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Quem mora ao lado?

Na França, dia dedicado ao vizinho tenta aproximar pessoas e combater a solidão

Não foi por acaso que o dia escolhido para comemorar a festa do vizinho seja a última sexta-feira do mês de maio, quando o verão se aproxima
Não foi por acaso que o dia escolhido para comemorar a festa do vizinho seja a última sexta-feira do mês de maio, quando o verão se aproxima

Confesso que estranhei o primeiro convite. Carioca, crescida num subúrbio do Rio, onde as pessoas se conhecem há gerações e ainda conversam no portão, criar um dia no calendário para conhecer os vizinhos, me pareceu uma tática inútil e artificial. Contra vontade, mas curiosa, eu fui. Depois, com os anos, comecei a entender melhor e a valorizar essa iniciativa, criada na França em 1999 e que já existe em 36 países.

Foi Atanase Périfan, um dos fundadores da associação “Imovéis em Festa” quem teve a ideia de promover esses encontros depois que descobriu que uma de suas vizinhas, bastante idosa, estava há 4 meses morta em casa, sem que ninguém se desse conta.

Uma das minhas primeiras descobertas foi saber como tem gente idosa morando sozinha. Sozinha mesmo. Comemorar o “Dia do Vizinho” foi justamente um remédio criado para combater o isolamento que atinge em massa os idosos na França. Foi Atanase Périfan, um dos fundadores da associação “Imovéis em Festa” quem teve a ideia de promover esses encontros depois que descobriu que uma de suas vizinhas, bastante idosa, estava há 4 meses morta em casa, sem que ninguém se desse conta.

A canícula de 2003 só veio reforçar a importância de aproximar as pessoas. Entre 1 e 20 de agosto de 2003, mais de 15 mil pessoas morreram na França devido ao altíssimo calor. Desses, a metade tinha mais de 85 anos e muitos deles morreram sozinhos. Muitos corpos nem sequer foram procurados por familiares.

O que o episódio mostrou é que mesmo tendo os recursos, o país não tinha o espírito de solidariedade. Com ou sem canícula, sobrava a indiferença generalizada, especialmente em relação às pessoas idosas.

Não foi por acaso que o dia escolhido para comemorar a festa do vizinho seja a última sexta-feira do mês de maio. O verão se aproxima, o clima melhora o humor, até mesmo do parisiense, o que torna a época ideal para aproximar as pessoas e favorecer a integração.

Em 2015, foram 1119 prefeituras de toda a França que apoiaram a realização da festa e cerca de 8 milhões de franceses participaram do evento, o que representa cerca de 27% da população do país.

Relação de amor e ódio

Se no Brasil, nas cidades pequenas e subúrbios, a relação com quem vive próximo se mostra ainda muito forte e sólida, nas cidades grandes predomina uma insegurança e um certo individualismo.  Além do medo, há um clima de desconfiança até mesmo daqueles que moram ao lado. Hoje, as pessoas estão mais reclusas, a rua não é mais o espaço da convivência da comunidade. Tudo acontece dentro das casas: as reuniões sociais, as brincadeiras das crianças.

Esse confinamento e individualismo acirra os ânimos, o que pode gerar também rixas e disputas. No Brasil, os conflitos entre vizinhos são regidos por leis muito antigas e vagas contidas no Código Civil de 1916. Portanto, antes da lei, é melhor prevenir e utilizar sempre que possível o bom senso.

No Brasil, apesar de não fazer nenhum sucesso, também existe o “Dia do Vizinho”, comemorado no dia 20 de agosto, data de aniversário da poetisa Cora Coralina para quem “vizinho é mais que parente, pois é o primeiro a saber das coisas que acontecem na vida da gente“.

Até o cantor Seu Jorge valorizou a figura do vizinho, ou melhor, da vizinha, na música “Vizinha”. Neste caso, os propósitos vão além da solidariedade…

Dicas, francesas, para criar uma boa relação com os vizinhos:

1) Quando se mudar, colar no elevador uma mensagem se desculpando previamente pelo incômodo de ocupar o elevador no dia da mudança.

2) Avisar com antecedência sempre que der uma festa. Inclua: a hora que começa, a hora que acaba e se desculpe antecipadamente pelo barulho. Nem é preciso dizer que a festa deve realmente acabar na hora anunciada.

3) Usar todas as “palavras mágicas” que aprendemos e que nos esquecemos às vezes. Na França, isso pode alterar completamente o tom da conversa por vir. Não que no Brasil não seja o caso, mas, na França, isso é fatal.  Nem discussão começa sem um “Bom dia, boa noite”!

4) “Desculpe”, “obrigada”, “com licença” são obrigatórios.

Indo para a Suíça, redobre os cuidados. Lá, é proibido estender roupas, lavar carros e cortar a grama aos domingos. Quem mora em apartamento não pode dar descarga depois das 22 h.

Escrito por Marlene Oliveira

Marlene Oliveira

Jornalista, com Master pelo IAG /PUC e Coppead/UFRJ, é profissional de comunicação corporativa, trabalhando para empresas globais. Vive e trabalha em Paris há nove anos.

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Um Comentário

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  1. Acho muito interessante a ideia de destinar um dia ao
    Vizinho sem esquecer que devemos ser amáveis cordiais e solidários todos os dias do ano,
    VALEU!

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