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Religiosos com fé na diversidade

Padres e pastores defendem igrejas inclusivas e lutam pelo fim do preconceito contra LGBTs e moradores de rua


Padre anglicano Luiz Coelho: defesa da peça em que Jesus é interpretado por uma homossexual. Foto: Acervo pessoal
Padre Luiz Coelho (ao centro), da igreja anglicana: “Precisamos dar nome a esse demônio que se chama privilégio”. Foto: Acervo pessoal

Se o mundo fosse mais racionalmente — e espiritualmente — equilibrado, dizer que existem religiosos tolerantes seria algo completamente redundante. Porém, como muitos casos de exclusão e violência acontecem justamente por causa de grupos que usam  sua religião como bode expiatório de seus preconceitos, não é nenhuma surpresa se passarmos a prestar mais atenção aos discursos dos líderes religiosos  que se destacam por serem mais inclusivos. Amigo da atriz transexual Renata Carvalho, que interpreta Jesus na peça “O evangelho segundo Jesus, rainha do céu”, o padre anglicano Luiz Coelho, de 36 anos, é da Tijuca e nasceu dentro de um lar batista. Quando adolescente, ele se desencantou com o fundamentalismo existente em sua igreja e, desencanado da “realidade opressora” que testemunhou, deixou de frequentar qualquer igreja. Aos 16 anos, se reconciliou com o mundo da fé, entrando para a igreja anglicana.

“Quando eu era criança, a igreja anglicana não era tão progressista assim. Isso vem de 30, 40 anos pra cá. No Brasil, ela passou a abraçar certas causas que eu acho muito importantes e que estão na raiz do evangelho, buscando entender a mensagem de Cristo em sua essência, ou seja, como ele mesmo pregou, e também enxergar essa mensagem contextualizada aos nossos dias”.

Precisamos dar nome a esse demônio que se chama privilégio. E saber que racismo, homofobia, transfobia e preconceito de classe foram endossados e justificados por nossa própria religião

Luiz Coelho
Padre da igreja anglicana

Para Luiz, o maior desafio da cristandade é ser fiel à mensagem de Cristo e, ao mesmo tempo, ter uma visão crítica do cristianismo e dos privilégios que ele adquiriu, ao longo do tempo, como fé dominante. Assim, seria possível promover uma reparação histórica. Censurada pelo prefeito Marcelo Crivella, a peça de sua amiga, por exemplo, já foi apresentada em 12 igrejas anglicanas do país. “Precisamos dar nome a esse demônio que se chama privilégio. E saber que racismo, homofobia, transfobia e preconceito de classe foram endossados e justificados por nossa própria religião. Precisamos ser fiéis a esse cristianismo periférico, o que anda pelas margens”.

Dentro da história dos evangélicos temos movimentos progressistas, inclusivos, de diálogo ecumênico e interreligioso, e é injusto associá-los ao preconceito e ao fundamentalismo

Henrique Vieira
Pastor da Igreja Batista do Caminho

Evangélico, teólogo e vereador de Niterói, o pastor Henrique Vieira, da Igreja Batista do Caminho, também nasceu em uma família evangélica batista tradicional e foi em sua adolescência que a vocação pastoral começou a crescer. Formado em História e Teologia, ele foi percebendo como a igreja, como um todo, tinha uma atuação muito distante do diálogo com outras fés e religiões. Notava, em uma parcela do que chama de “igreja de origem”, uma falta de disposição para encarar as pautas inclusivas como algo importante. Um dos motivos seria a própria diversidade desse universo que não é só Universal. “O mundo evangélico é muito diverso, aí tudo fica muito intuitivo. Essa tentativa de generalizá-lo também tem uma margem de preconceito. Dentro da história dos evangélicos temos movimentos progressistas, inclusivos, de diálogo ecumênico e interreligioso. É injusto associá-la ao preconceito e ao fundamentalismo”.

A trans Renata Carvalho intepreta Jesus: peça censurada por Crivella foi apresentada em igrejas anglicanas. Foto: Reprodução/Facebook
A trans Renata Carvalho interpreta Jesus: peça censurada por Crivella foi apresentada em igrejas anglicanas. Foto: Reprodução/Facebook

O espectro católico do cristianismo também sofre com reducionismos e com ataques oriundos de quem, como diz o ditado, se acha “mais católico que o Papa”. Como coordenador da Pastoral do Povo de Rua, em São Paulo, e pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, o padre católico Júlio Lancelotti denuncia, há 35 anos, a higienização da população em situação de rua da metrópole e também a cultura do ódio que está entranhada na história do brasileiro. Em uma de suas homilias,  no ano passado, ele criticou a homofobia, a misoginia e, diretamente, o candidato a presidente Jair Bolsonaro, por exaltar a violência.

A igreja tem que atuar como um hospital de campanha, que é aquele que recolhe os feridos de guerra, como os doentes, moradores de rua, idosos, refugiados, pobres… A cultura neoliberal, como a cultura de guerra que é, não está a serviço daqueles que considera descartáveis

Júlio Lancelotti
Coordenador da Pastoral do Povo de Rua

“Chamo as pessoas em situação de rua de refugiados urbanos, pois nenhum lugar da cidade os quer. A cultura neoliberal e seus mitos , como o do trabalho acima de tudo, só piora isso. Enquanto isso, eles são escravizados, por exemplo, para a montagem de palcos de festivais de música, como o Lollapalooza, ganhando apenas R$ 40 por 12 horas de trabalho. É um trabalho ‘quarteirizado‘, que a cidade não conhece. Esses grupos vão buscá-los diretamente nas portas dos centros de acolhida, selecionando-os pela força física, pela aparência, pelos que têm sapatos…”

Para o padre, que já sofreu com denúncias, ataques virtuais, processos e até ameaças de morte pelo seu trabalho, o maior desafio da igreja católica, hoje, é seguir justamente aquilo o que o Papa Francisco tem pregado: uma igreja que age fora da zona de conforto. “A igreja tem que atuar como um hospital de campanha, que é aquele que recolhe os feridos de guerra, como os doentes, moradores de rua, idosos, refugiados, pobres… A cultura neoliberal, como a cultura de guerra que é, não está a serviço daqueles que considera descartáveis”.

Em Juiz de Fora, uma cidade bem menor do que a maior metrópole do país, o Padre Pierre, que reúne multidões toda terça-feira em sua Missa do Impossível, na Paróquia São José, deu o seu jeito de mandar um recado inclusivo: colocou uma mulher transgênero, a Cris, como  seu braço direito na igreja.

Mas há espaço para pessoas altamente espiritualizadas, como essas, se entranharem  em assuntos tão mundanos? A teóloga Rose Costa, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, não tem dúvidas de a resposta é “sim”. Afinal, questões tidas como “do mundo” também fazem parte dos planos divinos.  “Jesus não é um cara de fronteiras ou paredes. Se a fé se inspira em Jesus, o templo é o coração do ser humano. E se você pensar em experiência religiosa, ela pode se dar em qualquer meio, porque é própria do encontro do ser humano com Deus, e Deus não tem fronteiras”.


Escrito por Gilberto Porcidonio

Gilberto Porcidonio

É repórter do jornal "O Globo" e sociólogo em formação pela PUC-Rio. Especializa-se em cultura e questões raciais. Como poeta, mantém o alter-ego Frederico Latrão e, como escritor, é um dos autores da coletânea "Larica Carioca", sobre os quitutes dos bares do Rio de Janeiro, além de manter o blog 'O Títere'.

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