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Crescimento vertical, uma saída para as cidades

Mais planejamento e políticas públicas e menos especulação ajudam a melhorar os serviços e reduzir a poluição


A cidade Lagos, capital da Nigéria, é um dos muitos exemplos de caos urbano no mundo. Foto Pius Utomi Ekpei/AFP
A cidade Lagos, capital da Nigéria, 22 milhões de habitantes em 720 quilômetros quadrados: só 10% da população com serviço de esgoto; 20% com água de torneira. Foto Pius Utomi Ekpei/AFP

As áreas urbanas deverão crescer globalmente cerca de 80 por cento até o final da próxima década. E a menos que cresçam para o alto, e não se espalhem, elas terão ainda mais problemas do que têm hoje. É o que aponta um novo relatório do World Resources Institute (WRI) em parceria com a Universidade Yale. A evolução da humanidade está intimamente ligada ao desenvolvimento do espaço onde vivemos. Todas as previsões mostram que o planeta estará totalmente urbanizado até 2100. Este processo foi acelerado pela revolução industrial, e o crescimento rápido das cidades assume agora uma fase explosiva.  As visões sobre os futuros urbanos estão quase sempre associadas a retratos distópicos de cidades tomadas por poluição, congestionamentos de trânsito e superpopulações.

Quando as cidades crescem pela vontade dos construtores, e não como resultado de políticas, o resultado é o desenvolvimento pela periferia. IsSo destrói terras agricultáveis e florestas, e a expansão se dá em locais longe do trabalho e mal conectados com serviços municipais como água e transporte público

Anjali Mahendra
Coautora da pesquisa

O estudo mostra o crescimento para o alto e por espalhamento de 499 cidades em países em desenvolvimento e confirma que os desafios da rápida expansão territorial são maiores em cidades de baixa renda, que têm pouco planejamento e governança do uso da terra, além de mercados financeiros precários. É o primeiro trabalho desse tipo a utilizar satélites para enxergar o espraiamento e radares para verificar o crescimento vertical.

Para se lidar com os desafios, há estratégias importantes. Primeiro é preciso priorizar o valor real da terra, combatendo a especulação. Isso pode ser feito através de instrumentos de regulação. Depois, aumentar a disponibilidade de espaços que ofereçam serviços básicos, por meio de parcerias. Finalmente, é fundamental integrar ocupações informais.

Na última década, os avanços em ciência da complexidade nos permitiram dissecar, com acurácia sem precedentes, os detalhes da mobilidade humana em áreas urbanas densas, dando espaço a mais planejamento estratégico da construção de nosso entorno. Mas o fenômeno está longe de ser universal.

A China é um dos poucos países do mundo que investe consistentemente no crescimento vertical das suas cidades. Foto Zhejiang Daily / Imaginechina
A China é um dos poucos países do mundo que investe consistentemente no crescimento vertical das suas cidades. Foto Zhejiang Daily / Imaginechina

“Quando as cidades crescem pela vontade dos construtores, e não como resultado de políticas, o resultado é o desenvolvimento pela periferia. Isso destrói terras agricultáveis e florestas, e a expansão se dá em locais longe do trabalho e mal conectados com serviços municipais como água e transporte público”, diz Anjali Mahendra, coautora do trabalho e diretora de pesquisa do instituto Ross Center for Sustainable Cities.  Hoje, a opção clara pelo crescimento vertical das cidades é quase uma exclusividade da China, e pouco acontece na África, o que é uma preocupação, porque cerca de 90% da urbanização até 2030 vai de dar exatamente naquele continente.

O estudo toma como um de seus exemplos a cidade de Lagos, na Nigéria, com seus 22 milhões de habitantes. O que foi um dia uma pequena cidade costeira hoje é uma megametrópole espalhada por 720 quilômetros quadrados. Isto tornou a vida local muito precária. Menos de 10% das pessoas vivem em lares com serviço de esgoto, e menos de 20% têm acesso a água de torneira. Muitas casas são partes de favelas e ocupações na periferia da cidade.

A cidade pede urgência na reformulação de seu espaço. Na economia do conhecimento de hoje, a aproximação entre empresas e talentos é um dos principais impulsionadores de inovação e crescimento econômico. Mas, mesmo com a construção de milhares de arranha-céus pelo mundo, sabemos muito pouco como esta economia funciona em modo digital, e como isso afeta a mobilidade humana.

De qualquer forma, a tendência está aí. Cidades competem no cenário global para ter o título de edifício mais alto, com o qual anunciam a confiança e a estatura global de suas economias. Isto pode colocar a cidade no mapa, sinalizando e promovendo progresso econômico e avanços significativos, além do status de potência emergente.

Jovens criam a tendência de preferir a vida nos centros, onde podem achar casas perto do trabalho, dispensando automóveis, custos elevados e poluição. Os mais velhos também querem se livrar do stress do trânsito e escapar da sensação de solidão e isolamento do subúrbio. E nos centros, todos encontram atividades culturais suficientes, e comércio à mão. Com isso, os centros, tomados de altas construções, experimentam um renascimento. Para a economia, o agrupamento de edifícios cria sinergia entre diversas atividades e serviços, e o “transbordamento de conhecimento” entre empresas do mesmo setor.

Para o bem-estar e o ambiente, a alta densidade de população preserva os espaços abertos, uma meta central da sustentabilidade. Eles incluem áreas naturais na cidade e em torno delas, centros de recreação e espaços comunitários. A disponibilidade deles fornece qualidade ambiental e benefícios à saúde, entre eles, níveis de poluição menores, menos ruídos, controle da erosão e a moderação das temperaturas.


Escrito por José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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