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Trabalhar faz mal à saúde

Depois do 'burn-out' e do 'bore-out', chegou a vez do 'brown-out': mais uma patologia que atinge em cheio quem vive no mundo corporativo

Um dia você "chuta o pau da barraca" e ganha uma licença médica para se acalmar. Você teve um "burn-out". Foto Berliner Verlag/Steinach
Um dia você “chuta o pau da barraca” e ganha uma licença médica para se acalmar. Você teve um “burn-out”. Foto Berliner Verlag/Steinach

Chega de reclamar da crise. Após inúmeros CVs enviados, entrevistas, ter se submetido a um ritual que foi desde dinâmicas de grupo, colorir e fazer massinha, até ter que editar um vídeo para se apresentar de forma criativa, eis que, finalmente, você consegue o que milhares tentam diariamente: você foi contratado e passa a ostentar um crachá no peito.

Entre orgulhoso e aliviado, você já começa a planejar as próximas férias, aquele jantar romântico há meses trocado por uma pizza em frente à televisão, um carro novo e até um agrado para a mãe ou para a sogra. Seus sonhos vão, enfim, se tornar realidade. Pelo menos é nisso que você acredita.

O ‘brown-out’ foi identificado por dois pesquisadores – Andre Spicer, britânico, e Mats Alvesson, sueco -, inspirados nos estudos do antropólogo americano David Graeber que, já em 2013, denunciava a proliferação dos ‘bullshit jobs’.

Tudo leva a crer que você foi um “eleito” pelos deuses, “o cara” que tirou a sorte grande, deixando para trás vários concorrentes que se digladiaram para chegar até onde você chegou. E onde você chegou? Num aquário, um escritório aberto que mais parece uma central de telemarketing do que o escritório individual com o qual você sonhava e que estaria à altura do cargo ostentado na medalha que traz no peito.

Mas você já passou por coisas bem piores. E aí, você “toca em frente”.

Rapidamente, você começa a identificar “quem é quem” na empresa: quem evitar, com quem você pode contar, quem quer te ver pelas costas, quem está de olho no seu lugar e por aí vai. Mas a figura fundamental no seu mapeamento de pessoas é ele, o chefe soberano. Afinal, é ele que te atribui objetivos mensais, com resultados que devem ser medidos num tempo determinado. Você se angustia e começa a entender melhor o significado dos cartazes espalhados pelos corredores que dizem: “o esforço é importante, mas o que conta são os resultados”. Pronto, o estresse sobe e, sem perceber no início, você começa a preparar listas do que tem para fazer, a famosa “To Do list”. Dorme com um bloquinho ao lado, para o caso de se lembrar durante a noite de algo importante a fazer na manhã seguinte, acorda às 3 horas da manhã pensando numa reunião e, finalmente,  você “aproveita” os fins de semana para preparar aquela apresentação e passa as férias “conectado”. Você se dedica a fundo, afinal, quer ser reconhecido, ser promovido e demonstrar que eles escolheram a pessoa certa para o cargo. E dá-lhe pressão.

Você sente que a empresa não confia mais em você e que seu cargo foi esvaziado. Você agora teve um "bore-out". Foto GARO / Phanie
Você sente que a empresa não confia mais em você e que seu cargo foi esvaziado. Você agora teve um “bore-out”. Foto GARO / Phanie

Seu emprego lhe garante um bom salário e você nem tem cara de reclamar dele. “Imagina, tanta gente desempregada!”. Aí, num belo dia, você “chuta o pau da barraca” e ganha uma licença médica para se acalmar e ver a vida sob um outro ângulo. Você teve um “burn-out”.

Semanas depois, você volta. Crente que estava curado. A empresa toma cuidado, tenta não te cobrar demais e você começa a ficar de fora. Fora das reuniões, fora dos emails e… o dia não passa. Dá meia-noite, mas não dá 5 da tarde. Você sente que a empresa não confia mais em você e que seu cargo foi esvaziado…. Você “chuta o pau da barraca” de novo. O diagnóstico mudou: você agora teve um “bore-out”. O sintoma: um sentimento de inutilidade por absoluta falta de ocupação.

Mas nem tudo são notícias ruins. Pelo menos para um setor: o da venda de antidepressivos e “estabilizadores de humor”. Foram 53,3 milhões de caixas desses medicamentos consumidas no Brasil entre setembro de 2014 e outubro de 2015, um aumento de 11,6%.

Mais algumas semanas de licença e lá está você de volta ao escritório. As pessoas são gentis, sorriem, mas, no fundo, você sente que elas te acham um fraco. A empresa precisa te manter ocupado e aí, você recebe tarefas que não têm nada a ver com a sua especialidade. Assim, você passa seus dias preparando apresentações “power points” para seus colegas sobre como economizar água e luz durante o expediente, ou preparando o lançamento de um produto. A cada ação, por menor que seja, você deve formular um processo, atualizar custos, fazer validar e rever versões. Um email a escrever em nome do chefe chega a ter 30 versões diferentes! De V1 a V30, dias se passaram e todo o seu talento canalizado para… nada. No final do dia, você se sente exausto, seus braços pesam, suas pernas não respondem mais aos seus comandos. Todas as suas energias foram descarregadas a serviço da inutilidade. Você é diagnosticado com o terceiro “out” da série: o “brown-out”.

O “brown-out” foi identificado por dois pesquisadores – Andre Spicer, britânico, e Mats Alvesson, sueco, inspirados nos estudos do antropólogo americano David Graeber que, já em 2013, denunciava a proliferação dos “bullshit jobs” – trabalhos de m….. O que ele gentilmente chamou de “bullshit jobs” são as funções identificadas como aquelas que não têm o menor interesse ou uma finalidade. Pode ser também uma função que te obrigue a ir contra seus princípios e valores. Atenção nesse ponto.

Ser vítima de uma dessas patologias depende de uma série de variáveis, entre elas, o contexto da empresa na qual você trabalha, que tipo de indústria, qual é o clima interno, quem é o seu chefe e, quem é o chefe do seu chefe. Contam também a sua personalidade, qual o nível de exigência que você tem com você mesmo, o grau de perfeccionismo e a determinação que você se impõe para cumprir os objetivos. Para conhecimento, as funções mais acometidas estão nas áreas da Comunicação – ai meu Pai! – Recursos Humanos, empresas de consultoria e serviços.

Segundo os pesquisadores, as empresas reconhecem esse mal causado e oferecem, como paliativo, o que eles chamam de “playing washing”. Sim, outro nome para acrescentar no dicionário. O “play washing” é a fachada de alegria e de descontração que reina em certas empresas: um jogo de totó, ou de ping-pong, jogos de vídeos à disposição ou mesmo um sofá criando um ambiente “lounge”. Com esse ambiente “familiar”, você se sente constrangido se não responder a um email de um colega de totó altas horas da madrugada ou durante o fim de semana.

Embora essas histórias sejam, no conjunto, fictícias, não é difícil se identificar com elas, sobretudo se você vive no “mundo corporativo”. Falando de crise de desemprego ou de patologias “out”, nem tudo são notícias ruins. Pelo menos para um setor que cresce: o da venda de antidepressivos e “estabilizadores de humor”. Foram 53,3 milhões de caixas desses medicamentos consumidas no Brasil entre setembro de 2014 e outubro de 2015, um aumento de 11,6%. A indústria farmacêutica agradece!

Escrito por Marlene Oliveira

Marlene Oliveira

Jornalista, com Master pelo IAG /PUC e Coppead/UFRJ, é profissional de comunicação corporativa, trabalhando para empresas globais. Vive e trabalha em Paris há nove anos.

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