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É possível limitar as emissões de CO2

Agências internacionais apontam seis caminhos para alcançar a meta de 2 graus Celsius até 2050


Até 2050 fontes renováveis deveriam responder por 80% da produção de energia. Foto Stephen Lux/Image Source
Até 2050 fontes renováveis deveriam responder por 80% da produção de energia. Foto Stephen Lux/Image Source

Dois dias após os ministros das Finanças do G20, por pressão dos Estados Unidos, retirarem da declaração final do evento o apoio ao Acordo de Paris sobre mudança climática, a Alemanha mostrou que não desistirá do tema. A pedido do governo alemão, que exerce a presidência da cúpula dos chefes de Estado, que acontecerá em Hamburgo, em julho, a Agência Internacional de Energia (AIE) e a Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês) elaboraram estudos para mostrar como é possível atingir uma das principais metas do Acordo de Paris: limitar o aumento de temperatura da Terra a menos de 2 graus Celsius até 2050.

Em 2050, as emissões de CO2 precisam cair aos níveis de 1960, numa economia 20 vezes maior que a de então, para se atingir a meta do acordo

Fatih Birol
Diretor-executivo da AIE

Os resultados dos estudos independentes foram apresentados na terceira edição do Berlin Energy Transit Dialogue, uma conferência com ministros de Estado e representantes de empresas e ONGs do mundo todo, realizado nestas segunda e terça-feira na capital alemã. Apesar do desafio, os diretores de ambas as agências garantem que a empreitada é viável. Em 2050, as emissões de CO2 precisam cair aos níveis de 1960, numa economia 20 vezes maior que a de então, para se atingir a meta do acordo, resumiu o diretor-executivo da AIE, Fatih Birol. A meta é ambiciosa, mas Birol lembra que as emissões de carbono estão estáveis no mundo desde 2014, enquanto a economia global cresceu 3%. Ele registrou ainda que os países do G20 são responsáveis por 80% da produção e consumo de energia global e por mais de 80% das emissões de CO2.

Abaixo listamos seis pontos necessários para se atingir o objetivo do Acordo de Paris, segundo as agências de energia e os participantes da conferência em Berlim.

1) 95% da eletricidade global terá que ser gerada por energia de baixo carbono (nem sempre limpa, como a nuclear), de acordo com o estudo da Agência Internacional de Energia (AIE). Já a Irena, uma agência focada em renováveis, sustenta que até 2050 as fontes limpas – sobretudo sol e vento – devem ser responsáveis por 80% da geração de eletricidade e 65% do fornecimento primário de energia. Hoje esses percentuais são de 24% e 16%.

Para que a meta seja alcançada, até 2050 70% dos carros do mundo deveriam ser elétricos. Foto Arifoto Ug/DPA
Para que a meta seja alcançada, até 2050 70% dos carros do mundo deveriam ser elétricos. Foto Arifoto Ug/DPA

2)  70% dos carros do mundo terão que ser elétricos. O setor de transportes é um dos principais desafios para a diminuição das emissões de CO2. A venda de carros elétricos aumentou 40% em 2015, mas ainda representa menos de 1% da venda total de carros. A Costa Rica, por exemplo, tem quase toda sua energia gerada por fontes renováveis, mas o setor de transportes é responsável por dois terços das emissões de CO2. Na Alemanha, apesar do bem-sucedido programa de transição energética, a emissão de CO2 continua a aumentar por conta do transporte, responsável por um aumento de 3,4%. A possibilidade de criação de quotas para a produção de carros elétricos já é discutida no âmbito europeu.

3) A intensidade energética (uso de energia em relação ao PIB de cada país) terá que ser reduzida globalmente em 2,5% por ano, em média, até 2050, para que a meta do Acordo de Paris seja atingida. Isso significa que será necessário desenvolver tecnologias que promovam a eficiência energética, para que que menos energia seja necessária para a economia funcionar. De acordo a AIE, a intensidade de energia global caiu 2,1% em 2016, mas a meta de 2,5% corresponde a cerca de três vezes mais do que se viu nos últimos 15 anos.

4) Investimentos de cerca de US$ 3,5 trilhões por ano até 2050, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), num total de US$ 119 trilhões; e de US$ 29 trilhões além dos US$ 116 trilhões já anteriormente previstos, segundo a Agência Internacional de Energia Renovável. São números alarmantes, mas as agências ressaltam que eles correspondem a apenas 0,3% a 0,4% do PIB global previsto para 2050, além de representarem benefícios para a saúde pública e uma oportunidade de novos negócios.

“Se for investido o que a agência propõe, haverá geração de seis milhões de empregos até 2050”, sustentou HenningWuester, diretor de Conhecimento, Políticas e Finanças da Irena, que prevê um incremento de 0,8% do PIB global.  O vice-chanceler e Ministro do Exterior da Alemanha, Sigmar Gabriel, também sustentou que “crescimento econômico e energia renovável são faces da mesma moeda”.

5) Atração do consumidor. “O consumidor é o principal meio de atingir nosso objetivo”, afirma o alemão Philipp Schroeder, da Sonnen, que cria tecnologias para o uso de energia solar em casas e apartamentos.  “As empresas precisam oferecer tecnologia convincente e sexy. Todo mundo adora energia renovável, mas precisamos torná-la fácil, acessível”, sustenta, dando o exemplo da Alemanha, onde qualquer cidadão pode participar da produção de energia do país, com incentivos para tanto.

6)) Liderança política. Esta foi uma das expressões mais ouvidas durante a conferência em Berlim. “A maior parte dos governos está administrando os países em vez de liderá-los. O resultado é extremismo e populismo. A liderança não deve dizer o que as pessoas precisam fazer, mas sim explicar por que elas devem fazer”, disse o suíço Bertrand Piccard, um dos dois pilotos que em 2016 deram uma volta ao mundo num avião movido apenas por energia solar.

A importância de líderes no processo de mudança energética também foi destacada por Cornie Huizenga, secretário-geral da Partnership on Sustainable Low Carbon Transport, uma rede de instituições em torno do transporte sustentável: “Ouvimos a todo tempo exemplos de comportamentos que devem ser evitados ou estimulados. Mas soluções energéticas melhores não bastam. Só com forte liderança política podemos criar uma mudança de comportamento”.


Escrito por Suzana Velasco

Suzana Velasco

Jornalista carioca, trabalhou por 12 anos no jornal O Globo, onde foi repórter e editora assistente do Segundo Caderno e repórter do suplemento Prosa. Atualmente vive em Berlim, onde desenvolve um projeto de entrevistas com imigrantes turcos. Tem mestrado em Relações Internacionais pela PUC-Rio e é autora do livro "A imigração na União Europeia: Uma leitura crítica a partir do nexo entre securitização, cidadania e identidade transnacional" (EDUEPB, 2014).

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