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Um mundo a caminho da falta d’água

Relatório da ONU alerta que, em 20 anos, crise hídrica pode atingir Ásia, Oriente Médio, África e até Espanha e Reino Unido


Menina carrega dois galões de água na região de Abobo, em Abidjan, na Costa do Marfim. Os países da África estão entre os que mais sofrem com a escassez de água. Foto Issouf Sanogo/AFP
Menina carrega dois galões de água na região de Abobo, em Abidjan, na Costa do Marfim. Os países da África estão entre os que mais sofrem com a escassez de água. Foto Issouf Sanogo/AFP

Ainda resta muito a se fazer para que haja no mundo o mínimo de justiça com respeito à distribuição da água. Mesmo nos países do G7, a disparidade no consumo em relação aos países pobres é gritante. Nos Estados Unidos, o consumo per capita é de 7.800 litros por dia, enquanto que, no Reino Unido, é de 3.400. E, mesmo nos EUA, há 130 milhões de pessoas vivendo em condição de escassez por pelo menos um período do ano – o número sobe para 1 bilhão na Índia, 900 milhões na China e 130 milhões em Bangladesh.

A mudança do clima é talvez a maior ameaça ao suprimento global de água, por ser composta de muitas ameaças diferentes. Enquanto as emissões de gases estufa fazem com que aumentem as temperaturas do mundo, suas regiões mais quentes se tornam cada vez mais secas

O uso da água vem crescendo 1% por ano desde os anos 1980, por uma mistura de crescimento populacional, desenvolvimento socioeconômico e mudanças nos padrões de consumo. A demanda global deve crescer em taxas semelhantes até 2050, o que significa um aumento de 20% a 30% acima do nível atual, resultado principalmente do consumo crescente nos setores industrial e agrícola, além do uso doméstico.  O estresse no fornecimento continuará aumentando enquanto a demanda cresce, e os efeitos da mudança do clima se intensificam. Hoje, utilizamos seis vezes mais água que há cem anos.

O relatório global da ONU sobre a água, apropriadamente chamado de Ninguém deixa ninguém para trás, foi lançado no dia 19 de março durante uma sessão de seu Conselho de Direitos Humanos – por ser justamente do que trata, uma questão de direitos. A existência de água segura para o consumo humano e acesso ao saneamento básico são direitos básicos, porque indispensáveis ao sustento de vidas saudáveis e fundamental para a manutenção da dignidade de toda a espécie humana. A lei internacional obriga os estados a trabalhar pelo acesso, sem discriminação, e com prioridade àqueles com mais necessidade.

Jovem carrega um balde de água na cabeça, na região central do Sudão. Foto Roberto Schmidt/AFP
Jovem carrega um balde de água na cabeça, na região central do Sudão. Foto Roberto Schmidt/AFP

Se um balde contivesse toda a água do mundo, apenas uma colher de chá seria de água doce, e apenas esta colher estaria disponível através de lagos, rios e reservatórios subterrâneos. Em teoria, o suficiente para todas as necessidades básicas das pessoas em todo o planeta. Mas o acesso depende de quem forem estas pessoas e onde vivam.

Cerca de 60% da população mundial vivem na Ásia e no Oriente Médio. No entanto, a área recebe pouco mais de um terço da água, seja por chuvas ou derretimento de neve. Já a América do Sul, com apenas 6% da população, possui um quarto dos recursos mundiais. Mesmo dentro destes países as disparidades são grandes de região para região, e a mudança do clima e a urbanização estão amplificando as diferenças.

A mudança do clima é talvez a maior ameaça ao suprimento global de água, por ser composta de muitas ameaças diferentes. Enquanto as emissões de gases estufa fazem com que aumentem as temperaturas do mundo, suas regiões mais quentes se tornam cada vez mais secas. Um fenômeno, conhecido como Célula de Hadley, faz com que o aquecimento global diminua a diferença de temperatura entre os polos e o equador, com mudanças nas correntes de vento. Isto significa que nuvens se afastam do equador e vão em direção aos polos, deixando secas áreas da África Subsaariana, Oriente Médio e América Central.

O World Resources Institute (WRI) estima que até 2030 o número de pessoas expostas a enchentes devido à mudança do clima e ao desenvolvimento socioeconômico mais que dobrará, chegando a 54 milhões. Em anos recentes elas devastaram partes da Índia e Bangladesh. Um evento recente é a tragédia após a passagem de um ciclone por Moçambique.

O atraso na construção de infraestrutura adequada é outro problema, embora não tão óbvio. A água tem de ser transportada em vastas redes de canos e passar por estações de tratamento, e isto exige altos investimentos, vontade política e criação de políticas públicas de consumo. Não é um problema único das nações ricas. Na mesma semana da divulgação do relatório da ONU, o chefe da agência ambiental britânica, Sir James Bevan, anunciou que a Inglaterra pode sofrer escassez de água em 25 anos. O país perde cerca de três bilhões de litros de água por por ano como consequência de vazamentos nos canos.

Cerca de um terço da água doce do planeta vem de aquíferos subterrâneos, que são vitais para o funcionamento da agricultura e da indústria. A menos que se adotem medidas urgentes, cerca de 60% dos aquíferos da Índia estarão com níveis perigosamente baixos em apenas 20 anos.

Os países pobres têm grande dependência do setor agrícola, com suas exportações de produtos como café ou algodão. Mas esta produção depende de grandes quantidades de água – a chamada água virtual, 22% da que é utilizada globalmente – e que é exportada junto com as safras. Vá pegar um cafezinho enquanto lê este texto, e pense que cada xícara gasta em sua produção mil vezes mais água. Pense em um cheeseburger para um lanche – para cada 110 gramas, são usados 1.750 litros.

Até 2040, prevê-se que 33 países estarão em um estresse de água muito alto, incluindo 15 no Oriente Médio, a maioria do norte da África, Paquistão, Turquia, Afeganistão e Espanha. A situação será um pouco melhor na Índia, China, sul da África, Estados Unidos e Austrália.


Escrito por José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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