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As hortas suspensas de Paraisópolis

Projeto ajuda a multiplicar plantações de verduras e legumes nas lajes de uma das maiores favelas de São Paulo


Natália com a filha Júlia: horta com manjericão, alface, rúcula e coentro na sua laje em Paraisópolis após passar pelo projeto (Foto: Florência Costa)
Natália com a filha Júlia: horta com manjericão, alface, rúcula e coentro na sua laje em Paraisópolis após passar pelo projeto (Foto: Florência Costa)

O cheiro de cebolinha se mescla com o da hortelã e do alecrim. Os aromas se intensificam conforme você sobe os degraus que levam a uma laje de um prédio de três andares na rua Ernest Renan, em Paraisópolis, uma das maiores comunidades do Brasil, na Zona Sul da capital paulistana. Ali funciona a União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis.

Caixotes de madeira e tambores de plástico azuis cortados ao meio estão espalhados pelo chão da laje. Neles estão plantados legumes, verduras e frutas orgânicos: pés de alfaces, coentro, salsinha, cebolinha, almeirão, tomate, pimenta, louro, manjericão, hortelã, couve, alecrim, morango, amora, jabuticaba.

Se no Morumbi tem as varandas gourmet, aqui hoje temos a laje gourmet. Esse aqui é um espaço de aprendizado e de lazer, de encontro dos nossos moradores

Gilson Rodrigues
Presidente da Associação de Moradores de Paraisópolis

O teto é formado por um varal de guarda-chuvas vermelhos, azuis e verdes com estampas de poá – uma referência a uma cidade portuguesa, Águeda. Mesas e cadeiras indicam que ali funciona um restaurante. Nas paredes, os grafites criativos explicam aos visitantes que eles estão na Horta na Laje e no Bistrô & Café Mãos de Maria.

O projeto Horta na Laje existe desde meados de 2017 e ensina moradores a fazer plantações coletivas nas suas lajes e nos espaços livres da comunidade. “Existem milhares de metros quadrados de lajes que podem ser utilizados “, explica Gilson Rodrigues, presidente da União dos Moradores de Paraisópolis.

Paraisópolis – uma das maiores favelas de São Paulo – nasceu como dormitório dos operários que ergueram as luxuosas mansões e prédios chiques do Morumbi. “Se no Morumbi tem as varandas gourmet, aqui hoje temos a laje gourmet”, brinca Rodrigues. “Este aqui é um espaço de aprendizado e de lazer, de encontro dos nossos moradores”, disse.

A grande maioria dos 120 mil habitantes de Paraisópolis é de migrantes do Nordeste, especialmente da Bahia e de Pernambuco. Muitos fugiram da miséria e da seca em paus-de-arara. “Muitas alunas lembram de seu tempo de roça no Nordeste. Acaba sendo um resgate da identidade, da origem das pessoas”, conta.

Boa parte dos alunos do Horta na Laje são mulheres. Professores de Agronomia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), dão assessoria aos alunos, conta Davi Barreto, superintendente do Instituto Stop Hunger Brasil, uma organização social de combate à fome. O instituto, mantido pelo Grupo Sodexo, faz parceria com União dos Moradores e pela Associação das Mulheres de Paraisópolis neste projeto.

Horta na laje em Paraisópolis: plantações ajudam até a diminuir temperatura nas casas (Foto: Florência Costa)
Horta na laje em Paraisópolis: plantações ajudam até a diminuir temperatura nas casas (Foto: Florência Costa)

Cerca de 1600 pessoas já se beneficiaram com esse programa. Para trocar experiências, dicas e acompanhar o processo de cultivo, o Instituto Stop Hunger criou um grupo de WhatsApp, diz Barreto. O projeto tem vários objetivos, entre eles o de espalhar plantações orgânicas em cada metro disponível da comunidade e a moda da laje pavimentou o terreno. Há alguns anos, as casas de Paraisópolis tinham telhado. Hoje, cerca de 90% tem lajes.

Outro propósito é capacitar as pessoas, especialmente mulheres, em técnicas de plantio de forma que elas ganhem uma atividade econômica promissora e sustentável na comunidade. Afinal, temperos e verduras orgânicas são valiosas.  Também pretende-se estimular a alimentação saudável. “As mudanças acontecem onde as pessoas moram”, afirma Barreto. Ter hortas nas lajes traz uma série de benefícios: as plantas, por exemplo, contribuem para diminuir a temperatura da casa.

As pessoas são influenciadas a partir das hortas que veem nas casas dos vizinhos, se multiplicando. Natália dos Santos, 31 anos, diagnosticada com esquizofrenia, diz que o hobby ajudou no tratamento dessa condição. Dona de uma laje de 40 metros quadrados, Natália planta manjericão, alface, rúcula e coentro. “As minhas hortas me fazem sentir feliz, viciei nisso. Eu fico pesquisando na internet sobre o assunto”, conta. Natália, mãe de uma menina de cinco anos, conta que a avó de 91 anos, começou recentemente a se dedicar às hortas também.

O Bistrô Mãos de Maria surgiu como consequência do sucesso da Horta na Laje: as mulheres que trabalham no restaurante foram alunas do projeto das plantações orgânicas.  Para cada dia da semana há um prato diferente:  pode ser frango com quiabo, moqueca de peixe, vaca atolada, galinhada. São servidos 30 almoços por dia ao preço de R$ 20 cada um.

A ideia do bistrô, que partiu de Elizandra Cerqueira, presidente da Associação das Mulheres de Paraisópolis, surgiu da necessidade de empoderar as mulheres da comunidade. Muitas dessas mulheres são vítimas de violência e Elizandra conhece de perto esse problema porque já foi vítima também de um ex-namorado.

Elizandra Cerqueira, presidente da Associação das Mulheres de Paraisópolis, Davi Barreto, do Stop Hunger, e Gilson Rodrigues, da União dos Moradores: parceria pela multiplicação das hortas (Foto: Florência Costa)
Elizandra Cerqueira, presidente da Associação das Mulheres de Paraisópolis, Davi Barreto, do Stop Hunger, e Gilson Rodrigues, da União dos Moradores: parceria pela multiplicação das hortas (Foto: Florência Costa)

Atualmente, 53% da população de Paraisópolis é composta por mulheres, sendo que 20% delas são chefes de família. Filha de migrantes da Bahia, nascida em Poções no sertão, Elizandra veio para São Paulo com 1 ano de idade. Ela conseguiu uma bolsa integral na universidade e formou-se em Publicidade. Hoje é uma grande liderança feminista da comunidade

“Ainda somos muito estigmatizados por vivermos em uma favela”, lamenta Elizandra, que já teve que mentir no trabalho dizendo que vivia no vizinho Morumbi. Um dia, quando trabalhava como recepcionista em uma agência de publicidade, ouviu do patrão que não deveria contar aos clientes que morava em Paraisópolis porque poderia assustá-los. “Ele mandava eu dizer que morava no Morumbi, mas nunca aceitei aquilo. Por que eu mentiria? Não tenho vergonha da minha comunidade”, contou Elizandra.

Mas Paraisópolis, onde hoje atuam 62 ONGs e abriga 4 bancos, é cada vez mais motivo de orgulho. Os 10 mil pontos de comércio da comunidade empregam 20% da população local.

No ano passado o Bistrô dirigido por Elizandra recebeu uma premiação internacional voltada para o empoderamento feminino: o Women Stop Hunger Awards, cuja cerimônia final ocorreu em Paris. Elizandra foi escolhida entre mulheres de 44 países. “Foi uma confirmação de que estamos no caminho certo”, constatou.

 


Escrito por Florência Costa

Jornalista freelancer, especializada em cobertura internacional e política, foi correspondente na Rússia pelo Jornal do Brasil e serviço brasileiro da rádio BBC. Em 2006 mudou-se para a Índia para ser correspondente do jornal O Globo É autora do livro “Os Indianos”.

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