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Reciclando o design

Projeto na Bahia transforma restos do carnaval em produtos de moda e decoração

Bolsas feitas com lona ortofônica, revestimento de plástico vazado e maleável usado nos trios elétricos da Bahia. Foto de Divulgação
Bolsas feitas com lona ortofônica, revestimento de plástico vazado e maleável usado nos trios elétricos da Bahia. Foto de Divulgação

No caminho da economia sustentável e da inclusão social, o projeto Iaô Design, em Salvador, Bahia, inova ao aproveitar lonas plásticas de banners publicitários em peças de moda e decoração.  O ponto de partida da ideia foi o reaproveitamento de um resíduo muito particular do carnaval de Salvador. Quem pensou em garrafas PET, latinhas de alumínio ou sacos plásticos errou. A matéria prima que deu origem a tudo é bem mais inusitada: a lona ortofônica, aquele revestimento de plástico vazado e maleável que decora os quase 40 trios elétricos que agitam as ruas da capital baiana durante a semana da festa.

É fundamental a moda contemporânea apropriar-se desse trabalho com reuso, coisa que os artesãos já fazem há muito tempo.

Luciana Galeão
Iaô Design

Passada a folia, o fim previsível desse material seria o lixo. Seria, mas não é! Depois de retirado dos trios ele vai direto para o galpão da Associação Fábrica Cultural, uma Organização Não Governamental (ONG), presidida pela cantora e uma das musas do carnaval de baiano, Margareth Menezes. Fundada em 2008, a ONG tem três objetivos: educação, cultura e sustentabilidade, com promoção do desenvolvimento de aproximadamente 170 mil pessoas, habitantes de 14 bairros, entre eles o carente Alagados, que ficou famoso depois de cantado por Gilberto Gil.

Ali, pelas mãos habilidosas de costureiras e artesãos, essas lonas transformam-se em bolsas e sacolas. A experiência deu tão certo que o núcleo produtivo de moda da associação identificou as lonas plásticas de publicidade como outro material que também poderia ser reaproveitado de forma criativa e, o melhor, ao longo de todo o ano. O Iaô Design ganhou, então, novo impulso e a expertise de duas designers baianas, Luciana Galeão e Márcia Ganem. Com elas, a lona saiu dos outdoors e deu forma a coleções de moda e decoração.

Luciana Galeão e Jucélia Bezerra trabalhando na Coopertêxtil. Foto de Divulgação
Luciana Galeão e Jucélia Bezerra trabalhando na Coopertêxtil. Foto de Divulgação

As duas não foram escolhidas à toa. Ambas são conhecidas por suas pesquisas com material de reuso e seu investimento em capacitação de mão de obra de grupos produtivos. Márcia, por exemplo, tem um trabalho de moda com fibra de poliamida, descarte de pneumáticos. Sobre a experiência com a lona, diz: “Ela me inspirou a fazer mobiliário, porque as peças publicitárias têm designs magníficos e ficam valorizados em objetos maiores, como móveis”. Tudo foi pensado para destacar, portanto, o desenho gráfico e facilitar a reprodução das peças. Por isso, o contorno geométrico e sem complicações dos móveis.

Cada designer pôde escolher os grupos produtivos com os quais queria trabalhar. Márcia optou por capacitar os jovens da região da Península de Itapagipe, base da ONG: “acho importante abrir uma perspectiva para a nossa juventude”. Luciana preferiu trabalhar com um grupo mais tradicional, como as tecelãs da Coopertêxtil, que fica no Pelourinho.

Na sua grife, Luciana sempre gostou de olhar para aquilo que estava sendo jogado fora e valorizou as “artesanias”, como costuma dizer. Aproveitou restos de couro sintético para montar mosaicos em vestidos, saias e blusas.  “É fundamental a moda contemporânea apropriar-se desse trabalho com reuso, coisa que os artesãos já fazem há muito tempo”, diz. Eles já têm o conhecimento na prática; faltavam planejamento, pesquisa, desenvolvimento de uma coleção, um conceito. É aí que as designers entram para somar.

Jucélia Nascimento dos Santos Bezerra, atual responsável pela Coopertêxtil, que o diga. No momento, a cooperativa está se reestruturando e o projeto Iaô tem papel fundamental nesse processo. Quando nasceu, em 2003, por solicitação das mães dos filhos do Projeto Axé (ONG voltada para educação de jovens em situação de vulnerabilidade social), as cooperadas contavam com a ajuda governamental para transporte e cesta básica, benefícios que foram sendo perdidos ao longo do tempo e a cooperativa esvaziou-se. “Estamos agora tentando nos reerguer por meio de cursos de capacitação e entrada de novos cooperados”, diz Jucélia. Atualmente, 18 pessoas formam a Coopertêxtil, sendo a maioria mulheres que buscam melhorar a renda da família. As peças de moda já estão sendo vendidas na própria cooperativa e também nas lojas do Cesol, Centro de Economia Solidária.

Segundo Teresa Carvalho, diretora de projetos da Fábrica Cultural, há planos de desenvolver um modelo comercial mais amplo para o projeto como um todo. No momento, ela destaca que o foco são os processos formativos, os cursos de qualificação, para colocar a produção em prática. “Pretendemos montar um espaço com esse produto a fim de mostrar o conceito e encontrar um caminho de venda”, diz referindo-se à possibilidade de abrir um showroom em um shopping da cidade, a fim de dar maior visibilidade ao trabalho, estimular a discussão sobre economia criativa e impulsionar o projeto para o qual já trabalham 200 pessoas aproximadamente.

O contorno geométrico e sem complicações dos móveis facilita o uso da lona. Foto de Divulgação
O contorno geométrico e sem complicações dos móveis facilita o uso da lona. Foto de Divulgação

Escrito por Simone Serpa

Simone Serpa

Jornalista carioca que há 10 anos fez de Salvador, BA, sua morada. Sempre trabalhou em revistas femininas e de decoração. Vive em busca de belas histórias de vida, lindas casas e bons exemplos de bem viver.

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