambiental, que resultam em ações ligadas a campanhas de reciclagem, por exemplo.

Já a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) informa que, por meio da Comissão Episcopal Especial para a Amazônia e da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), tem realizado um longo trabalho de popularização da Encíclica feita pelo Papa Francisco.

Segundo Dom Leonardo Ulrich Steiner, Secretário-Geral da CNBB, foram realizados seminários em várias regiões do Brasil nos quais especialistas e lideranças ajudaram as pessoas a compreender com maior clareza tanto as informações quanto as reflexões a respeito das mudanças climáticas. Steiner ressalta também que as dioceses de todo Brasil procuram facilitar a compreensão do clero e das comunidades sobre essa problemática.

Religioso faz prece durante ato pela preservação das águas, realizado no Rio de Janeiro, em 2017. Foto Divulgação/Fé no Clima
Religioso faz prece durante ato pela preservação das águas, realizado no Rio de Janeiro, em 2017. Foto Divulgação/Fé no Clima

Questionado se a CNBB já conversou com a equipe do presidente Jair Bolsonaro, que tenta desmobilizar uma série de ações em relação ao meio ambiente, ele disse que, até agora, nenhum contato formal foi feito com o novo governo. Segundo Steiner, os bispos católicos brasileiros têm se manifestado firmemente pela manutenção dos compromissos assumidos.

“Entendemos, como nos orienta o Papa na “Laudato Sì”, que ‘o urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar’”, afirma.

O religioso diz ainda que a Campanha da Fraternidade de 2019 irá aprofundar e agir no campo das políticas públicas. Entre elas, encontram-se aquelas que dão sustentação para o cuidado concreto em atenção às mudanças climáticas. “Política pública não é somente a ação do governo, mas também a relação entre as instituições e os diversos atores, sejam individuais ou coletivos, envolvidos na solução de um determinado problema”, explica.

 Mas, e os cientistas?

Se há um problema de comunicação entre cientistas e a população, é preciso resolvê-lo. Para Sabine Riguetti, pesquisadora associada do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a comunicação da ciência ainda engatinha no Brasil “porque não é institucionalizada”, ou seja, não faz parte de atividades principais como fazer ensino e pesquisa.

“Nos Estados Unidos, para conseguir uma bolsa, os pesquisadores precisam mostrar que têm presença na mídia nacional e internacional. Por isso, costumo dizer que é mais fácil falar com um cientista dos EUA do que com um do Brasil”, afirma Sabine.

Para ela, a percepção da sociedade sobre a ciência está diretamente ligada à exposição de conteúdos científicos na mídia. Além disso, existe uma concorrência com informações produzidas com objetivos difusos, especialmente em áreas como o clima, o que reforça a necessidade de se falar para quem não está acostumado com o tema.

“Se os cientistas não falarem, alguém vai falar e a sociedade pode acabar tendo mais informação equivocada do que científica pra formar sua opinião”, ressalta. “Para piorar, em se tratando de clima há muito interesse político e econômico envolvido”, complementa.

De que forma, então, pesquisadores podem melhorar sua performance em divulgar a informação? Pela educação. “Em boas universidades do mundo, alunos de graduação em ciências já podem fazer disciplinas de comunicação (e comunicação de ciência). Isso não existe no Brasil, onde isso ainda é visto como atividade extra, algo que consome tempo. Precisamos internalizar a comunicação da ciência na própria ciência. E isso passa por educação”, conclui.


Escrito por Eduardo Carvalho

Eduardo Carvalho

Jornalista com pós-graduação em Jornalismo Científico pela Unicamp. Trabalhou nos jornais ValeParaibano e O Vale, além da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo, em São José dos Campos (SP). Foi repórter de ciência do portal G1, em São Paulo.

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