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#RioéRua: o frei, o jardim e a primavera

Um passeio pelo Jardim Botânico para alimentar o otimismo


O lago artificial Frei Leandro, em homenagem à figura essencial para o desenvolvimento do Jardim Botânico (Foto Oscar Valporto)
O lago artificial Frei Leandro, o primeiro diretor do Jardim Botânico (Foto Oscar Valporto)

Quando o Museu Nacional queimou no dia 2 de setembro, data da assinatura da Independência ali mesmo entre suas paredes, 196 anos antes, muita gente se lamentou por já ter até esquecido a última vez que visitara a antiga residência da monarquia brasileira. Não era o meu caso, que passara por lá rapidamente em março. Mas também fiquei pensando em outros marcos da história do Rio de Janeiro (e do Brasil) que têm ficado fora das minhas andanças, quase sempre concentradas em áreas com acesso facilitado pelos trilhos do metrô ou do trem, à distância prudente da praga dos engarrafamentos. Carros demais em vias estreitas, com calçadas igualmente apertadas e transporte público precário: o Jardim Botânico, o bairro, não é amigável para pedestres.E fica ali uma joia do Rio que há muito não recebia a minha visita. 

Criado por Dom João VI como Jardim de Aclimatação e depois Real Horto, o Jardim Botânico teve como objetivo inicial aclimatar plantas das colônias portuguesas no Oriente – canela, baunilha, pimenta e, finalmente, chá preto – para outros solos. Apesar de ser voltado para o desenvolvimento agrícola, o espaço já nasceu com uma vocação para a pesquisa. Em 1819, o Real Horto passou a ter sua administração subordinada ao Museu Real fundado no ano anterior – exatamente o futuro Museu Nacional, primeira instituição de pesquisa da América que ardeu no começo do mês. Só em 1822, com a Independência, o horto virou realmente Jardim Botânico – Imperial Jardim Botânico, aberto ao público pelo imperador Pedro I e voltado também para pesquisa.

O acervo do Jardim Botânico – como o do Museu Nacional – vai muito além da minha capacidade de conhecimento: 6500 espécies de plantas, parte ameaçada de extinção, biblioteca de quase 70 mil volumes, o maior herbário do Brasil, o Museu do Meio Ambiente.  Vale ficar um dia inteiro flanando pelas suas aleias. Mas a época é de muito trabalho e essa crônica andarilha vai precisar se restringir a uma caminhada curta pela história do parque para seguir os passos do responsável por transformar o horto do regente Dom João VI no Jardim Botânico que se tornou orgulho da cidade: Frei Leandro é o nome de uma ruazinha sem graça aqui no bairro, mas Frei Leandro do Santíssimo Sacramento, membro das Academias de Ciências de Londres e Munique e primeiro diretor do Imperial Jardim Botânico, tem, dentro do verde do parque, o devido reconhecimento.

O cômoro, o pequeno outeiro, é outra criação da época de Frei Leandro (Foto Oscar Valporto)
O cômoro, o pequeno outeiro, é outra criação da época de Frei Leandro (Foto Oscar Valporto)

O religioso pernambucano já era um personagem da vida carioca ao ser escolhido diretor do Jardim Botânico pelo imperador Pedro I em 1923. Formado em Filosofia e Ciências Naturais na Universidade de Coimbra, foi nomeado por Dom João VI o primeiro professor oficial de botânica do país, na Academia Médico-Cirúrgica, que ficava então no Morro do Castelo. Frei Leandro, entretanto, costumava levar seus alunos de botânica para ter aulas no Passeio Público: em um dos pavilhões que lá existiam no tempo de sua cátedra – entre 1815 e 1823 – e, muitas vezes, ao ar livre, à sombra das árvores, usando as plantas do parque para servir de exemplo para suas lições. As aulas ao ar livre atraíam até quem não era aluno nem tinha interesse particular por botânica e estava ali apenas para aproveitar um momento #RioéRua no Passeio Público de dois séculos atrás.

A mesa onde D. Pedro I e D. Pedro II costumavam parar em seus passeios pelo jardim (foto Oscar Valporto)
A mesa onde D. Pedro I e D. Pedro II costumavam parar em seus passeios pelo jardim (foto Oscar Valporto)

Dois séculos depois, basta uma caminhada de cinco minutos da entrada do Jardim Botânico – R$ 15 a inteira, R$ 7,50 a meia – até o Cômoro Frei Leandro, com o busto em sua homenagem, e o Lago Frei Leandro. O lago artificial e o cômoro – um pequeno outeiro feito com pedras e terra retiradas da obra do lago, na época chamado de Cômoro dos Cedros – foram mandados construir pelo frade carmelita durante sua gestão à frente do Jardim Botânico: de 1824, quando tomou posse, até sua morte, por tuberculose, em 1829. Frei Leandro também organizou e ampliou a  área cultivada, trouxe plantas de outras regiões do Brasil para o parque e iniciou permutas com o Jardim Botânico de Cambridge. No cômoro, além do busto, há um relógio de sol e a chamada Mesa do Imperador, um mesa com tampo de granito onde, consta, Pedro I e, depois, Pedro II costumavam parar para fazer seus lanches nas visitas ao Jardim Botânico. Dois séculos depois, o lago artificial, construído por escravos, é uma das atrações do parque com suas vitórias-régias e a estátua da deusa Thetis, do francês Louis Sauvageau.

Prometo a mim mesmo que não vou demorar a voltar: a caminhada pelo verde me lembra que somos privilegiados em morar nesta cidade, onde, atrás desta mistura de parque e museu científico, começa uma floresta. O céu namora o azul e estamos em setembro: daqui a alguns dias, chega a primavera. E não pode haver lugar melhor do que o Jardim Botânico para lembrar que nada pode deter a primavera.

O vigor do Jardim Botânico como instituição científica e ambiental deve muito a Frei Leandro e ao diretor que, 60 anos depois, já na República, promoveu essas homenagens ao carmelita: João Barbosa Rodrigues dirigiu a instituição de 1890 até morrer. em 1909. Responsável pela criação do herbário e da biblioteca, pela organização de estufas e viveiros, Barbosa Rodrigues também trabalhou para dar ao Jardim Botânico esse cenário de museu ao ar livre que tem hoje, com tratamento paisagístico, esculturas, pontes, pérgulas, chafarizes. Foi ele quem trouxe o Chafariz das Musas, que ficava no Largo da Lapa e hoje fica no encontro da Aleia Frei Leandro com a Aleia Barbosa Rodrigues, com vista para o Cristo Redentor do Corcovado.  

O chafariz das Musas é uma das atrações: ficava no Largo da Lapa antes de ser transferido para o jardim (Foto Oscar Valporto)
O chafariz das Musas é uma das atrações: ficava no Largo da Lapa antes de ser transferido para o jardim (Foto Oscar Valporto)

Foi o mesmo diretor da virada para o século XX que levou para o Jardim Botânico as obras de Mestre Valentim – as estátuas de Eco e Narciso e As Aves Pernaltas – que ficavam originalmente no Passeio Público no tempo em que Frei Leandro dava suas aulas de botânica ao ar livre. Hoje, as quatro estátuas em metal fundido – as primeiras feitas no Brasil ainda no século XVIII – estão no Ateliê Mestre Valentim, uma antiga estufa, onde a visitação é gratuita. Fica antes da entrada do parque, ao lado do Centro de Visitantes, que, aliás, ocupa a antiga casa principal do Engenho de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, construída em 1576.

O passeio pela história tem que ser curto – no caminho, encontro estudantes curiosos de todas as idades, turistas, amantes da fotografia, veteranos que fazem do jardim do Frei Leandro um local de caminhada e exercício. Prometo a mim mesmo que não vou demorar a voltar: a caminhada pelo verde me lembra que somos privilegiados em morar nesta cidade, onde, atrás desta mistura de parque e museu científico, começa uma floresta. O céu namora o azul e estamos em setembro: daqui a alguns dias, chega a primavera. E não pode haver lugar melhor do que o Jardim Botânico para lembrar que nada pode deter a primavera.

#RioéRua

 


Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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