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A ameaça do desperdício alimentar

Se fosse um país, a perda de comida no mundo estaria em 3º lugar no ranking dos maiores emissores de gases de efeito estufa, atrás da China e dos EUA

Menino recolhe vegetais num lixão em Bangladesh. Foto de Zakir Hossain Chowdhury/NurPhoto
Menino recolhe vegetais num lixão em Bangladesh. Foto de Zakir Hossain Chowdhury/NurPhoto

A maioria dos países ricos produz de três a quatro vezes mais que o necessário para satisfazer as necessidades alimentares de seus cidadãos. Enquanto isso, um bilhão de pessoas no mundo sofrem de desnutrição. Mas a falta de políticas de segurança alimentar provoca outras ameaças. A produção em excesso leva ao desmatamento, à depleção dos recursos hídricos, ao enorme consumo de combustíveis fósseis e à perda da biodiversidade. Apenas nas nações desenvolvidas, a decomposição dos alimentos jogados fora responde por dez por cento de suas emissões de gases de efeito estufa.

Alguns ambientalistas sugerem que uma parte vital da resposta à ameaça climática seria o uso de métodos agrícolas menos intensivos em carbono. Além de uma mudança na dieta da população, que inclui, necessariamente, um consumo menor de carne.

E tudo tende a piorar. Países em desenvolvimento como China, Índia e grande parte da África tendem a adotar estilos ocidentais de nutrição, segundo Prajal Pradhan, do Instituto de Pesquisa de Impactos do Clima de Potsdam. Por conta de mudanças notáveis no crescimento demográfico e de estilos de vida, diz ele, as emissões de gases de estufa da agricultura devem chegar a 10 gigatoneladas de CO2 em 2050. Ou seja, um desastre.

O Fórum Econômico Mundial lembra que o acordo do clima de Paris compromete o mundo a manter o aquecimento causado pela mudança do clima abaixo dos 2ºC em relação aos níveis pré-industriais. Já que os sistemas alimentares, em toda sua cadeia, inclusive o desperdício, são responsáveis por quase um terço das emissões de gases de efeito estufa, os alimentos apenas têm o potencial de usar todo o orçamento de carbono do acordo (ou seja, o teto que os países podem se permitir emitir). O mesmo estudo revela que, se fosse um país, o desperdício de comida no mundo seria o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.

Alguns ambientalistas sugerem que uma parte vital da resposta à ameaça climática seria o uso de métodos agrícolas menos intensivos em carbono. Além de uma mudança na dieta da população, que inclui, necessariamente, um consumo menor de carne. Fertilizantes liberam na atmosfera grandes quantidades de óxido nitroso, gás que esquenta o planeta 80 vezes mais rápido que o dióxido de carbono. E a produção de comida para gado e frango responde por metade de todas as emissões de carbono da agricultura e de uso da terra. Um terço de safras mundiais servem de alimentação para animais que produzem carne.

Cerca de um bilhão de pessoas passam fome hoje no mundo. A situação é mais grave na Índia e na África Subsaariana. Foto de Albert Gonzalez Farran/AFP
Cerca de um bilhão de pessoas passam fome hoje no mundo. A situação é mais grave na Índia e na África Subsaariana. Foto de Albert Gonzalez Farran/AFP

Lamentavelmente, seu livro fundamental sobre o assunto, Full Planet Emtpy Plates – The New Geopolitics of Food Scarcity (Planeta Cheio, Pratos Vazios – A Nova Geopolítica da Escassez Alimentar), não foi traduzido aqui, mas um dos pensadores mais influentes do mundo, Lester Brown, faz nele uma séria advertência: o mundo está à beira de uma séria crise alimentar,  e isto poderá, no limite, levar ao que era impensável há poucas décadas – um tempo de escassez no qual os próprios valores da civilização se encontrarão ameaçados.

Lester Brown recebeu esta qualificação do jornal The Washington Post. Fundador do Worldwatch Institute (em 1974) e fundador e presidente do Earth Policy Institute (desde 2001), autor de diversos livros sobre o tema, ele foi um pioneiro do conceito de desenvolvimento sustentável em meados dos anos 1970, e advertia, já em 1978, em seu O Vigésimo-Nono Dia, sobre os perigos para o mundo “da pesca excessiva, do desflorestamento e de se transformar terra em deserto.”

“Bem-vindos à nova geopolítica da escassez de alimentos,” vaticina ele. O progresso que o mundo fez para reduzir a fome em décadas recentes foi zerado, e o planeta pode estar bem mais perto de uma crise mais grave do que se imagina. Apenas na última década, os estoques mundiais de grãos caíram um terço. O súbito aumento de preços de alimentos, que dobraram entre 2007 e 2008, deixou mais pessoas famintas que em qualquer momento da história. Quando o período de abundância alimentar foi inaugurado, nos anos 1960, o mundo tinha 2 bilhões de habitantes. Hoje, tem 7 bilhões. De 1950 a 2000, houve saltos bruscos ocasionais de preços em grãos como resultado de eventos induzidos pelo tempo, mas seus efeitos eram de curta duração e logo tudo voltava ao normal. Normal é algo que não existe mais.

Para países avançados como os EUA, onde as pessoas gastam 9% de sua renda com comida, o problema não parece tão sério. Mas pense naqueles que gastam de 50% a 70% dos seus rendimentos para se alimentar, e no que acontece com eles quando os preços dobram. O número de pessoas com fome no planeta estava caindo nas últimas décadas do século 20, chegando a 792 milhões em 1997. A partir daí, começou a subir, chegando a 1 bilhão, e a situação mais grave é a encontrada no subcontinente indiano e na África Subsaariana.

Historicamente, lembra Brown, há duas fontes para o crescimento da demanda de grãos. Uma é o aumento da população. Centenas de milhares de pessoas estarão sentadas à mesa (quando existir uma mesa) sem nada para comer. A segunda fonte é o imenso número de pessoas em países em desenvolvimento que escalam a cadeia alimentar – são cerca de 3 bilhões delas, fazendo com que a China hoje, por exemplo, consuma duas vezes mais carne que os Estados Unidos.  Mas há uma terceira fonte, insidiosa: os automóveis. Extensões cada vez maiores de terras agricultáveis estão sendo usadas para a insana produção de biocombustíveis, que irão alimentar uma frota sedenta.  Isto faz, também, com que os preços dos alimentos estejam cada vez mais ligados aos preços do petróleo – e não mais apenas de uma forma indireta, como os curtos de transportes envolvidos naquilo que comemos.

Tim Lang, professor de política alimentar da City University, em Londres, resume o problema de forma dramática: “Os ricos precisam comer menos, e diferente, e os pobres precisam comer mais, e diferente”.

Não existe certeza sobre como a demanda global de comida irá evoluir, mas também não existe certeza sobre como se processarão as mudanças na produção. Para muitos, os alimentos nunca foram tão baratos (relativamente à renda), e isto é um dos indutores do desperdício. Mas fora os danos ambientais já citados, há danos sociais incalculáveis. A agricultura é cada vez mais de capital intensivo e menos mão-de-obra, as colheitas familiares que sustentam centenas de milhões de pessoas no mundo desaparecem, imensas áreas de terra são crescentemente usadas para monoculturas, deslocando povos e culturais milenares.

O sonho de um sistema alimentar alternativo e mais benéfico parece até o momento não passar disso, um sonho, ainda que o número de pessoas envolvidas nesta transição cresça a olhos vistos – gente envolvida em produção orgânica, incentivadores de consumo de produtos locais, menor consumo de carne. Mas na velocidade e extensão com que estas práticas são adotadas, versus o poder da grande agricultura, a questão é: o que o mundo vai estar comendo daqui a duas décadas? E com que riscos ambientais?

Escrito por José Eduardo Mendonça

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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