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Onde o câncer mata mais

Incidência da doença é maior em nações de alta renda, mas 62% das mortes ocorrem nas menos desenvolvidas

Centro de Rinecker Proton Therapy Center em Munichi, Alemanha, é um dos que tem tratamentos de ponta para o câncer
Centro de Rinecker Proton Therapy Center na Alemanha, é um dos que tem tratamentos de ponta para o câncer

O câncer é uma epidemia global, mas quem enfrenta hoje os maiores desafios no controle da doença são países em desenvolvimento, como o Brasil. Essa é uma das mensagens centrais da campanha em torno do Dia Mundial do Câncer, realizado no último dia 4, que faz questão de desmitificar a ideia de que se trata de um problema maior para países ricos.

As taxas de incidência de câncer continuam mais expressivas em muitos países de alta renda. Há 269 casos diagnosticados por 100 mil habitantes em países mais desenvolvidos, contra 148 nas regiões menos desenvolvidas. A Dinamarca, por exemplo, está no topo, com 338 casos por 100 mil pessoas – e, além de mais diagnósticos, fatores como tabagismo e fumo, especialmente entre mulheres, são os que puxam a curva. Em seguida, estão França (324/100 mil), Austrália (323/100 mil), Bélgica (321/100 mil) e Noruega (318/100 mil).

No entanto, enquanto a taxa de mortalidade está diminuindo nestes lugares, ela está aumentando em países de baixa e média renda, assim como sua incidência. A tendência vem sendo notada por novos estudos, como o publicado em dezembro na revista científica “Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention”.

Para se ter ideia, um levantamento feito com base nos dados da Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (Globocan), ligada à Organização Mundial de Saúde, mostra que, das 7,6 milhões de mortes por câncer no mundo em 2008, quase 62% ocorreram em regiões menos desenvolvidas do planeta. Em 2035, a projeção é de 14,4 milhões de mortes no mundo, e 72% delas ocorrerão em países menos desenvolvidos, no qual se inclui o Brasil.

As taxas de muitos cânceres estão sendo reduzidas em países ocidentais através do controle de fatores de risco, detecção precoce e melhora no tratamento

Lindsay Torre
epidemiologista da Sociedade Americana de Câncer

A participação de países menos desenvolvidos também é mais forte entre os novos casos de câncer. Em 2008, do total de 12,7 milhões de doentes, 55% eram diagnosticados em nações de média e baixa renda. Pelas projeções do Globocan, haverá 22,6 milhões de novos casos em 2035, dos quais 65% estarão nessas áreas.

O Reino Unido foi o pioneiro em reverter a tendência de aumento de mortalidade. Na última semana, o Centro de Pesquisa de Câncer do país divulgou um novo balanço, mostrando que reduziu em 10% o número de mortes na última década. Nas últimas duas décadas, somam-se 20% de redução. Para chegar a isso, países como o Reino Unido adotaram algumas medidas práticas:

– As taxas de muitos cânceres estão sendo reduzidas em países ocidentais através do controle de fatores de risco, detecção precoce e melhora no tratamento – afirma Lindsay Torre, epidemiologista da Sociedade Americana de Câncer e autora principal do estudo da “Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention”.

Uma paciente com câncer no ovário Hospital Kamla Nehru Hospital, em foto do Dia Internacional do Câncer: tratamento deficiente
Uma paciente com câncer no ovário Hospital Kamla Nehru Hospital, em foto do Dia Internacional do Câncer: tratamento deficiente

Envelhecimento e genética influenciam no desenvolvimento do câncer. Mas tabagismo, sobrepeso e dieta não saudável, álcool e sedentarismo estão entre os principais fatores de risco da doença, o que mostra que o estilo de vida tem um impacto enorme na prevenção.

– Em contraste, taxas de câncer tais como pulmão, mama e colorretal estão subindo em países menos desenvolvidos devido ao aumento de fatores de risco típicos de países ocidentais, como fumo, sobrepeso, sedentarismo, além de estes países terem menos filhos do que no passado, e as mães amamentarem por menos tempo – completa Lindsay.

Além do aumento da incidência, países mais pobres ainda não conseguiram garantir acesso rápido e amplo ao diagnóstico e tratamento.

– Em muitos países de baixa e média renda, a mamografia não está disponível – comenta Lindsay.

Já o Brasil aumentou em mais de 60% o número de mamografias – de 1,55 milhão, em 2010, para 2,5 milhões, em 2014 – e, além disso, a sobrevida da doença – de 78% em 1995 para 87% em 2009. Mas a mortalidade ainda é considerada alta (14 mortes por 100 mil habitantes), e o número de casos de cânceres de mama cresceu em números absolutos de 37 mil em 2008 para 57 mil na estimativa deste ano.

O alerta maior do Instituto Nacional do Câncer (Inca) é para os tipos de câncer que estão ligados ao excesso de peso; aproximadamente 15 mil dos 596 mil novos casos de câncer estimados para 2016 estarão associados ao sobrepeso e à obesidade, entre eles o de cólon e reto, mama e próstata. Para 2016, o Inca estima 420 mil novos casos de câncer no Brasil (descontando os cânceres de pele não-melanoma). No mundo, há em torno de 14,1 milhões de novos e 8,2 milhões de mortes de câncer a cada ano, cerca de 13% do total.

Escrito por Flavia Milhorance

Flavia Milhorance

Jornalista, formada pela UFRJ, trabalhou na Band News, na Empresa Brasileira de Comunicação e no jornal O Globo. Tem especializações em Sociologia (PUC-RJ) e Fotografia e Imagem (Iuperj). Atualmente vive na Dinamarca, onde cursa um mestrado em Jornalismo, Mídia e Globalização.

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