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Londres bate recorde de poluição

Em cinco dias, bairro da capital britânica supera limites tolerados para o ano inteiro


Um balão com a imagem de Mary Poppins usando uma máscara foi a forma encontrada pelo Greenpeace para protestar contra a poluição atmosférica. Foto de Daniel Leal-Olivas
Um balão com a imagem de Mary Poppins usando uma máscara foi a forma encontrada pelo Greenpeace para protestar contra a poluição atmosférica. Foto de Daniel Leal-Olivas

Brixton é um bairro pouco turístico no Sul de Londres que atrai visitantes em busca da fascinante mistura de culturas que a cidade sabe oferecer. Mas o lugar rendeu manchetes no início de 2017 por razões que passam longe de seus coloridos mercados de rua, onde imigrantes africanos, caribenhos e asiáticos se juntam. Nos primeiros cinco dias do ano novo, sua principal avenida, a Brixton Road, atingiu o limite anual dos níveis de poluição, reforçando a imagem de Londres como a terra dos nevoeiros tóxicos.

Estima-se que dez mil pessoas morram anualmente na capital, vítimas de problemas provocados pela poluição, como doenças respiratórias ou cardiovasculares. O número de mortes no país chega a 50 mil por ano, segundo dados oficiais

Se no século 20 o problema maior era a queima de carvão que movia a economia britânica – prática que produz a nuvem de poluição sobre Pequim, por exemplo – hoje os veículos movidos a diesel são apontados como os principais poluentes de Londres. Os índices de dióxido de nitrogênio (NO2) atingem recordes mundiais na metrópole. O problema piora nesta época do ano, com as baixas temperaturas. De acordo com a legislação europeia, o limite de emissão por hora não pode ultrapassar 200 microgramas de NO2 por metro cúbico mais de 18 vezes ao ano. Em Brixton, em apenas cinco dias, esse limite foi quebrado 19 vezes.

Mas não seria justo culpar apenas a Brixton Road pela péssima qualidade do ar respirada pelos londrinos. Segundo especialistas do King’s College, que acompanham diariamente a poluição na capital, vias importantes como a Oxford Street, coração comercial de Londres, também já extrapolaram esse índice, assim como várias outras avenidas lotadas de black cabs (os táxis pretos) e double deckers (os ônibus de dois andares).  Movidos a diesel, esses veículos são tão icônicos quanto poluentes. Além disso, Londres está longe de ser uma cidade que incentiva os ciclistas.

Para chamar a atenção para a gravidade do problema, o Greenpeace fez um protesto em frente ao Big Ben, soltando um balão que carregava a imagem de Mary Poppins com seu guarda-chuva voador. Só que a governanta mágica flutuava sobre a cidade com uma máscara para se proteger da poluição – cena que se espalhou pelas mídias sociais. Não é exagero dos ativistas. Embora as ruas de Londres não estejam tomadas por pedestres usando máscaras, como se vê na China, a saúde da população está ameaçada. Estima-se que dez mil pessoas morram anualmente na capital, vítimas de problemas provocados pela poluição, como doenças respiratórias ou cardiovasculares. O número de mortes no país chega a 50 mil por ano, segundo dados oficiais. No ano passado, um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que 90% dos moradores do Reino Unido respiram ar altamente poluído. Os mais vulneráveis aos efeitos nocivos dos gases tóxicos são crianças e idosos.

Eleito em 2016 com a promessa de fazer de Londres uma cidade mais verde, o prefeito Sadiq Kahn respondeu rapidamente ao alerta dado em Brixton. Ele anunciou dez áreas onde só ônibus híbridos ou menos poluentes poderão circular, numa tentativa de limpar o ar em torno de 172 escolas de regiões onde a qualidade é desastrosa. Khan já prometera dobrar para 875 milhões de libras (cerca de R$ 3,4 bilhões) o fundo destinado à redução da poluição. O Greenpeace elogiou o prefeito.

Apesar de serem parte do problema, motoristas dos tradicionais black cabs protestam contra a poluição do ar. Foto de Kate Green /Anadolu Agency
Apesar de serem parte do problema, motoristas dos tradicionais black cabs protestam contra a poluição do ar. Foto de Kate Green /Anadolu Agency

– Estas são iniciativas bem-vindas, que mostram que o prefeito é sério em suas intenções de limpar o ar e proteger os londrinos dos efeitos nocivos da poluição. Esperamos que o governo nacional aprenda com Londres e forneça recursos para que outras cidades também possam proteger a saúde de todos – disse ao #Colabora Areeba Hamid, uma das responsáveis pela campanha do Greenpeace pela melhoria da qualidade do ar.

Em dezembro de 1952, a combinação de frio, ausência de ventos e uma grande concentração de gases tóxicos na atmosfera cobriu a capital britânica com uma neblina espessa e venenosa que provocou um número estimado de 12 mil mortes

A ativista tocou num dos principais pontos da discussão no Reino Unido: o governo federal não tem feito o suficiente para reduzir as atividades poluentes. A ONG ClientEarth moveu uma ação contra o governo, acusando o Gabinete conservador de ignorar sistematicamente o desrespeito às metas ambientais, bloqueando, por exemplo, o controle da circulação de veículos movidos a diesel em áreas altamente poluídas – medida adotada por Paris, por exemplo, no final do ano. A Justiça concordou com os ativistas, aumentando a pressão para que a primeira-ministra Theresa May tome medidas imediatas. Sadiq Khan depôs a favor da ONG.

A história de Londres é marcada pelo smog – junção de smoke (fumaça) com fog (nevoeiro) – coisa que só tem seu charme na literatura ou no cinema. O problema existe desde a Revolução Industrial, mas foi em 1952 que a poluição passou a ser tratada como uma catástrofe. Em dezembro daquele ano, a combinação de frio, ausência de ventos e uma grande concentração de gases tóxicos na atmosfera, produzidos principalmente pela queima de combustíveis fósseis, cobriu a capital britânica com uma neblina espessa e venenosa que ficou conhecida como o “Grande Smog”, uma das piores crises ambientais já registradas. Durante quatro dias, Londres parou, tomada por um cheiro de enxofre. Ninguém conseguia enxergar um palmo à frente do nariz. Os transportes não circularam, o comércio fechou, hospitais entraram em colapso e os saques se espalharam. Não havia dia. Só noite. A fumaça invadiu casas e provocou um número estimado de 12 mil mortes.

O desastre sem precedentes obrigou as autoridades britânicas a admitir, pela primeira vez, os efeitos letais da poluição para a cidade, até então cercada de chaminés de fábricas que despejavam a fumaça na área urbana sem nenhum controle. Depois disso, várias medidas foram tomadas, resultando num conjunto de leis que conseguiu reduzir a emissão de gases poluentes.  A legislação, conhecida como Clean Air Act, completou 60 anos em 2016, e incluiu incentivos para que as famílias britânicas abrissem mão de suas adoradas lareiras de carvão e multas para as fábricas poluidoras. O mundo mudou, os padrões de consumo também, e já não há cheiro de enxofre em Londres. Mas a poluição atmosférica ainda é uma ameaça.


Escrito por Claudia Sarmento

Claudia Sarmento

Trabalhou por mais de 20 anos no jornal O Globo, mas não gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar. Foi editora de Mundo e da Revista da TV, gerente de produtos, e, mais recentemente, correspondente no Japão. Há um ano trocou Tóquio por Londres, onde acaba de completar um mestrado em Cultura Digital pelo King's College.

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