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Espírito de Natal o ano todo

Leitura ameniza o sofrimento de crianças internadas em hospital do Rio

Voluntária mostra as figuras do livro para o bebê internado. Foto Divulgação
Voluntária mostra as figuras do livro para o bebê internado. Foto Divulgação

Internada há longos dois anos num dos leitos do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Sara Raquel Azevedo Dourado, de 8 anos, que apresenta uma doença neuromuscular, parece esquecer sua rotina dolorosa e, pelo menos três vezes por semana, dá asas à imaginação e voa para bem longe do hospital. Os olhos brilham, ela ri e presta muita atenção na voz do cantador de histórias que se senta ao seu lado. O momento lúdico, pelo qual, conta a mãe da menina, Sara espera ansiosa faz parte do delicado trabalho voluntário Biblioteca Viva, instalado, há mais de uma década, nessa unidade da Fiocruz, no Flamengo, e que hoje reúne cerca de 160 integrantes.

Minha filha é atendida pelos voluntários duas ou três vezes por semana. Ela curte demais as histórias, as músicas e os joguinhos educativos. São para ela, os momentos mais legais do dia. Os momentos em que eu vejo que ela se sente totalmente desligada dessa tensão de estar num hospital

Ubiranilde Azevedo Barbosa
Dona de casa

São jovens, profissionais liberais, aposentados e quem mais chegar com a missão de doar um pouquinho do seu tempo para ajudar a amenizar, por meio da leitura, a tensão do ambiente hospitalar, principalmente para os pacientes infantis (entre recém-nascidos até 18 anos) – vítimas de doenças crônicas ou situação de gravidade – que estão internados ou em tratamento ambulatorial. Somente este ano, o grupo de voluntários contabilizou cerca de 28 mil atendimentos.

Orgulhosa, a coordenadora do trabalho de voluntariado, a pedagoga Magdalena Oliveira, conta que o acervo da Biblioteca Viva reúne mais de cinco mil livros infanto-juvenis, frutos de doações. Segundo ela, que participou da fundação do projeto, criado em 2001, inicialmente o trabalho recebia recursos da União, mas, após o primeiro ano de existência, foi cancelado. Inconformada, Magdalena partiu em busca de voluntários para continuar a missão.

O acervo da Biblioteca Viva reúne mais de cinco mil livros infanto-juvenis. Foto de Divulgação
O acervo da Biblioteca Viva reúne mais de cinco mil livros infanto-juvenis. Foto de Divulgação

– Trata-se de um importante trabalho que ajuda a amenizar o impacto de longos períodos de internação e a melhorar a autoestima do paciente – afirma a coordenadora, acrescentando que o projeto Biblioteca Viva, ao promover espaços de cultura e educação dentro do hospital, acaba tornando a estada das crianças mais humanizada.

Os voluntários atuam até nas salas de espera do hospital, onde, entre os pacientes, há crianças autistas, que reagem bem à presença dos contadores de história. Eles interagem com os pequenos pacientes usando brincadeiras e joguinhos lúdicos.

Entre essa tropa de choque do Fernandes Figueira está, há 14 anos, a jornalista carioca Patrícia Primo. Ela conta ter descoberto o grupo por meio de um anúncio publicado num jornal, em busca de mais voluntários. Resolveu, então, participar doando algumas horas livres uma vez por semana ao projeto. Foi tomando gosto pelo trabalho e passou a comparecer duas vezes por semana. Hoje, ela bate ponto na unidade hospitalar quatro dias na semana.

– Descobri como pode ser gratificante uma experiência como esta. Percebemos como isso impacta a vida da criança e dos pais. É mais do que tornar a permanência hospitalar mais leve, através da leitura recreativa. Muitas vezes, os pais, cansados da rotina extenuante, nem têm tempo para estimular essas crianças e nem têm ideia do potencial delas. Então, quando eles nos veem interagindo com os filhos e percebem como eles correspondem aos estímulos, ficam muito surpresos. É uma descoberta enorme para esses pais, que passam a repetir esses mesmos estímulos, o que se transforma numa nova relação de afeto – diz Patrícia, emocionada.

De acordo com a voluntária, o trabalho não tem regras nem roteiro. A leitura, brincadeiras e outras atividades fluem de acordo com a atenção que a criança demonstra no momento.

– Elas ditam as regras. Se estão atentas, vamos em frente. Mas, de repente, podem ficar dispersas, então, partimos para outras atividades. Tudo muito dinâmico – brinca ela.

Com mais de uma década de trabalho, o grupo de voluntários criou o Napec (Núcleo de Apoio Educacionais e Culturais do Instituto Fernandes Figueira), que cresceu e hoje mantém outras nove ações voluntárias, como apoio à alta hospitalar (ajuda às famílias na volta para casa com os pacientes), doações de leite e outros. De acordo com Magdalena, no entanto, o carro-chefe do Napec ainda é a Biblioteca Viva. Embora o foco seja o público infantil, os voluntários também atuam nas enfermarias para adultos, fazendo a leitura de contos e crônicas.

A dona de casa Ubiranilde Azevedo Barbosa, mãe da pequena Sara, se desmancha em elogios para os voluntários da Biblioteca Viva:

– Minha filha é atendida pelos voluntários duas ou três vezes por semana. Ela curte demais as histórias, as músicas e os joguinhos educativos. São para ela, os momentos mais legais do dia. Os momentos em que eu vejo que ela se sente totalmente desligada dessa tensão de estar num hospital. E eu, como mãe, valorizo muito o trabalho desses profissionais, que são pessoas maravilhosas que dedicam seu tempo, dias da semana para fazer o bem, melhorar a qualidade de vida e dar conforto às crianças. Acho esse trabalho muito importante e quero agradecer a todos os voluntários pelo que eles fazem.

De acordo com o hospital, o Biblioteca Viva funciona diariamente na sala de leitura, nas enfermarias de Doenças Infecto-Parasitárias (DIP), pediatria e cirurgia, nos ambulatórios especializados em neurologia, alergia, genética, fisioterapia respiratória, radiologia, cirurgia, pneumologia, nutrição, pediatria, UTI Neonatal, alojamento conjunto, enfermaria de gestantes, enfermaria ginecológica, UPG (Unidade de Pacientes Graves) e UI (Unidade de Intermediários).

Para participar desse trabalho, basta ter disponível duas horas e meia por semana e participar de uma reunião mensal. Mais informações no site:

www.iff.fiocruz.br/index.php/napec

Escrito por Laura Antunes

Laura Antunes

Depois de duas décadas dedicadas à cobertura da vida cotidiana do Rio de Janeiro, a jornalista Laura Antunes não esconde sua preferência pelos temas de comportamento e mobilidade urbana. Ela circula pela cidade sempre com o olhar atento em busca de curiosidades, novas tendências e personagens interessantes. Laura é formada pela UFRJ.

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Um Comentário

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  1. Fiz parte da criação desta iniciativa na Coordenação de saúde da criança do Ministério da saúde . E gradificante saber que depois de mais de uma década o projeto foi à frente mesmo sem a ajuda do governo. Projetos desta importância foram deixados de lado infelizmente pelo governo.

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