Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Ricardo III e ‘Game of Thrones’

Crime não solucionado de mais de 500 anos aumenta fascínio sobre a série e rei inglês

O rei Ricardo III
Rei Ricardo III e a série “Game of Thrones”

Está em curso mais uma temporada da universalmente aclamada série “Game of Thrones”, inspirada nos livros de George R. R. Martin. Baseada em parte nos eventos da Guerra das Rosas, na Inglaterra do século XV, a obra pode ser resumida por uma de suas citações mais célebres: “Quando se joga o jogo dos tronos, você ganha ou morre. Não há meio-termo”, diz a terrível rainha Cersei Lannister a lorde Eddard Stark no primeiro volume.

Tal frase poderia ser aplicada à perfeição ao soberano inglês mais famoso da Guerra das Rosas: Ricardo III. Num primeiro momento, ele ganhou, só para morrer de modo violento um pouco mais para a frente. Sua trajetória foi meteórica: reinou por apenas dois anos, no final do conflito entre as casas de Lancaster (da rosa vermelha) e York (da rosa branca, à qual Ricardo pertencia). Mas foi imortalizado como um dos maiores vilões da história na peça de Shakespare que protagonizou como personagem, e a curiosidade sobre o rei aumentou ainda mais nos últimos anos, quando seus restos mortais foram encontrados em Leicester e ele foi reenterrado com toda a pompa.

Os príncipes na Torre: Eduardo V e o duque de York - domínio público (Royal Holloway Collection)
Eduardo V e o duque de York

No cerne do fascínio exercido por Ricardo está um crime de mais de 530 anos, jamais resolvido: a morte do rei Eduardo V, nunca coroado, e de seu irmão, o duque de York. Ambos não passavam de crianças ao morrerem: Eduardo tinha 12 anos e o irmão, 9. Na verdade, não se pode nem dizer “morte” ao certo no caso, pois ambos os príncipes simplesmente desapareceram da Torre Sangrenta (Bloody Tower), dentro do complexo de construções da Torre de Londres, em julho de 1483, para nunca mais serem vistos.

Hoje, quando entramos na Torre Sangrenta, vemos um placar onde se pode votar em quem teria sido o assassino mais provável dos meninos: o próprio Ricardo III, seu tio, ou Henrique VII, que ocupou o trono inglês após derrotar Ricardo na batalha de Bosworth Field, em 1485. Mas há outros suspeitos na história.

Antes, porém, de listá-los, é preciso um pouco de contexto sobre o desenrolar dos fatos antes do crime. Em abril daquele 1483, morreu o rei Eduardo IV, irmão mais velho de Ricardo. O rei designou o irmão como lorde protetor do reino, a quem caberia proteger seu herdeiro Eduardo V e o jovem duque de York. Porém, Ricardo não estava presente, já que cuidava de seus domínios no norte. Aproveitando-se disso, a rainha viúva, Elizabeth Woodville, e seus parentes planejaram tomar conta dos meninos (e, consequentemente, do poder) eles mesmos. Avisado por lordes aliados, entre eles o duque de Buckingham, Ricardo agiu rápido e tomou posse do sobrinho real antes que ele chegasse a Londres. Depois, obteve a guarda do jovem York, e levou ambos para aposentos na Torre. Um protocolo normal pré-coroação, vale lembrar.

Ricardo, sentindo que havia uma conspiração no entorno da rainha para lhe tirar o papel de lorde protetor, reuniu aliados e debelou a trama, prendendo alguns dos supostos envolvidos e executando lorde William Hastings, um dos mais importantes do reino, acusando-o de traição e de planejar seu assassinato.

Até então, a coroação de Eduardo V permanecia marcada para o fim de junho de 1483. Mas, em outra reviravolta, Ricardo recebeu de um bispo a informação de que o casamento do falecido rei com a rainha Elizabeth era inválido, uma vez que ele já era casado antes com uma certa lady Eleanor Butler. Assim, o jovem herdeiro e seu irmão seriam filhos bastardos, e Eduardo não poderia ser coroado. Com base nessa revelação, divulgada num sermão público, Richard recebeu uma petição dos cidadãos de Londres para assumir o poder como rei legítimo. Foi o que ele fez, em julho. Logo depois, os príncipes desapareceram para sempre. Rumores sobre o assassinato de ambos começaram a circular.

E aí chegamos à pergunta não respondida até hoje: quem matou os príncipes na Torre? O principal suspeito é, naturalmente, o próprio Ricardo, pois vivos eles sempre representariam um obstáculo à legitimidade de seu reinado – historiadores suspeitam que a revelação do bispo sobre o casamento anterior do finado rei não passou de um pretexto para Ricardo usurpar o trono. E a historiadora britânica Alison Weir, em seu livro “The Princes in the Tower”, afirma que só Ricardo III teria autoridade suficiente para dar a ordem de matar os sobrinhos.

Mas há controvérsias. O duque de Buckingham, aliado de primeira hora de Ricardo, rebelou-se contra ele ainda em 1483 e passou a apoiar Henrique Tudor, da casa de Lancaster e com pretensões ao trono. Ricardo sufocou a rebelião e mandou executar sumariamente Buckingham por traição: este, antes da execução, arrependeu-se, esperneou e implorou desesperadamente para falar com o rei, mas de nada adiantou. O historiador americano Paul Murray Kendall acredita que o desentendimento entre Ricardo e Buckingham e a posterior virada de casaca deste se devem à decisão do duque (dono de grande poder após a ascensão do novo rei) de mandar matar os meninos sem conhecimento do monarca. O que teria levado à execução sem clemência.

Outros suspeitos de envolvimento no crime são o próprio Henrique Tudor, que se tornaria Henrique VII e também veria nos filhos de Eduardo IV um empecilho para sua tomada do trono; e a mãe de Henrique, Margaret Beaufort, pelos mesmos motivos dinásticos.

Se é difícil elucidar um crime após alguns anos, imagine após cinco séculos. A balança pesa em favor da culpa de Ricardo, certamente, e a imagem que Shakespeare criou dele não ajuda: um vilão corcunda, deformado, com um temperamento vingativo e rancoroso, impiedoso e cruel com os que considera seus inimigos. Mas é preciso lembrar que Shakespeare criou este Ricardo monstruoso para apresentação durante o reinado de Elizabeth I, neta de Henrique Tudor. Os descendentes Tudor sempre classificaram Ricardo III como um rei malévolo, derrotado em nome da justiça pelo fundador de sua dinastia. Tanto é assim que Thomas More, um dos principais conselheiros de Henrique VIII, filho de Tudor, deixou um texto descrevendo a confissão da morte dos jovens por um certo sir James Tyrrell, a mando de um desprezível Ricardo.

O problema é que a personalidade de Ricardo III não combina absolutamente com a de um assassino sedento de poder. A vida inteira foi leal ao irmão e desempenhou seus deveres como lorde governante no norte da Inglaterra com louvor. Lutou em batalhas com ele e o apoiou sempre em todos os aspectos. Mesmo sua suposta aparência como corcunda pode ser um mito shakespeariano — ele sofria de forte escoliose, mas especialistas apontam que poderia tê-la disfarçado. E não é pouca coisa o irmão tê-lo nomeado protetor do reino ao morrer. Por outro lado, é evidente seu antagonismo à rainha e seus parentes.

O fato é que, após o desaparecimento dos príncipes, Ricardo enfrentou o descontentamento dos lordes, que passaram a apoiar as pretensões de Henrique Tudor ao trono. Este invadiu a Inglaterra e, em agosto de 1485, enfrentou Ricardo na batalha de Bosworth Field. Henrique não lutou, apenas assistiu à batalha. Ricardo participou da refrega e, ao perceber que fora traído por lordes aliados, lançou-se furiosamente contra o pavilhão onde estava seu adversário. Foi interceptado no meio do caminho, derrubado do cavalo e morto com inúmeros golpes. Tinha 32 anos e foi enterrado em local não marcado. Seu esqueleto foi encontrado em setembro de 2012, sob um estacionamento construído no lugar de uma antiga igreja.

Ricardo III foi o último rei inglês a participar de batalhas, e, culpado ou não, jogou o jogo dos tronos sem hesitar. Sua história permanecerá fascinante por muitos séculos ainda.

Escrito por André Machado

André Machado

Jornalista há mais de três décadas, trabalhou em locais como a Rádio Fluminense FM, o Grupo Manchete e o jornal O Globo, onde cobriu tecnologia no caderno Informática Etc e na editoria Digital & Mídia. Publicou livros sobre o tema e também de ficção ('Daniela e outras histórias", contos, Multifoco, 2012).

7 posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *