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Meu querido Zu, estamos fu

Que em 2018 a gente possa caminhar sem olhar para o que vem atrás, sem medo de ser abalroado


Correr na Lagoa ou flanar no calçadão da orla aos domingos viraram utopias cariocas. Foto Custódio Coimbra
Correr na Lagoa ou flanar no calçadão da orla aos domingos viraram utopias cariocas. Foto Custódio Coimbra

Meu querido Zuenir Ventura, na esperança antes de tudo que a saúde reine em sua casa, venho por meio desta me solidarizar com suas desditas, explanadas em recente coluna de jornal sobre o desvario dos ricos cariocas quando vão ao lazer, aos domingos, no calçadão de Ipanema. Estamos fu, Zu.

São senhoras postas sobre bicicletas elétricas ou rapagões espadaúdos em outras da última geração de corridas, com aquele visual de que já viram todos os exemplos da boa civilização mundial, mas nada do que viram pelos mundos que visitaram serve para civilizá-los dentro dos bons padrões da convivência cotidiana

Antigamente, a banda do bairro abria seus desfiles, alegre, invocando a presença da turma com um “Alô burguesia de Ipanema”. Tinham grana, tinham fama, bom gosto e frequentavam a boêmia de bares do bairro. Agora, tudo que se grita é “Xô, burguesia”. Já os novos ricos, a toda hora estrelando uma condução coercitiva, parecem personagens da velha piada da criação do mundo. Deus estava no seu divino ateliê gastando todas as boas tintas do projeto com a feitura do Rio de Janeiro, quando alguém lhe pergunta intrigado sobre o porquê daquele privilégio, e ele responde: “Mas você vai ver a gentinha que eu vou botar lá”.

Um dos grupos mais lamentáveis dessa gentinha, meu caro Zuenir, é essa burguesia que nas áreas de lazer da cidade se movimenta sobre bicicletas, bicicletas elétricas, skates, patins e o que mais de rodinhas inventarem. Nada contra as rodinhas, pelo contrário. Somos todos a favor de um mundo com outros desenhos de mobilidade, principalmente os não poluentes e que podem favorecer a saúde do cidadão. Somos contra, cada vez mais amedrontados, o uso que se faz delas.

Eu também sofro o diabo com esse pessoal, meu mestre. Corro diariamente na Lagoa, uma corrida de índole medicinal contra as taxas da glicose. Preciso, no entanto, fazer isso cada vez mais cedo, porque a população sobre rodas de bicicletas ou skate é a que mais cresce no mundo e depois das sete horas tem sempre alguém passando a cem bem rente, me deixando a salvo por milímetros, mas com aquele ventinho e ruído de lataria malignos que não deixam dúvidas – te cuida, porque na próxima volta pode ser diferente.

São senhoras postas sobre bicicletas elétricas ou rapagões espadaúdos em outras da última geração de corridas, todos com aquele visual dos abastados, dos que chegaram ontem de Zurique, anteontem de alguma sala de Da Vinci no Louvre. Já viram todos os exemplos da boa civilização mundial, foram forçados ao silêncio nas plateias do Lincoln Center, mas nada do que viram pelos mundos que visitaram serve para civilizá-los dentro dos bons padrões da convivência cotidiana. Pelo contrário. Cada vez arrogam-se na pretensão de que são os donos do calçadão e que você, como um deles respondeu a sua reclamação, que vá “tratar da sua vida, seu velho”.

Correr na Lagoa ou flanar no calçadão da orla aos domingos viraram utopias cariocas, duas daquelas delícias que vão ficando para trás junto com o frapê de coco do Simpatia, o aplauso ao pôr do sol e a esperança trocadilhesca de que melhores dias, verão. Anota essa, Zu. Está para acontecer o primeiro atropelamento com vítima fatal numa dessas pistas – os feridos contam-se aos montes, e todo mundo conhece alguém que se machucou seriamente ao ser abalroado por um desses ciclistas assassinos. Breve, um morto.

Não adianta, como você percebeu ao pedir ajuda, que os guardas municipais saiam do seu conforto de andarem de um lado para o outro, teclando no feice, para que façam alguma coisa. Ninguém sabe mais quais são as normas da boa convivência. Aquela inscrição no chão da Lagoa, “via compartilhada”, pedindo atenção para que a máquina pesada das bicicletas tenha cuidado com os colegas pedestres, aquela inscrição é uma dessas falácias do carioca gente boa, este ser que qualquer dia vai ter a ossada apresentada ao lado do esqueleto do dinossauro na Quinta da Boa Vista.

Enfim, meu bom Zu, estamos fu. A bicicleta ensandecida e fora da ciclovia é apenas mais uma manifestação da grande distopia ao redor, a constatação – mais a corrupção, as ruas esburacadas, os serviços amadores e o prefeito-ausente – de que está tudo fora da ordem municipal. Se 1968 foi o ano que não acabou, como bem disseste no seu clássico, espero que 2017 termine logo. Que em 2018 a gente possa caminhar sem olhar para o que vem atrás, sem medo de ser abalroado à direita ou à esquerda, são os meus votos pedestres para você e os seus.


Escrito por Joaquim Ferreira dos Santos

Joaquim Ferreira dos Santos

Jornalista e autor de vários livros, entre eles "Feliz 1958 - O ano que não devia acabar" e as biografias de Leila Diniz, Antonio Maria e Zózimo Barrozo do Amaral. Organizou a coletânea "As cem melhores crônicas brasileiras" e também publicou livros como cronista. Define-se principalmente como um repórter de Cidade. No #Colabora, Joaquim escreve sobre o que vai pelas calçadas e espaços públicos do Rio.

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