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Bicicletas feitas de lixo

Cada uma delas leva de quatro a seis quilos de plástico reciclável

A Muzzicycle tem um desenho aerodinâmico - com ar dentro - para ser mais flexível e forte, dispensando amortecedores. Foto de Divulgação
A Muzzicycle tem um desenho aerodinâmico – com ar dentro – para ser mais flexível e forte, dispensando amortecedores. Foto de Divulgação

Se você anda de bicicleta por ai despreocupado e orgulhoso por não estar poluindo o meio ambiente, saiba que este é apenas o início de um caminho que ainda pode ir muito além. Ele começou a ser aberto por um uruguaio radicado no Brasil desde 1970, que inventou um modelo produzido em São Paulo capaz de muito mais: cada quadro desta bike leva de quatro a seis quilos de plástico reciclável em sua composição, o que significa que, se a fábrica trabalhasse em sua capacidade máxima, teríamos hoje 1.320 toneladas de lixo (entre garrafas PET, embalagens de xampu e material de limpeza, por exemplo) recolhido e reaproveitado todo mês. E mais, como dispensa a fabricação de alumínio, que vem da extração da bauxita, também haveria uma economia de 980.735 quilos de recursos naturais no processo de produção dos quadros, além de uma emissão de 5.738.227 quilos de gás carbônico a menos na atmosfera.

A Muzzicycle é a única bicicleta do mundo que é injetada em uma peça única e sai do molde em menos de três minutos. Isso me dá a possibilidade de fabricar de 130 mil a 140 mil bicicletas por ano. Mas ainda estamos longe disso. Produzimos mais de seis mil unidades em quase três anos.

Juan Carlos Muzzi
O inventor

As vantagens não param por aí: valendo-se de uma característica do plástico que aqui não é problema, a de levar centenas de anos para se decompor, a bicicleta ecológica vem com garantia vitalícia do quadro (ao longo de toda uma vida, só seus acessórios, como as rodas, podem precisar ser substituídos). O quadro tem um desenho aerodinâmico – com ar dentro, como o esqueleto humano – para ser mais flexível e forte, dispensando amortecedores. E a bike também não precisa de pintura (evitando o uso da tinta, que também gera impacto na natureza para ser produzida), já que a cor vem do próprio material reciclado. Se forem mais garrafas PET, ela acaba ficando num verde meio transparente. Mas pode ser até rosa, caso predominem embalagens de produtos de limpeza neste tom. E, claro, não há risco de ferrugem.

“A Muzzicycle é a única bicicleta do mundo que é injetada em uma peça única e sai do molde em menos de três minutos. Isso me dá a possibilidade de fabricar de 130 mil a 140 mil bicicletas por ano. Mas ainda estamos longe disso. Produzimos mais de seis mil unidades em quase três anos, pois, como não fabrico em escala, são de cinco a dez por dia”, conta o inventor Juan Carlos Calabresse Muzzi, de 67 anos, um piloto de avião, gravurista, escultor, ceramista, empresário, dono de uma ferramentaria e (ufa!) desenvolvedor de produtos, como consta em seu site.

O inventor Juan Carlos Muzzi, de 67 anos, já foi piloto de avião, gravurista, escultor e ceramista. Foto de Divulgação
O inventor Juan Carlos Muzzi, de 67 anos, já foi piloto de avião, gravurista, escultor e ceramista. Foto de Divulgação

Ele estudou engenharia mecânica na Universidad del Trabajo del Uruguay (UTU) – não se formou, mas saiu de lá perito -, veio para o Brasil aos 22 anos, num auto exílio, e aqui acabou montando uma fábrica de brinquedos, cujo maior sucesso foi uma mola de plástico colorido que descia escadas e ficou conhecida como mola mania nos anos 1990. Só no Brasil, foram vendidas 22 milhões delas. O inventor ganhou muito dinheiro, mas investiu quase tudo num sonho que ainda não deu retorno:

“Gastei 4 milhões de dólares nesse projeto, que começou em 1998. Vendi meu avião e minha casa em Punta del Este. Foram 12 anos de tentativas para desenvolver um molde da bicicleta, mas não funcionava. Procurei o BNDES em busca de dinheiro para continuar as pesquisas, mas o que ouvi foi que, se a ideia fosse boa, algum país como a Alemanha ou o Japão já teria feito. Ai, um representante do Banco de la República del Uruguay esteve no meu ateliê (no bairro Limão, em São Paulo), viu o projeto da bicicleta e perguntou: ‘o que está faltando?’ Eu respondi que era dinheiro. Foi quando ele me disse que iria me emprestar 1,3 milhão de dólares. Como contrapartida, prometi doar 230 bicicletas, o que de fato fiz quando começamos a produzir”.

Muzzi fabrica hoje cinco modelos de sua bicicleta. A mais em conta é a Nilo (monomarcha, com freios V-brake), que sai por cerca de R$ 680, e a mais cara é a Reno (com freio a disco, câmbio Shimano, sete marchas), custando aproximadamente R$ 3.200. Mas a mais vendida é a “Amazonas” (câmbio de sete marchas e freios V-brake), que custa em torno de R$ 980. Há ainda a Amazonas Especial (câmbio Shimano TZ30 Revoshift, sete marchas e freios V-Brake), a R$ 1.440, e a Mississippi (bicicleta Nexus 3V com freios V-Brake), por R$ 2.940. Os quadros também são vendidos separadamente, por preços entre R$ 380 e R$ 480.

“O plástico tem em qualquer lugar”, diz Juan, que tanto adquire o material já triturado quanto recolhe ele mesmo ou compra algumas embalagens de ONGs. Neste caso, o material já chega separado por tons. Ai, é só iniciar o processo de reciclagem: cada embalagem é cortada em pedaços bem pequenos, que depois são triturados até que virem grãos. É quando recebem aditivos químicos, incluindo um protetor solar, para que o quadro não desbote com o sol e o tempo. Só então a “massa” vai para uma máquina injetora e se transforma no quadro, que é feito na mesma forma para todos os modelos da magrela. A peça é muito resistente. Chegou a passar por um teste que consitia em ficar sob o uma empilhadeira carregada com três toneladas e meia. Saiu sem qualquer amassadinho.

Vencedora do primeiro prêmio na Bienal Íberoamericana de Design, em Madri, a Muzzicycle foi exibida em outubro no CasaShopping, no Rio, durante a sexta edição da exposição internacional “Plasticidades: Plástico + Design”, uma amostra do que há de mais inovador e moderno em design produzido com plástico, considerando temas ligados à criação e inovação com plásticos, reciclagem, coleta seletiva de resíduos e sustentabilidade.

Patenteada em 140 países, a bicicleta ecológica já está sendo produzida para 30 deles. O primeiro a comprar foi a Holanda. Depois vieram os Estados Unidos, Colômbia, Argentina … Menos o Brasil, apesar de o produto já ter sido testado pelo Inmetro. “Sou um uruguaio, produzindo no Brasil, com dinheiro uruguaio, e que não vendeu nada aqui. Fora isso, na época em que recebeu o empréstimo, o dólar valia R$ 1,2. Agora, com a moeda americana beirando os R$ 3, Muzzi não conseguiu pagar o banco de seu país, e está sendo processado. “Levei dez anos para construir um prédio de sucata de aço e tijolos jogados fora por olarias, onde funcionam meu ateliê, minha ferramentaria e minha linha de montagem. Agora estou aqui, ainda, mas esperando o oficial de justiça que vai me tirá-lo para pagar a dívida”.

Escrito por Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha se completam. No trabalho e na vida. Juntos, têm umas quatro décadas de jornalismo. Ela, no texto, trabalhou no Globo por 17 anos, depois de passar por Jornal do Brasil, O Dia e Revista Veja, sempre cobrindo a cidade do Rio. Ele, nas imagens (paradas ou em movimento), há 20 anos bate ponto no Globo. O melhor desta parceria nasceu em novembro passado. Chama-se Pedro, e veio fazer par com a irmã, Maria.

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3 Comentários

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  1. Muito bem feita a matéria e, sobretudo, muito importante. A produção dessa bicicleta merece todo apoio dos agentes governamentais, como auxílio financeiro e perdão da dívida fiscal, pelo menos em parte.. Essa bicicleta é absolutamente inovadora, entre outras coisas por combater fortemente a poluição gerada pelas embalagens plásticas abandonadas.

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