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Hambúrguer e autoestima na calçada

Criado pelo chef Thomas Troisgros, um mutirão da solidariedade une a elite carioca a pessoas que vivem nas ruas do Centro do Rio

Samba e barbearia improvisada na calçada: mutirão une a elite carioca e moradores de rua. Foto: Lorena Mossa/Divulgação
Samba e barbearia improvisada para pessoas que vivem  sob as marquises, no Centro do Rio. Foto: Lorena Mossa/Divulgação

A febre de hambúrgueres gourmets que tomou conta da cidade torna difícil dizer qual deles é o melhor. Mas um ­deles – e dos mais famosos – tem feito a diferença na vida de centenas de pessoas. Trata-se do T.T. Burger, que leva as iniciais de Thomas Troisgros, chef filho do renomado Claude Troisgros, que decidiu levar seus hambúrgueres para além das fronteiras da Zona Sul carioca, onde uma elite tem condições de pagar R$ 38 pelas receitas que ele cria. Thomas e seus sócios passaram a distribuir sanduíches para os moradores de rua do Centro da cidade.

Tivemos medo. Essa que é a verdade. Fomos lá numa van, distribuímos uns cinquenta hambúrgueres, mas meio que saíamos correndo das pessoas. Só depois fomos nos aproximando e conhecendo mais um pouco daquele universo, e vendo o quão transformadora pode ser uma ação dessas. Não só para eles, mas sobretudo para nós

Thomas Troisgros
Chef

O pontapé inicial aconteceu em 16 de outubro de 2014, Dia Mundial do Pão. Foi um susto. Não só para os que dormiam sob as marquises da Cinelândia e foram surpreendidos com a visita, como para os próprios empresários.”Tivemos medo. Essa que é a verdade. Éramos seis amigos. Fomos de van e distribuímos uns cinquenta hambúrgueres, mas meio que saíamos correndo das pessoas”, admite o tímido Thomas. “Só depois, nas outras vezes, é que fomos nos aproximando e conhecendo mais um pouco daquele universo, e vendo o quão transformadora pode ser uma ação dessas. Não só para eles, mas sobretudo para nós, que não conhecíamos de perto o drama daquela turma”.

Thomas Troisgros e André Meisler, no último mutirão: hambúrgueres que transformam vidas. Foto: Caio Barbosa

O projeto foi batizado de MuTTirão, referência óbvia à hamburgueria, e chegou à sua nona edição na fria madrugada do dia 27 de junho. Em vez das seis pessoas em uma van da primeira edição, saíram dois ônibus lotados de amigos, clientes e parceiros que vão se juntando a cada trimestre para oferecer não apenas comida, mas serviços, solidariedade e carinho aos que vivem nas ruas.

“O MuTTIrão é autofinanciável. Ninguém aqui doa dinheiro, apenas tempo e atenção”, explica André Meisler, o Deco, de 32 anos, sócio de Thomas na hamburgueria.  Em outras palavras, significa que os 450 hambúrgueres doados na última edição contaram com a colaboração dos fornecedores, como a VPJ alimentos (carne), Arte Conventual (pães), Brasil Gourmet (picles), Tiferet (molhos), Vittalate (queijos),  além da grife D’Samba e da estamparia Dimona, que ofereceram camisetas para voluntários e moradores de rua. Além disso, a rede de drogarias Venâncio doou kits de higiene, e a Barbearia do Zé levou uma equipe para fazer, literalmente, barba, cabelo e bigode de uma turma que nunca pisou num salão de beleza.

“Na maioria dos projetos sociais, a gente vê que alguém vai lá e apenas raspa a cabeça do morador de rua. No nosso caso, não. A gente faz o corte que a pessoa quer. E levamos espelho para que eles se vejam após o corte. É impressionante como isso mexe com a autoestima deles. No caso do hambúrguer, normalmente as pessoas pegam e vão para um canto comer. Quando montamos a barbearia, eles se juntam, se sentem acolhidos e começam a falar sobre a vida”, conta Hugo Paiva, de 31 anos.

São muitas histórias e poder ajudar a essas pessoas faz diferença na vida de cada um de nós

André Meisler
Empresário

No último mutirão, o cantor e compositor Igor Leal, além de doar 300 camisetas de sua grife, levou os parceiros Renato da Rocinha e o grupo Hoje tem Samba para fazer uma grande roda sob as marquises da Avenida Marechal Câmara. “Além de doar roupas, calçados, comida, é preciso doar alegria a essas pessoas. Criei a marca D’Samba por querer transformar o samba em moda. Mas vejo que tudo isso pode ser muito maior e que podemos transformar a solidariedade em moda”, refletiu.

Morador de rua saboreia um sanduíche criado por Thomas Trosgrois. Foto: Caio Barbosa

O jovem designer Marcos Ramos acredita tanto nessa ideia que pediu as contas do TT Burger, no fim de 2016, para abrir sua agência de marketing social (Somar). E não quer saber de outra vida. “O TT mantém uma parceria com o Instituto da Criança e, através deles, conheci a Aceni (Associação de Crianças Especiais de Nova Iguaçu). Doei todo o meu salário de dezembro passado, além do décimo-terceiro, para eles, e decidi que passaria a dar mais de mim pelos outros. Essa convivência com pessoas tão carentes de amor e carinho é comovente. Mas tem que estar com o coração aberto e disposto a ouvir. A gente vê, por exemplo, que há muita solidariedade entre eles, que vivem na rua, e nós, que somos privilegiados, não tanta assim”, diz Ramos.

Amigo de Thomas e André Meisler, Arthur Montenegro começou a participar do MuTTirão como voluntário. Hoje, atua como gerador de empregos, através da sua empresa ETC Soluções em Negócios. “Eu não tinha nada para doar. Não faço hambúrguer, pão, roupa, nada disso. Trabalho com gente. E vi que o MuTTIrão era o meio de tirar as pessoas da situação em que elas estão. O hambúrguer e o samba foram apenas uma maneira de nos aproximar delas. Em março, começamos um cadastro, ainda de forma tímida, e conseguimos empregar 35 como repositores de supermercado. Teve um que saiu do Mundial e foi para o Guanabara, após receber uma proposta melhor”, comemora Montenegro.

 Festa de aniversário na calçada
Marcelo (ao centro) ganhou uma festa de aniversário: "Só quero voltar para a minha terra". Foto Lorena Mossa/Divulgação
Marcelo (ao centro) ganhou uma festa de aniversário: “Só quero voltar para a minha terra”. Foto: Lorena Mossa/Divulgação

Eu só quero voltar para a minha terra. Sou pedreiro, carpinteiro e fiquei 14 anos preso, porque matei um cara que tentou abusar da minha filha. Eu me arrependo. Saí da cadeia tem 30 dias e não quero ficar na rua, porque a gente não tem futuro aqui e acaba fazendo besteira

Marcelo Oliveira Santos
Pedreiro

A chegada de uma centena de voluntários, todos vestidos de branco, em plena madrugada, para começar o MuTTirão, é sinal de algumas poucas horas de prazer para o contingente de brasileiros que dorme nas ruas do Centro do Rio. As histórias de vida chamam a atenção e cada um tem um caso inesquecível para contar. Naquela noite, no entanto, um cidadão em especial comoveu a todos. Marcelo de Oliveira Santos havia completado 50 anos no dia anterior e transformou o mutirão em sua festa particular. O presente que pediu emocionou a todos:

“Eu só quero voltar para a minha terra, Pirassununga, no interior de São Paulo. Sou pedreiro, carpinteiro e fiquei 14 anos preso, porque matei um cara que tentou abusar da minha filha. Eu me arrependo. Saí da cadeia tem 30 dias e não quero ficar na rua, porque a gente não tem futuro aqui e acaba fazendo besteira. Só quero encontrar meus parentes. Sei que eles têm essas coisas aí no computador e, se alguém encontrar, por favor, diga que durmo na Avenida Marechal Câmara. Minhas filhas se chamam Aline e Ariane Teodoro da Silva, minha mulher é Lucineia Teodoro da Silva”, pediu Marcelo, após se acabar na roda de samba e receber os parabéns dos amigos que fez na rua.

André Meisler acredita que o reencontro de Marcelo com sua família esteja perto. E revela que não será o primeiro desde que começaram os mutirões. “Já tivemos uma filha que achou a mãe, que estava na rua. Nosso vizinho na filial do TT Burger do Arpoador, dono do The Bar, reconheceu um amigo do pai dele, também dormindo na rua. São muitas histórias e poder ajudar a essas pessoas faz diferença na vida de cada um de nós”, conta.

O próprio André tem uma história particular que ainda espera ver com final feliz. Ele lembra que, em um dos mutirões, um morador de rua lhe entregou um boleto de pagamento de um curso de eletricista. “Eu pedi a ele um telefone de contato, para que eu pudesse ligar,  confirmando o pagamento. Ele disse que não tinha, mas, quando eu estava voltando para o ônibus,  se aproximou e me deu o número. Disse que tinha disfarçado porque se alguém soubesse que ele tinha um celular, poderia ser roubado enquanto dormia. Eu paguei o boleto, ele fez o curso, arrumou um emprego, mas ainda não conseguiu sair da rua”, conta Meisler.

O termo “sair da rua”, aliás, é contestado por alguns dos que vivem nela. “Ninguém sai da rua. A gente sai é de casa. Ninguém aqui quer sair da rua, porque as pessoas estão na rua todos os dias. O que a gente quer é entrar numa casa. É outro ponto de vista”, explicou um homem ressabiado, que preferiu se identificar apenas como João.

O contato com pessoas em situação de rua fez Meisler reavaliar um conceito que aprendeu nos quase dez anos em que trabalhou no mercado financeiro. “A teoria difundida lá é que, de cada dez pessoas, uma não é confiável. Por isso, não se pode confiar em ninguém. Passei a olhar isto por outra perspectiva: a de que 90% das pessoas valem a pena. Faz mais sentido viver assim”.

Escrito por Caio Barbosa

Caio Barbosa

É jornalista desde 2000. Já tendo passado por diversas áreas de uma redação, de Polícia à Gastronomia, de Esportes ao Carnaval, incluindo Política e comportamento. Começou no jornal "O Fluminense", mas passou também pelo Diário Lance!, Globo.com, Extra, Grupo UOL/Folha e O DIA. Conquistou o Prêmio Embratel de jornalismo, em 2015, com uma série especial sobre os 50 anos do Golpe Militar.

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2 Comentários

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  1. Transformar a solidariedade em moda….
    Transformar a solidariedade em uma forma de levar a vida.
    Faço parte de um grupo que distribui quentinhas no centro da cidade e me sinto muito bem em ser desse movimento.
    Feliz e confiante em um Rio de Janeiro melhorem um mundo melhor!

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