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O espetáculo do Seu Antônio

Uma aula de civilidade na apertada garagem do prédio

Todo o condomínio que se preza tem as suas vagas complicadas de garagem. Foto PLANCHARD Eric /Hemis
Todo o condomínio que se preza tem as suas vagas complicadas de garagem. Foto PLANCHARD Eric /Hemis

Cinco minutos. Quinze. Sete. O aplicativo não consegue decidir o tempo de espera. Mais uma vez, o Uber está no modo aleatório e não tenho nem ideia da hora em que ele vai chegar. Que se dane, vou para a rua, lá eu me viro.

Quando passo pela garagem, o porteiro, Seu Antônio, me mostra a cena: o novo vizinho está tentando estacionar seu carro na vaga. Sim, é a vaga. Como em quase todas as garagens, existe uma vaga que todos detestam, a mais difícil de estacionar, a que fica por último. É nessa que o sujeito está tentando entrar com seu automóvel gigante que mais parece o quinto carro alegórico da Beija-Flor no desfile de 82.

O recém-chegado é mais um membro da seita dos mal-educados, religião que cresce mais que evangélicos e reacionários. Um daqueles marrentos que você chama de playboy e ele acha que é elogio

Mas além do mau gosto ele tem outro problema.

O recém-chegado é mais um membro da seita dos mal-educados, religião que cresce mais que evangélicos e reacionários. Um daqueles marrentos que você chama de playboy e ele acha que é elogio.

Não dá “bom dia” para ninguém, passa pela portaria como Luis XV percorrendo as cavalariças de Versalhes e, é claro, trata os porteiros como hologramas decorativos.

Ao menos até hoje, quando lhe sobrou a vaga.

É a hora da vingança e Seu Antônio sabe disso.

Cancelo o Uber. Que se dane. Nada supera o espetáculo que está por vir.

Toda vaga difícil tem uma manha e o guardião das manhas é o porteiro, que as transmite aos moradores, ao menos aos que dão “bom dia”. Receber as dicas da vaga mais difícil equivale a ser aceito numa irmandade de anciãos. Não é para qualquer um, muito menos para um playboy malcriado.

O neo morador vai e vem, vai e vem. Não consegue sair, não consegue entrar. Não tem diploma, PhD ou MBA que dê jeito nisso. Depois de semanas entrando e saindo da portaria sem cumprimentar ninguém, não tem coragem de pedir ajuda à única pessoa que poderia salvá-lo nesse momento difícil: Seu Antônio, que, por sua vez,  saboreia o desastre. Me junto a ele. Mirinho, o zelador, que já estava indo pegar o ônibus para casa, se agrega, assim como o Gastão e a Soraya, do 202.

Temos agora a união entre a pequena burguesia e o proletariado. Todos por um fim maior, que no caso é deixar sem graça o mal-educado.

Ao perceber a plateia, ele fica ainda mais irritado. E quanto maior a irritação do motorista, menor fica a vaga. Os espectadores sabem muito bem disso. Zé Carlos, porteiro do prédio ao lado, se junta ao time. A equipe está tão bem ajustada no seu propósito que basta um sinal do Mirinho para que todos se coloquem na posição certa, para que o playboy não veja que um outro carro está saindo e liberando uma vaga normal.

O show não pode parar.

Após meia hora, finalmente, ele desiste. Sai do carro e humildemente pede ajuda. Seu Antônio, magnânimo, assume a direção e em quinze segundos estaciona o carro. O playboy passa por nós cabisbaixo, murmurando um compungido “bom dia”.

Zé Carlos volta ao prédio do lado, Gastão e Soraya pegam o elevador. Vou conversando com o Mirinho para o ponto de ônibus.

Que se dane.

Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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