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Lula nas escolas da Alemanha

A desigualdade brasileira vista através dos olhos de uma estudante alemã


A chanceler alemã, Angela Merkel, com o presidente Lula no encontro do Grupo dos Oito (G8), em 2009. Foto Michael Gottschalk/Germany Out
A chanceler alemã, Angela Merkel, com o presidente Lula no encontro do Grupo dos Oito (G8), em 2009. Foto Michael Gottschalk/Germany Out

(Colaboraram Thiago Andries e Clea Cury)

 Hanôver, Alemanha, final dos anos 90

 – Okay galera, silêncio por favor, eu acho que agora vai!

O projetor faz um barulho e começa a rodar. Finalmente conseguimos ver a imagem do prometido filme sobre “Desigualdade no mundo” na aula de geografia, obrigatória para os alunos entre 11 e 12 anos. Imagens de palmeiras, do mar e de prédios brancos e hipermodernos são projetadas na parede da sala de aula, acompanhado de uma música instrumental leve e alegre.

– Onde vocês acham que é isso? Perguntou o professor.

– Miami! Responderam alguns alunos.

– Los Angeles! Chutaram outros.

O professor não revelou o mistério e avançou com o filme. A câmara acompanha uma jovem garota saindo de um carro preto de luxo, se despedindo do motorista uniformizado e entrando numa mansão. Lá dentro, uma festa está acontecendo a pleno vapor: jovens mulheres dançando, todas com vestidos e penteados elegantes. Depois da dança, um bolo é trazido para o jardim: é uma festa de aniversário.

Ainda sem pista sobre o misterioso lugar retratado em sala de aula avançamos para a próxima cena, também ao ar livre, como se fosse uma continuação do capítulo anterior. Mas, dessa vez, não vemos um jardim bem cuidado, plantas exóticas, piscinas e mulheres jovens se maquiando. A câmera mostra uma rua sem asfalto, lixo empilhado, um rio poluído, casas tortas e improvisadas, sem janelas e acabamento. E no meio disso, crianças jogando bola, descalças, cantando e celebrando, também um aniversário, porém sem bolo.

– Alguma ideia? Em que lugar do mundo vocês podem encontrar essas duas realidades a uma distância de 5 quilômetros? Perguntou o professor.

Eu tive uma ideia.

– No Rio de Janeiro, disse.

– Muito bem. No Brasil, as pessoas ricas têm muito mais do que nós aqui e a grande massa de pobres vive no seu limite existencial.

– Mas por que o Estado não faz nada para ajudar os pobres? Perguntou algum aluno com sua ingenuidade alemã certamente refrescante.

– Porque os pobres não são representados no Estado, respondeu o professor.

Esse professor estava longe de ser um revolucionário, denunciando o fracasso do capitalismo. Era uma aula comum de Geografia, em concordância com os planos estatais de educação. Era assim que o Brasil aparecia aos olhos do mundo. Um exemplo de fracasso de políticas públicas. Um país que dá as costas a sua população pobre.

Lula, Merkel e Obama, na reunião do G20, em Seul, em 2010. Foto Yonhap Mídia Pool
Lula, Merkel e Obama, na reunião do G20, em Seul, em 2010. Foto Yonhap Mídia Pool

Tübingen, Alemanha, 2010

 – E essa foi a grande vantagem do Programa Bolsa Família. O Estado brasileiro não precisou gastar nem 1% do seu PIB, mas alcançou 25% da população. No total, o Bolsa Família tirou 36 milhões de pessoas da pobreza e praticamente erradicou a pobreza extrema no Brasil.

A jovem professora desliga o data-show por um momento e se dirige aos aproximadamente 200 estudantes que estão no auditório da nobre Universidade de Tübingen para assistir à aula de Economia e Desenvolvimento. Depois de uma apresentação sobre o Capability Approach, do economista e ganhador do Nobel Amartya Sen, a segunda parte da aula é sobre a história de sucesso do Brasil no combate à pobreza, nitidamente ligada ao nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que a professora passa a abreviar pragmaticamente com “Lula” depois de algumas tentativas fracassadas de pronunciar o nome completo. Não foram muitos os acadêmicos e teóricos brasileiros que chegaram a ser estudados na Alemanha. Quem teria pensado que, justamente, um líder metalúrgico sem diploma universitário conseguiria romper com essa realidade.

A verdade é que, na Alemanha, a origem pobre do ex-presidente nunca foi vista como desvantagem, mas como expressão de uma ruptura com a tradição de políticos oriundos das elites brasileiras que pouco se preocuparam com a pobreza cada vez mais aguda no seu país. Oriundos de um país com uma forte tradição sindical, os setores próximos à social-democracia e esquerda alemã sempre olharam com carinho para o ex-líder metalúrgico e enxergaram nele o pulsar de uma nova promessa política para o Brasil, capaz de se opor à velha ordem. Ainda em plena didatura militar, Lula recebeu uma visita ilustre do então chanceler alemão Helmut Schmidt (SPD), que contrariou a vontade de então presidente, o general João Figueiredo, para encontrar o líder sindical. Além de outros ídolos da social-democracia alemã como Willy Brandt ou Gerhard Schröder, também a atual chanceler, Angela Merkel, do partido democrata-cristão (CDU) sempre cultivou ótimas relações com Lula.

Mas interpretar o sucesso de Lula na Alemanha apenas no contexto da sua proximidade com o projeto social-democrata alemão seria subestimar seu papel como líder político mundial. Os políticos alemães não precisavam falar ou entender português para compreender a força que Lula incorporava assim que pegava  num microfone. Lula é a expressão máxima do que Max Weber denominou como “político carismático”. Um líder capaz de inspirar as massas e quebrar com a ordem, capaz de introduzir novidade e magia num mundo racionalizado e burocratizado. Na geração de Lula, o mundo viu apenas outro político desse tipo: Barack Obama. Não é à toa que ele descreveu Lula como “maior líder do mundo”.

Foi durante o governo Lula que o Brasil conseguiu se libertar da fama internacional de campeão na desigualdade social e passou a ser visto como referência mundial no combate à pobreza. Do modelo fracassado de política social, servindo como exemplo vergonhoso de um Estado falido nas escolas alemãs, o governo Lula fez do Brasil uma referência no combate à pobreza. À narrativa do Brasil como país desigual, corrupto, injusto e violento somou-se uma história: o Brasil como um país que assume responsabilidade. Responsabilidade pelos seus próprios problemas e sua população negligenciada. E responsabilidade também no seu contexto regional e extra regional: o Brasil se cristalizou como uma liderança do Sul Global. E a Europa o enxergou como um parceiro e não como tutela no seu engajamento para o desenvolvimento.

A rainha Elizabeth II ladeada pelo Primeiro-ministro inglês Gordon Brown e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no encerramento do G20, em 2009. Foto Krsty Wigglesworth/WPA Pool
A rainha Elizabeth II ladeada pelo Primeiro-ministro inglês Gordon Brown e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no encerramento do G20, em 2009. Foto Krsty Wigglesworth/WPA Pool

Esta mudança de paradigma ficou visível no âmbito da cooperação internacional. No ano 2008, por exemplo, Lula criou via decreto o Fundo Amazônia, o maior fundo para combate ao desmatamento e conservação do clima do mundo. Trabalhando como consultora da Cooperação Técnica Alemã (GIZ) nesse fundo, pude observar de perto como esse fundo introduziu um novo modelo de cooperação norte-sul. Apesar do patrimônio oriundo de doações da Noruega e da Alemanha (com algumas exceções nos primeiros anos, quando o fundo recebia ainda alguns recursos da Petrobrás), a governança do fundo está 100% em mãos brasileiras. Nenhum dos países doadores participa dos seus processos da gestão, sendo que estes papeis são repartidos entre órgãos brasileiros, como o BNDES e o Ministério de Meio Ambiente. Essa inovação na cooperação internacional não apenas mostra o peso diplomático que o Brasil ganhou sob o governo Lula, mas também a confiança que os países doadores depositaram nas instituições brasileiras. Confiança essa que, infelizmente, foi abalada no governo Temer. Devido ao crescimento contínuo da taxa de desmatamento no Brasil, o doador principal, a Noruega, teve que recorrer ao seu único recurso para expressar sua preocupação com os novos rumos da política ambiental brasileira: cortar suas contribuições pela metade.

De uma perspectiva estrangeira, é difícil compreender como uma parcela significativa da população brasileira parece não reconhecer os imensos avanços trilhados no combate à pobreza, na melhora da saúde, educação, políticas ambientais e relações internacionais.

Rua do Catete, Rio de Janeiro, início de 2018

São quinze para as dez e já tem uma fila imensa em frente ao mercado. Assim que o estabelecimento fechar e os funcionários saírem com o lixo, as pessoas vão começar a disputar os sacos pretos de plástico. Não são moradores comuns de rua. São os primeiros miséraveis urbanos da crise econômica e política. Pessoas que há dois anos ainda tinham trabalho. No caminho para a casa, me pergunto se aquele filme a que assistimos sobre desigualde no Brasil, há quase 30 anos, ainda existe ou se a próxima geração de alunos na Alemanha vai assistir a pobreza no Brasil via stream.


Escrito por Kristina Hinz

Kristina Hinz

É alemã, radicada no Brasil desde 2010. Formada em Economia e Geografia pela Universidade de Tübingen, com mestrado em Relações Internacionais pela PUC-Rio, Kristina se especializou em teorias de violência e teoria política feminista. Ela traduziu importantes autoras da área para o português, como Hannah Arendt e Andrea Maihofer. É pesquisadora do Núcleo de Estudos de Desigualdades e Relações de Gênero (NUDERG) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Na Uerj, também atua como coordenadora e professora do curso de extensão Teorias Feministas Contemporâneas.

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