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Tem urubu em Ipanema

Ocupação desordenada e lixões favorecem proliferação dessas aves


Os urubus são da família dos abutres. Eles se alimentam de carniça., mas podem comer também material orgânico e, raras vezes, pequenas aves e roedores. Foto de Marcus Brandt/DPA
Os urubus são da família dos abutres. Eles se alimentam de carniça, mas podem comer também material orgânico e, raras vezes, pequenas aves e roedores. Foto de Marcus Brandt/DPA

Os mais espirituosos vão dizer que em Ipanema não tem só urubu, tem também bacalhau, pó de arroz e etc. Em menor número, é verdade, mas eles existem. O problema é que os personagens da foto aí de cima não entendem nada de futebol e não são do tipo que frequenta o Maracanã. Não na arquibancada. Eles são reais, conhecidos como urubu-de-cabeça-preta ou Coragyps atratus, nome científico, e há dois meses vêm assustando moradores de um dos bairros mais famosos do Brasil.

Os urubus têm um papel fundamental na natureza e precisam ser preservados. Eles, normalmente, procuram árvores altas e cavernas para se reproduzirem. Sem elas, acabam se alojando nos prédios. Essa tendência de crescimento deve continuar e pode se transformar num caso grave de saúde pública que precisa ser enfrentando. A culpa não é dos urubus.

Marcos Raposo
Doutor em ornitologia, Museu Nacional/UFRJ

Tudo teria começado em novembro do ano passado, quando um casal de urubus, não se sabe bem por que, resolveu fazer um ninho e por um ovo no telhado de um prédio da rua Redentor, próximo à Praça Nossa Senhora da Paz. O porteiro, desavisado, foi verificar que movimento estranho era aquele no alto do edifício e quase foi atacado pela zelosa mãe urubu. Aqui cabe um registro, no melhor estilo Wikipédia. Esses animais são da família dos abutres, mas não atacam as pessoas. A mãe estava apenas sendo mãe e o porteiro passa bem. Como todos sabem, os urubus se alimentam de carniça. Mas podem comer também material orgânico e, raras vezes, pequenas aves e roedores.

A notícia sobre o ninho, o filhote e a mãe protetora se espalhou como um voo de águia. Junto com ela vieram alguns tios, avós e primos distantes das aves. Logo as varandas, coberturas, telhados e até piscinas passaram a ser visitadas pela família de urubus. Uns falavam em dois, outros em três e até cinco animais. Ninguém sabia ao certo. Afinal, como se descobriu rapidamente, urubu é tudo igual. A pergunta óbvia passou a ser: o que fazer? Tomar o café da manhã vendo um bicho preto, de mais ou menos 1,3 metro de altura e cara de poucos amigos na janela não é exatamente o sonho do ipanemense. Pior, aos corajosos que tentam espantá-los batendo pé, palmas ou gritando xô, eles respondem com um indiferente ar de paisagem.

Tomar o café da manhã vendo um bicho preto, de 1,3 metro de altura e cara de poucos amigos na janela não é exatamente o sonho do ipanemense. Foto de Morador
Tomar o café da manhã vendo um bicho preto, de 1,3 metro de altura e cara de poucos amigos na janela não é exatamente o sonho do ipanemense. Foto de Morador

As sugestões de se usar chumbinho ou cabeça de nêgo para se livrar dos bichos foram rechaçadas de pronto. Uma pesquisa simples no Google revelou que os urubus são aves silvestres e se forem mortas ou maltratadas podem levar o infrator a passar, no mínimo, um ano na cadeia. Nestes tempos de crise penitenciária e mortes violentas, essa, definitivamente, não era uma boa ideia. Uma empresa especializada foi procurada. Trinta anos de experiência e certificação do Ibama. A proposta era capturar os urubus com uma gaiola e uma isca. Um pedaço de bacon funciona muito bem, diziam. Uma vez apanhados eles seriam levados, em segurança, para um lugar 50 km distante do Posto 9. O preço muito salgado e a incerteza sobre o número de animais enterraram a sugestão.

Como ninguém queria correr o risco de ser preso ou gastar uma fortuna com capturas, a solução foi esperar que o filhote crescesse e todos voassem para longe. Os últimos relatos dos porteiros indicam que o pequeno urubu já bateu asas, mas um segundo ninho teria sido visto num prédio vizinho. Parece que a novela está longe de terminar. Procurado pelo #Colabora, o professor Marcos Raposo, do Museu Nacional/UFRJ, doutor em ornitologia, disse que existem muitos e bons estudos sobre os urubus, mas poucos tratam da presença deles nos grandes centros urbanos e da relação dos animais com as pessoas.

– É certo que o urubu-de-cabeça-preta vem se tornando cada vez mais comum e numeroso nas áreas urbanas. E eles já se acostumaram com essa convivência. A razão é o crescimento desordenado das cidades e a disposição inadequada do lixo. A proliferação dos lixões. Inclusive em Ipanema, que é cercada de favelas, onde a coleta está longe do ideal – explica o professor.

Para Marcos Raposo, é importante que as pessoas entendam que os urubus são animais nativos:

– Eles estavam aqui antes dos homens e estão tentando sobreviver. Os urubus têm um papel fundamental na natureza e precisam ser preservados. Eles, normalmente, procuram árvores altas e cavernas para se reproduzirem. Sem elas, acabam se alojando nos prédios. Essa tendência de crescimento deve continuar e pode se transformar num caso grave de saúde pública que precisa ser enfrentando. A culpa não é dos urubus.

Obviamente, o urubu está longe de ser um animal simpático e fofinho, como o urso panda, a foca ou o mico-leão. O próprio Charles Darwin, quando visitou o Estreito de Beagle, no extremo sul da América do Sul, em 1832, encontrou um urubu-de-cabeça-vermelha e comentou: “São aves nojentas, que se divertem na podridão”.  Apesar disso, eles são muito úteis, de diversas formas.

Em Lima, no Peru, por exemplo, os igualmente numerosos urubus-de-cabeça-preta deixaram de ser parte do problema e passaram a ser parte da solução. Lá, a prefeitura resolveu colocar um GPS nas patas dos animais para identificar os lixões clandestinos. Alguns chegam a levar câmeras GoPro para registrar os locais onde se alimentam. A campanha, de 2014, recebeu o nome de “Gallinazo Avisa” e incluía um comercial na televisão com o seguinte texto “dito” por um urubu: “Durante gerações, temos defendido o homem desses inimigos, armados com nossos sentidos e um estômago capaz de destruir as mais poderosas bactérias, mas o lixo está nos derrotando, a poluição tomou o ar, infectou a água, adoeceu a terra”. Faz sentido.


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