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Memórias de uma tragédia

As lembranças de um menino - às vésperas dos 6 anos - do deslizamento que matou 120 pessoas em Laranjeiras em 1967


Há 50 anos, a tragédia vista da General Glicério. Uma pedra imensa rolou, derrubou uma casa, dois prédios e deixou 120 mortos. Foto Agência Globo
Há 50 anos, a tragédia vista da General Glicério. Uma pedra imensa rolou, derrubou uma casa, dois prédios e deixou 120 mortos. Foto Agência Globo

Quando acordei, estava tudo escuro e a casa era um pandemônio, com todo mundo gritando para as crianças, que nada entendiam, ficarem calmas. Eu e meus irmãos – 5, 4 e 3 anos – fomos vestidos às pressas por minha mãe e a babá à luz de velas. Descemos 11 andares de escada, com meu pai e meu avô à frente com lanternas. Encontramos vizinhos nas escadas. Reclamava que meus pés doíam: levei bronca da mãe e até um beliscão da avó para ficar quieto.

Da janela do nosso apartamento, dava para ver o trabalho de resgate dos bombeiros, retirando corpos e mais corpos, recolhendo objetos

A rua estava tomada de gente, apesar da chuva. Meu pai botou a família no carro e zarpou para a casa de parentes no Jardim Botânico. Ninguém queria crianças ali, naquele momento, na General Glicério, coração de um pequeno bairro dentro de Laranjeiras, na Zona Sul do Rio.  Minutos antes, uma pedra deslizara do alto do morro, derrubara uma casa na Rua Belizário Távora, lá em cima, e arrastara dois pequenos prédios, um voltado para a própria Belizário, o outro na Rua Cristóvão Barcelos, embaixo, ao lado da General Glicério. Mais de 120 pessoas morreram soterradas ali – entre elas, o jornalista Paulo Rodrigues, irmão do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues.

A mesma imagem, 50 anos depois, com a vegetação recuperada. Foto Oscar Valporto
A mesma imagem, 50 anos depois, com a vegetação recuperada. Foto Oscar Valporto

Era o fim da noite de um domingo, 19 de fevereiro de 1967, 50 anos atrás: o deslizamento de terra pegou as famílias em casa, muita gente dormindo. As crianças – como eu – ficaram pelo menos uma semana longe de casa. Da janela do nosso apartamento, dava para ver o trabalho de resgate dos bombeiros, retirando corpos e mais corpos, recolhendo objetos.  Na memória da infância, ficaram a confusão noturna, o tamanho de uma pedra, impressionante, que ficou por um mês no pátio do prédio ao lado do meu, e as dores nos pés – no escuro, a babá tinha calçado minhas botas com os pés trocados.

Mas o avô, depois, foi obrigado a repetir seu testemunho muitas vezes como o único da família ainda acordado. Estava na varanda, fumando, quando ouviu um estrondo e a luz apagou. Achou, por um momento, que era a explosão de um transformador que causara o apagão.  Mas viu subir uma enorme nuvem de poeira e começou a ouvir uma gritaria que anunciava a tragédia. Depois, vieram os momentos de pânico generalizado – ninguém sabia o que tinha caído e o que podia cair.

Nos 10 anos seguintes, o trabalho de escoramento de encostas foi acelerado – por toda a cidade, com prioridade, naturalmente, para Zona Sul: no Morro do Cantagalo, em Ipanema, no Morro dos Cabritos, em Copacabana, no Santo Amaro, na Glória, na Ladeira do Sacopã, na Lagoa

Tragédias causadas pela chuva não eram novidade no Rio de Janeiro. Um ano antes, em janeiro de 1966, cerca de 250 pessoas morreram nas enchentes. Os deslizamentos, entretanto, ficaram restritos às favelas: jornais registraram tragédias no Morro do Urubu, no Engenho da Rainha, e no Morro de São Carlos, no Estácio. Ainda em 1966, o governo do então Estado da Guanabara criou o Instituto de Geotécnica, para fazer o trabalho de prevenção nas encostas cariocas –  que nem tinha saído direito do papel quando houve o deslizamento em Laranjeiras. A tragédia na classe média empurrou os políticos e a burocracia. O Instituto de Geotécnica ganhou concursos e verbas para fazer a prevenção das encostas virar realidade.

Nos 10 anos seguintes, o trabalho de escoramento de encostas foi acelerado – por toda a cidade, com prioridade, naturalmente, para Zona Sul: no Morro do Cantagalo, em Ipanema, no Morro dos Cabritos, em Copacabana, no Santo Amaro, na Glória, na Ladeira do Sacopã, na Lagoa. Depois disso, tragédia semelhante só ocorreu no verão de 1988, quando mais de 40 pessoas, pacientes e funcionários, morreram no deslizamento de terra que atingiu a clínica Santa Genoveva, para idosos, em Santa Teresa. As tragédias no estado continuaram, mas distantes da capital: 60 mortos na Região Serrana em 1999; 53 mortos no último dia de 2009 em Angra dos Reis; 264 mortos no Morro do Bumba, em Niterói, em 2010; a maior de todas as tragédias, mais de mil mortos na Região Serrana em 2011

Os engenheiros do GeoRio – nome fantasia da agora Fundação Instituto de Geotécnica – vêm sendo cedidos, pelo reconhecimento do trabalho na capital, ao governo estadual e a outros municípios para ajudar na contenção das encostas em todo o estado. Para técnicos da GeoRio, a eficácia do trabalho foi facilitada pelo pouco interesse dos políticos no instituto: obras de prevenção não costumam dar votos e, por isso, os presidentes da fundação vêm sendo escolhidos dentro de seus quadros. O GeoRio só ganha manchetes na tragédia: a última vez foi no desabamento da ciclovia Tim Maia.

Na própria vizinhança da tragédia de Laranjeiras, o instituto fez uma série de exigências até permitir a construção de prédios nas encostas da Cristóvão Barcelos e da Belizário Távora. Prédios subiram no entorno, mas, da janela do apartamento com vista para tragédia ainda propriedade da minha família na General Glicério, é possível ver a cicatriz, 50 anos depois. Os herdeiros dos apartamentos destruídos e o poder público jamais se entenderam: ações se arrastam na Justiça desde então. No terreno – entre a Belizário e a Cristóvão – onde estavam os dois prédios, hoje existe um bosque, uma encosta cheia de árvores, com até a plantação de uma horta orgânica. Por ali, pelo menos, ninguém mais morreu vítima das chuvas.

No lugar da tragédia, uma horta comunitária, cuidada pelos moradores da região. Foto Oscar Valporto
No lugar da tragédia, uma horta comunitária, cuidada pelos moradores da região. Foto Oscar Valporto

Escrito por Oscar Valporto

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica croniquetas semanais sobre suas andanças pela cidade.

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7 Comentários

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  1. Soube pela TV do desabamento. Morava ainda na rua das Laranjeiras e havia comprado um aparamento na General Glicério para onde me mudaria. Assustado fui para lá e vi os bombeiros tirando os corpos. Terrível, assim com relatado. Por dias vi passar pela rua das Laranjeiras caminhões com resto das construções e com os entulhos manchados de sangue. Até hoje nada mais foi construído no local.´Amadeu Martins

  2. Caro Oscar Valporto, você não me conhece, nem sabe quem eu sou. Me nome é Eliahu Feldman, e eu estava de plantão como acadêmico da Equipe Daniel de Almeida no Hospital Souza Aguiar, e fui um dos que sairam de ambulancia para socorrer as vítimas do desastre. Passei a noite acordado lá na General Glicério, tentando ajudar. Hoje sou médico, mas moro em Israel há muitos anos. Saúde pra você, Oscar.

  3. Acrescento que nas chuvas de 1966, fui para o “Centro Comercial de Copacabana”, ainda não terminado, na rua Siqueira Campos, onde foi instalado um verdadeiro hospital de campanha nas lojas ainda sem portas, apenas comodos vazios…

  4. Eu era recém casada e morava na rua Estelita Lins quando recebi uma ligação dizendo que o prédio onde moravam meus pais tinha caído. Saímos, meu marido e eu, correndo em direção a Gal Glicério. Estava tudo muito escuro e alguns carros direcionaram os carros com os faróis acessos para iluminar o local. Quando cheguei próximo, vi que não era o prédio onde meus pais tinham o apartamento na Belisário Távora, mas outro muito próximo. Foi tudo muito triste, No prédio que foi destruído eu tinha vários amigos assim como conhecia, de cumprimentar, os moradores da casa. O entorno da Gal Glicério era uma vila, todos se conheciam. A pedra caiu porque estavam tirando saibro no morro. Pelo menos foi o que ouvi na época. Tempos depois mudei de Laranjeiras e fui morar fora do Rio. Hoje voltei e moro no apartamento da Belisário Távora. Ler o texto do Oscar me fez recordar muita coisa. Maria Elena

  5. Quando aconteceu a tragédia eu morava em Copacabana. Li tudo no Globo e fiquei estarrecida. Queria saber de detalhes! Aí soube que uma pedra de muitíssimas toneladas, rolou da encosta da Rua Belizario Távora indo destruindo um casarão e rolando destruiu um condomínio com dois blocos, esmagando tudo , indo parar na Rua General Cristóvão Barcelos, em frente a um outro edifício que ficou interditado, tendo que esvasia-lo por precaução.
    Fiquei muito empressionada…Corpos nas ruas…
    Após três anos, sem saber e lembrar da Tragédia, vim morar na Rua General Cristóvão Barcelos bem próximo do terreno baldio que pertencia aos parentes das vítimas, como herança. Triste herança!

  6. Lembro-me bem desses acontecimentos de 1966 e 1967. Lembro-me que o então Governador do Estado da Guanabara, Francisco Negrão de Lima foi culpabilizado pela tragédia na Rua General Glicério e entorno (Estelita Lins) por ter trazido a data de comemoração do aniversário da cidade do Rio de Janeiro para o dia primeiro de março, quando a tradição comemorava o evento no dia 20 de janeiro (dia de São Sebastião). Pelo sim, pelo não, foram dois anos de muita agonia, especialmente no Bairro das Laranjeiras/Cosme Velho.

  7. Lendo seu relato, voltei ao tempo. Morava na rua Santo Amaro em 1966 qdo houve a tragédia com o desabamento da encosta que deixou muitas vítimas, são momentos que nos marcam para sempre!!!

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