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Banheiro vira tema mundial

Mais de 1.400 crianças morrem diariamente por falta de saneamento

Vista de um banheiro numa favela de Dhaka, em Bangladesh. Foto de Mamunur Rashid/ NurPhoto
Vista de um banheiro numa favela de Dhaka, em Bangladesh. Foto de Mamunur Rashid/ NurPhoto

Ele nunca esteve tanto em evidência e até na operação Lava Jato foi citado.  Vitima de preconceito e de tabus, o banheiro sai dos fundos e ganha notoriedade ao entrar na lista dos grandes temas mundiais. Até um dia internacional passou a ser consagrado a ele.

Embora o uso do banheiro tenha começado quando o homem se tornou sedentário e passou a viver em comunidades, foram os romanos os primeiros a desenvolver um sistema de latrinas com água corrente que servia toda Roma antiga. Com a queda do império, essa obra de engenharia foi abandonada, trazendo um retrocesso nas questões de higiene e saneamento. Foi só no final da Idade Média que a comunidade cientifica ligou as condições sanitárias precárias da época ao surgimento e rápida propagação de doenças. Como a Peste Negra, por exemplo, epidemia que matou, em 6 anos, entre 30% e 50% da população europeia.

Na Índia, por exemplo, a perda de produtividade ligada ao absenteísmo do trabalho, para procurar um banheiro ou lugar ao ar livre, é da ordem de 20% do PIB

Hoje, em pleno século XXI, 315.000 crianças ainda morrem todos os anos de diarreia causada por água suja e falta de saneamento básico – mais de 1.400 crianças por dia. Uma em cada dez pessoas não tem outra alternativa a não ser fazer “suas necessidades” ao ar livre.

Esse quadro, assustador, levou a ONU – Organização das Nações Unidas – a criar o “Toilet Day” – Dia Mundial do Banheiro. O objetivo? Abordar um assunto tabu de forma séria e responsável, promover oportunidades para a inovação, a tecnologia e explorar os impactos econômicos, sociais e ambientais ligados ao saneamento e aos banheiros.

A ONU salienta que ter e permitir o acesso a banheiros limpos e seguros, no trabalho e em casa, faz aumentar a produtividade e reduzir o número de licenças médicas. Na Índia, por exemplo, a perda de produtividade ligada ao absenteísmo do trabalho, para procurar um banheiro ou lugar ao ar livre, é da ordem de 20% do PIB – Produto Interno Bruto.

Fábrica de vasos sanitários em Taiwan. Foto de Sam Yeh/AFP
Fábrica de vasos sanitários em Taiwan. Foto de Sam Yeh/AFP

A crise no saneamento

 Momento de privacidade para uns e de inspiração para outros, a ida ao banheiro é considerada o mais democrático dos atos humanos, pois ultrapassa as barreiras de raça, religião, idade e classe social. Do mais pobre até a mais alta realeza, todos estamos unidos no mais básico ato do corpo humano.  Unidos até certo ponto.

Se o assento é aquecido para uns, para 1 bilhão de pessoas não há sequer vaso sanitário. Dos mais de 7 bilhões de habitantes do planeta, apenas 2,4 bilhões têm acesso a instalações sanitárias adequadas.

No Brasil, segundo o Censo de 2010, 1,5 milhão de domicílios não têm banheiros ou sanitários. Desses, 1,1 milhão estão no Nordeste. Em 2015, o Brasil superou a marca de 50%  do esgoto tratado em municípios atendidos com água.

A falta de saneamento básico é a principal causa da morte de crianças com até 5 anos, conforme informações divulgadas pelo Instituto Trata Brasil. Ainda há escolas que não possuem banheiros e mais da metade dos colégios não tem acesso à coleta de esgotos. Tristes números. Enquanto isso, somos o quarto país maior consumidor de celulares, só perdendo para a China, Estados Unidos e Índia. Falando em Índia, lá os números também são assombrosos quando falamos de saneamento: 44% da população usa os rios como banheiro mas também para beber água e se banhar.

Também conhecido como bacia, privada, trono, patente ou bojo, o vaso sanitário – e o banheiro de uma maneira geral – oferecem oportunidades para o desenvolvimento de novos materiais e tecnologias.

Embora a invenção do vaso sanitário tenha sido patenteada em 1775, o uso do vaso conectado à uma rede de esgotos subterrânea só ocorreu a partir do século 19. De lá para cá, investiu-se em novos materiais de acabamento que, na maioria dos casos, teve efeito puramente decorativo. Ainda falta tecnologia. O uso de água limpa e potável nos banheiros, por exemplo, é um tema que mobiliza pesquisadores: a correta dosagem nas descargas e a reutilização de águas usadas, evitando o uso de água potável para um fim considerado menos nobre.

A batalha do toilette

O uso do banheiro também pode ser revelador da política de uma país. Uma circular do Governo Barack Obama autorizando e incentivando os alunos a usarem o banheiro do sexo com o qual eles se identificam, e não segundo o seu sexo de nascimento, levou 11 estados americanos a entrarem na justiça, criando o que a imprensa chamou de “Batalha do Toilette”. A polêmica provavelmente vai continuar no Governo Trump….

Embora seja cada vez mais comum vermos banheiros adaptados para deficientes e para crianças, ainda falta inclusão. Segundo Leo Heller, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e relator da ONU para água e saneamento, os banheiros são projetados com o olhar masculino, sem considerar particularidades como o ciclo menstrual.

Já em Paris, no início de janeiro, foi inaugurado, na “Gare de Lyon”, o primeiro banheiro ecológico da cidade. Aberto, ele só é utilizado por homens e para o aperto, digamos, líquido. Envolto em flores, a urina é transferida para uma estação de compostagem próxima onde se transforma em fertilizante na agricultura. Agora, além de não ficar apertado, você ainda pode contribuir para um mundo melhor. A hora é essa!

A fundação Bill & Melinda Gates também aposta na inovação para o desenvolvimento de novas tecnologias no uso dos banheiros. 22 universidades foram convidadas a apresentar projetos sustentáveis que capitalizem em cima dos resíduos gerados, promovam o acesso às populações que não têm sanitários e que tenham baixo custo de implementação. Um grupo de pesquisadores da universidade de KwaZulu-Natal, na Africa do Sul, recebeu US$400 mil por um projeto que aproveita os dejetos e gera energia.

Para a Nasa, em se tratando de astronautas, o mais importante é não usar as mãos. Calma, eu explico: a Nasa quer encontrar uma solução para coletar urina, fezes e menstruação sem que os astronautas tenham que tirar a roupa. Parece uma xarada. O ganhador do prêmio de €280 mil será anunciado no dia 1° de fevereiro.

Escrito por Marlene Oliveira

Marlene Oliveira

Jornalista, com Master pelo IAG /PUC e Coppead/UFRJ, é profissional de comunicação corporativa, trabalhando para empresas globais. Vive e trabalha em Paris há nove anos.

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