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O exemplo das hermanas

Movimento contra feminicídio nascido na Argentina começa a mobilizar brasileiras


Manifestação em São Paulo pelo fim da violência contra a mulher: inspiração em movimento argentino (Foto: Cris Faga / Citizenside / AFP)
Manifestação em São Paulo pelo fim da violência contra a mulher: inspiração em movimento argentino (Foto: Cris Faga / Citizenside / AFP)

Na quarta-feira, dia 19/10, milhares de mulheres argentinas ocuparam as ruas de Buenos Aires em protesto contra a violência, deflagrado pelo assassinato de uma secundarista, de 16 anos, em Mar Del Plata. A multidão – repetida em outras cidades do país – pedia Justiça com a prisão dos criminosos que estupraram e mataram a jovem, e cobrava providências das autoridades para evitar novos ataques a mulheres. “Ni una menos” é o nome do movimento contra o feminicídio na Argentina que mobiliza as hermanas desde o ano passado. “Ni una menos” foi o mote de outras manifestações que ocorreram na mesma quarta-feira no Chile – em frente ao Palácio do Governo, em Santiago, e em frente ao Congresso, em Valparaíso -, na Cidade do México, em Montevidéu, em La Paz, em Lima, na cidade da Guatemala.

Não faltam crimes contra mulheres. Mas estava faltando mulher na rua para chamar a atenção para o problema

Luisa Martins
Professora

Quem olhasse de fora – do outro lado do Atlântico, por exemplo – podia achar que o Brasil é um oásis na paisagem cruel da violência contra mulheres na América Latina. Não é: no nosso país, a taxa de feminicídios é de 4,8 para 100 mil mulheres – a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), atrás de  Rússia (4º), Guatemala (3º), Colômbia (2º) e El Salvador (1º). “Não faltam crimes contra mulheres. Mas estava faltando mulher na rua para chamar a atenção para o problema”, disse a professora Luísa Martins, durante manifestação terça-feira (25), no Rio.

As multidões na Argentina inspiraram as brasileiras. No domingo (23), cerca de 500 mulheres participaram de ato de protesto na Avenida Paulista. No Rio, mais de mil pessoas participaram da caminhada das escadarias da Assembleia Legislativa até a Cinelândia.  A organização era de grupos de esquerda, mas a maioria das manifestantes era de jovens, estudantes secundaristas e universitárias.  E havia mulheres colombianas, argentinas e mexicanas. “A violência machista é uma realidade em toda a América Latina”, afirmou a colombiana Ana Leon, lembrando o ranking da OMS.

Caminhada no Rio: palavras de ordem em português e espanhol (Foto: Oscar Valporto)
Caminhada no Rio: palavras de ordem em português e espanhol (Foto: Oscar Valporto)

As manifestações – além da participação majoritária das adolescentes – trouxeram como novidade essa integração latino-americana contra a violência. Palavras de ordem em espanhol (“Ni una menos, vivas nos queremos”) se misturaram com as em português (“Se cuida machista, a América Latina é feminista”) na marcha que pintou o centro com balões roxos. Como na Argentina, as redes sociais foram usadas para organizar o ato e multiplicar a adesão. “Nem esperava tanta gente jovem, mas essa cultura machista brasileira é horrível e a gente sofre toda hora. E acho que ainda faltaram as mulheres negras, as grandes vítimas”, apontou a estudante de enfermagem Cristina Santos.

Apesar de estaticamente o problema ser maior no Brasil – que tem 20 vezes mais assassinatos de mulheres -, as hermanas argentinas conseguiram mais ação do governo após as manifestações contra a violência machista que culminaram na criação do Ni Una Menos

Os dados estatísticos ainda apontam um viés racista nesta tragédia brasileira. Em 2015, o Mapa da Violência sobre homicídios entre o público feminino revelou que, de 2003 a 2013, o número de assassinatos de mulheres negras cresceu 54%, passando de 1.864 para 2.875. Na mesma década, foi registrado um aumento de 190,9% na vitimização de negras, índice que resulta da relação entre as taxas de mortalidade branca e negra. Para o mesmo período, a quantidade anual de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%, saindo de 1.747, em 2003, para 1.576, em 2013. Do total de feminicídios registrados em 2013, 33,2% dos homicidas eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.

Apesar de estaticamente o problema ser maior no Brasil – que tem cinco vezes a população do país de Messi e Maradona, mas 20 vezes mais assassinatos de mulheres -, as hermanas argentinas conseguiram mais ação do governo após as manifestações contra a violência machista que culminaram na criação do Ni Una Menos, no fim do primeiro semestre de 2015. O movimento nasceu depois que mulheres indignadas com crimes violentos organizaram, via twitter e facebook, uma grande manifestação no dia 3 de junho, para chamar a atenção do governo, e não pararam mais. E foram as redes sociais que espalharam a mobilização do Ni Una Menos por outros países da América Latina.

O Registro Argentino de Feminicídios, órgão governamental criado após as grandes marchas contra a violência, em 2015, calcula que duas de cada dez mulheres assassinadas no país tenham registrado queixas de agressão anteriormente. Como no Brasil e no resto da América Latina, a maioria dos crimes contra mulheres é cometida por conhecidos – parceiros, ex-parceiros, parentes. E a violência de gênero também está no centro do problema na Argentina: dados do Ministério da Segurança indicam que os crimes sexuais aumentaram 78% entre 2008 e 2015.

Números brasileiros apontam para drama semelhante do lado de cá da fronteira. Em 2015, o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) realizou quase 750 mil  – média de 62.418 por mês e 2.052 por dia: 54,4% a mais do que o número registrado em 2014 (485.105). Em comparação a 2014, houve crescimento de 44,74% no número de relatos de violência; 325% de cárcere privado (média de 11,8/dia); e 129% de abuso sexual (9,53 por dia).

Na Argentina, o Ni Una Menos fez o governo se mexer para dar atenção ao problema e o Congresso começar a discutir uma nova legislação. No Brasil, onde a Lei Maria da Penha já fez 10 anos, e o crime de feminicídio foi tipificado em lei, em 2015, está faltando mesmo é ação. Os protestos nas ruas são o primeiro passo para fazer as autoridades executivas – federal, estadual, municipal – tomarem iniciativas para enfrentar essa escalada de violência contra as mulheres.


Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica croniquetas semanais sobre suas andanças pela cidade.

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