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A vitória do multiculturalismo

Com 40% de moradores estrangeiros, Londres elege o seu primeiro prefeito muçulmano


O novo prefeito de Londres, Sadiq Khan, comprimenta eleitores na rua da cidade
O novo prefeito de Londres, Sadiq Khan, comprimenta eleitores na rua da cidade

“Meu nome é Sadiq Khan e eu sou o prefeito de Londres”. Foi assim, um pouco como se estivesse tentando convencer a si próprio de que a frase era verdadeira, que o homem recém-eleito para a prefeitura da maior cidade da Europa ocidental se apresentou neste último fim de semana, depois da confirmação oficial das urnas. No discurso de posse na Catedral de Southwark, Khan – filho de imigrantes paquistaneses e o primeiro muçulmano a administrar Londres – admitiu:

Que tipo de mensagem enviaremos se os londrinos tiverem a confiança, a tolerância e o respeito para votar em alguém de uma fé diferente da maioria deles? Sou antes de qualquer coisa e acima de tudo, um londrino. Mostraríamos aos inimigos no Iraque e na Síria que tipo de país somos: um marco de esperança.

Sadiq Khan

– Eu quase não consigo acreditar nas últimas 24 horas – disse ele, ao lado de líderes cristãos e judeus, num local escolhido a dedo para passar a mensagem de que sua religião não fará diferença nos próximos quatro anos.

Mas não há como negar que a fé, a origem e a classe social do novo prefeito se transformaram no ponto central de uma campanha marcada por ataques pessoais vindos dos adversários do trabalhista Khan: o Partido Conservador e seu candidato a prefeito, Zac Goldsmith. Os conservadores fizeram, de acordo com vários analistas, uma campanha vergonhosa. Embora seja um muçulmano liberal, que, como parlamentar, votou a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, Khan foi acusado por Goldsmith e pelo primeiro-ministro David Cameron de ser aliado de radicais islâmicos. Além disso, minorias étnicas, como eleitores de origem indiana, receberam panfletos alertando que, se fosse eleito, Khan criaria um imposto sobre “joias de família”. A propaganda conservadora também lembrava que Khan não havia participado de uma homenagem em Londres ao primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e por isso era “um perigo”.

A tática – interpretada como uma tentativa de causar divisões étnicas – foi um tiro no pé. Muitos dos cidadãos que receberam o material se sentiram alvo de uma campanha preconceituosa. Khan acabou ganhando com 14 pontos de vantagem sobre Goldsmith (59% contra 45%), confirmando também a vitória do multiculturalismo que predomina nas ruas de Londres, onde 40% dos moradores não nasceram no Reino Unido. Num momento em que a Europa enfrenta o aumento da islamofobia, após os ataques terroristas em Paris e Bruxelas, e a extrema-direita reforça sua campanha de ódio aos imigrantes, a eleição de Khan foi um recado de que Londres é hoje uma cidade de muitas caras e raças. E essa diversidade é a sua melhor parte. Ela é visível em quase todas as esquinas de uma capital que não é perfeita, mas é mais tolerante que a maioria.

– Que tipo de mensagem enviaremos se os londrinos tiverem a confiança, a tolerância e o respeito para votar em alguém de uma fé diferente da maioria deles? Sou antes de qualquer coisa e acima de tudo, um londrino. Mostraríamos aos inimigos no Iraque e na Síria que tipo de país somos: um marco de esperança – disse Khan em entrevista ao “Guardian”, dias antes de sua vitória, dirigindo-se a radicais islâmicos que pregam a destruição dos valores ocidentais.

Khan é tão britânico quanto Goldsmith. Nasceu em Londres, filho de um motorista de ônibus e uma costureira. Ele e os sete irmãos cresceram em Tooting, um subúrbio ao Sul da cidade onde o novo prefeito ainda mora. Estudaram em escola pública e moraram em habitação municipal, pertencente ao Estado. Entre aulas de boxe e algumas brigas para enfrentar ofensas raciais, principalmente contra seu pai (na Londres de algum tempo atrás nem todo mundo ficava feliz em ver um estrangeiro conduzindo um ônibus), Khan se formou em direito. Lutou por direitos humanos e em 2005 foi eleito para o Parlamento (hoje há 13 muçulmanos entre 650 parlamentares). Para ilustrar como Londres vem mudando, o político diz que suas duas filhas adolescentes, criadas no mesmo bairro que ele, já não enfrentam o preconceito.

A diferença em relação à trajetória de Goldsmith não tem como não chamar a atenção. O rival derrotado por Khan é filho de um empresário milionário, estudou em Eton – escola famosa por receber filhos da realeza – e em Cambridge, a mais nobre das instituições de ensino britânica. Ele foi editor de uma revista ecológica que pertence ao tio. Mas suas credenciais de ambientalista acabaram abafadas por uma campanha agressiva contra o adversário, algo bem mais comum nas batalhas eleitorais americanas do que nas britânicas.

No campo das políticas públicas, os dois candidatos prometeram focar no que é considerado hoje o principal problema no dia a dia dos moradores da capital: uma crise habitacional sem precendentes. Londres é, cada vez mais, uma cidade para poucos. O preço dos imóveis empurra toda uma geração para uma vida sem perspectiva de casa própria. É a chamada “geração aluguel”. Uma das grandes críticas feitas ao prefeito conservador Boris Johnson, que administrou Londres nos últimos oito anos, é sua disposição para permitir principalmente construções voltadas para o mercado de luxo. Khan prometeu um aumento de 50% na construção de moradias com preços acessíveis. Especialistas se mostram céticos e acham que, diante do valor dos terrenos em Londres, ele só conseguirá cumprir a meta se gastar dinheiro público construindo condomínios municipais.

Mas antes disso o novo prefeito talvez possa mostrar sua força como estrela em ascensão no Partido Trabalhista, que também enfrenta, por sua vez, uma série de problemas graves, entre eles acusações de antissemitismo. No dia 23 de junho, os britânicos decidirão num plebiscito se o Reino Unido deve permanecer na União Europeia. Será a decisão mais importante em décadas. Khan é a favor da permanência, assim como Cameron. Johnson é uma das principais vozes da campanha pela saída da UE – conhecida como Brexit, a junção de Britain com exit (saída). Goldsmith, um eurocético, também defendeu a ruptura com o bloco europeu. A imigração é um dos fatores principais dessa disputa, já que os eurocéticos apoiam um maior controle sobre a entrada de imigrantes no Reino Unido. Ainda é cedo para dizer se Khan terá autoridade para influenciar um debate tão crucial para o futuro da Europa. Mas vai ser emocionante acompanhar essa história.


Escrito por Claudia Sarmento

Claudia Sarmento

Trabalhou por mais de 20 anos no jornal O Globo, mas não gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar. Foi editora de Mundo e da Revista da TV, gerente de produtos, e, mais recentemente, correspondente no Japão. Há um ano trocou Tóquio por Londres, onde acaba de completar um mestrado em Cultura Digital pelo King's College.

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