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#RioéRua: uma colina carioca escondida pelos prédios

Morro da Viúva tem reservatório secular abandonado e vista para Pão de Açúcar e Redentor


Antiga sede do Flamengo vai se transformar num prédio de luxo (Foto Oscar Valporto)
Antiga sede do Flamengo vai se transformar num prédio de luxo (Foto Oscar Valporto)

No meio desta multidão de mentiras eleitorais, descubro que é verdade que o prédio da antiga sede do Flamengo no Morro da Viúva entrou em obras para ser um edifício com apartamentos de luxo, todos com mais 150 metros quadrados.  É provável que o leitor mais jovem – nem mesmo o torcedor rubro-negro – saiba onde é o Morro da Viúva porque a colina, entre as praias do Flamengo e Botafogo, foi cercada por um paredão de edifícios a partir de 1940 e hoje praticamente só é possível vê-la do alto. O prédio de 24 andares começou a ser construído pelo clube em 1944 e ficou pronto em 1953. Servia de sede administrativa, abrigava atletas e ajudava na receita com os aluguéis dos apartamentos, de vista privilegiada para o Pão de Açúcar e o Corcovado.

Quase 100 anos antes, o morro – com muita pedra e nem tanta vegetação – foi ocupado pela primeira vez: uma fortificação foi erguida ali em meados do século XIX para ajudar na defesa da praia do Flamengo e da enseada de Botafogo. Na época, já era conhecido como Morro da Viúva: aliás, desde o século anterior quando suas terras se tornaram propriedade de Joaquina Figueiredo Pereira de Barros, ao enviuvar de Joaquim José Gomes de Barros.  Em 1878, foi inaugurado um reservatório de água no alto do morro, na área antes usada pelo forte, como parte do plano do governo imperial para usar a água dos mananciais da Tijuca para abastecer os bairros de Botafogo, Praia Vermelha e Leme.

Antigo reservatório da Cedae: escondido no morro (Foto Oscar Valporto)
Antigo reservatório da Cedae: escondido no morro (Foto Oscar Valporto)

O reservatório foi testemunha do cerco ao morro, iniciado pela construção da Avenida Rui Barbosa, inaugurada como Avenida do Contorno em 1920, como prolongamento da Avenida Beira-Mar, ligando as praias de Flamengo e Botafogo. A partir do Edifício Hilton Santos – nome da sede do Morro da Viúva, homenagem ao presidente rubro-negro que viabilizara o negócio com apoio do ministro e depois presidente Eurico Gaspar Dutra – subiram outros arranha-céus para cercar de vez o monte, todos oferecendo a cobiçada vista dos cartões postais cariocas. O processo foi acelerado com a construção do Aterro do Flamengo na década de 60. No começo dos anos 70, foi demolido, na Avenida Osvaldo Cruz, o Palacete Martinelli, formidável mansão em estilo surrealista, projetada pelo italiano Antonio Virzi, chamado de Gaudi carioca, para dar logo a um prédio de quatro blocos e 25 andares, que ainda preserva, na área de lazer do condomínio na pedra do Morro da Viúva, a capela dos tempos do empresário Giuseppe Martinelli.

No século XXI, quem passa pelas calçadas das Avenidas Oswaldo Cruz e Rui Barbosa não consegue imaginar que ali por trás existe um morro. Na Rui Barbosa, os prédios são todos colados uns aos outros como se a intenção fosse mesmo fazer sumir qualquer vestígio da pedra e do mato. Apartamentos de luxo, como os planejados para a velha sede do Flamengo, são maioria. O Hilton Santos, abandonado pela histórica má administração do clube, chegou a ser arrendado por Eike Batista para virar hotel. Só dá para ver algo do Morro da Viúva das janelas dos fundos dos apartamentos e dentro do imóvel histórico, de 1922, onde funcionou a Escola de Enfermagem Anna Nery (de 1926 a 1973) e a Casa do Estudante Universitário (de 1973 a 1995) – este conjunto arquitetônico, dois prédios ligados, passou por reformas e abriga o Colégio Brasileiro de Altos Estudos, da UFRJ.

Vista do Morro da Viúva; cercado por 'cartões postais' (Foto Oscar Valporto)
Vista do Morro da Viúva; cercado por ‘cartões postais’ (Foto Oscar Valporto)

Mas, apesar de desativado pela então Cedag (Companhia de Águas da Guanabara) em 1970, o antigo reservatório continua lá no alto do Morro da Viúva: construções do século XIX são resistentes ao tempo. O acesso por uma estreita escada é usada pelos moradores de duas dezenas de casas que serviam anteriormente aos funcionários da empresa e estão ocupadas desde o século passado por seus parentes e descendentes – outro acesso, menos íngreme, foi fechado pelo condomínio de um dos prédios que cercam a colina. O reservatório, tombado pelo Inepac (Instituto Estadual do Patrimônio Cultural), merecia que a Cedae o tratasse e preservasse adequadamente: apesar da construção ser firme, está maltratada e abandonada. E a vista – como promete a imobiliária que começa a anunciar os apartamentos do Flamengo – é espetacular, com o Pão de Açúcar e a enseada, um tanto cobertos pela mata, de um lado, e o Cristo e a praia de Botafogo de outro.

Para visitar reservatório tombado, colunista sobe 170 degraus (Foto Oscar Valporto)
Para visitar reservatório tombado, colunista sobe 170 degraus (Foto Oscar Valporto)

Fazer uma visita ao reservatório, porém, requer disposição. São quase 170 degraus: o morador recomenda ir devagar “para não maltratar o coração” e garante que mesmo quem faz o trajeto todo dia sofre com o esforço. Chego de volta à Oswaldo Cruz no calor da primavera, sonhando com um chope: é o que me dá o impulso para seguir o instinto andarilho, passar novamente em frente ao velho prédio do Flamengo até chegar ao Belmonte original que preserva uma antiga serpentina de 300 metros e o clima de boteco que as filiais perderam e um balcão que os outros também já não têm. Quando a conversa no balcão ameaça caminhar para a política, resolvo dar a boa notícia que o prédio do Flamengo está em obras para virar novamente residencial. Tem um que não acredita: acha que é mentira; preciso mostrar a foto e garantir que foi feita menos de uma hora atrás. Pede desculpas, mas eu compreendo. No país da mentira e da difamação pelo whatsapp, vai ter gente achando que eu inventei o Morro da Viúva.

#RioéRua  


Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica croniquetas semanais sobre suas andanças pela cidade.

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