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Jogadores caem no conto alemão

Jovens investem o dinheiro que não têm em busca do sonho de jogar na Europa

Pelo contrato assinado, Igor Faria ficaria com apenas 20% do que viesse a receber como jogador, incluídos salários e direitos de imagem
Pelo contrato assinado, Igor Faria ficaria com apenas 20% do que viesse a receber como jogador, incluídos salários e direitos de imagem

Para alguns jovens brasileiros, a experiência com o futebol alemão é bem mais dolorosa do que as fotografias do 7 a 1 grudadas na parede da nossa memória coletiva. Eles são jogadores de futebol que deram dinheiro para intermediários e compraram as próprias passagens para embarcar num sonho que terminaria logo depois da aterrissagem na Europa.

Animados com promessas de vagas em clubes das terceira e quarta divisões do país campeão do mundo, esses atletas juntaram economias, venderam bens, arrumaram empréstimos e chegaram a deixar empregos para viabilizar suas viagens.

Os problemas são tantos, que o Itamaraty colocou em seu site o guia ‘Orientações para o trabalho no exterior’, voltado, principalmente, para jogadores de futebol, modelos, professores de capoeira e dançarinos. A Tunísia é um dos países onde há mais irregularidades envolvendo atletas brasileiros.

Ao invés de assinar contratos com times profissionais, eles acabaram escalados apenas para fazer testes em equipes amadoras, da sétima e da oitava divisão. Alguns continuam pulando de clube em clube, outros passam por dificuldades na Alemanha e há os que retornaram para o Brasil e fazem planos para atravessar de novo o Atlântico e tentar retomar a carreira.

Com passagens pelo Trindade, penúltimo colocado no Campeonato Goiano de 2016, e pela base do Goiás, Igor Rego de Faria, de 25 anos, mora hoje de favor em Berlim.  Seus problemas começaram com uma oferta de Luiz Reginaldo Rodrigues de Moraes, ex-jogador que atuou em ligas inferiores na Alemanha e que hoje se dedica ao comércio de gente que tanto marca a história brasileira.

Ao término de uma partida organizada para a observação de jogadores, o intermediário se aproximou de Igor. “Ele disse que tinha um time certo pra mim na Alemanha. Primeiro eu iria treinar num time amador, que me pagaria 300 euros (cerca de R$ 1,1 mil) por mês e me inscreveria num curso de alemão. E, seis meses depois, eu seria contratado por um clube profissional”, conta. Em troca, o intermediário pediu R$ 12 mil, mas depois, aceitou receber R$ 5 mil.   O dinheiro seria para bancar despesas do atleta com moradia e alimentação no exterior.

A cartilha do Itamaraty
A cartilha do Itamaraty

Para conseguir um total de R$ 10 mil – ainda precisava bancar a passagem -, Igor, filho de uma cozinheira, recorreu a empréstimos e repassou um crédito referente à compra da parcela de uma casa.  Como comprovante do pagamento, o jogador recebeu um recibo em nome da empresa LLR Moraes que, segundo o site da Receita Federal, está registrada em nome de Luiz Reginaldo e de Laudimila de Moraes. Sua atividade principal é a representação comercial e o agenciamento do “comércio de máquinas, equipamentos, embarcações e aeronaves”.

Fundada em novembro do ano passado, a LLR Moraes, que usa o nome de fantasia LLR Stronkozpte Representações, tem, como atividades secundárias, a representação comercial e o agenciamento do “comércio de madeira, material de construção e ferragens” e o “comércio especializado em produtos não especificados anteriormente”.  A empresa e seus sócios não estão inscritos no Cadastro de Intermediários criado, este ano, pela CBF.

Igor assinou contrato de prestação de serviços que entregava à sua mãe, a cozinheira Maria Rego Gomes, e a Luiz Reginaldo o direito de representá-lo. No fim das contas, o atleta ficaria com apenas 20% do que viesse a receber como jogador, aí incluídos salários e direitos de imagem. Sua mãe embolsaria 30%, o mesmo percentual destinado a Luiz Reginaldo. O contrato é tão precário que os percentuais discriminados somam 80% e não 100%. A multa para o rompimento do compromisso é de 20.000 vezes (isso mesmo, vinte mil) do valor do salário anual do atleta.

Ele disse que tinha um time certo pra mim na Alemanha. Primeiro eu iria treinar num time amador, que me pagaria 300 euros (cerca de R$ 1,1 mil) por mês e me inscreveria num curso de alemão. E, seis meses depois, eu seria contratado por um clube profissional.

Igor Faria
Jogador de futebol

Especializado em direito esportivo, o advogado Igor Ferreira diz que o percentual de 30% destinado ao intermediário dá margem à anulação do contrato, já que o padrão, nesses casos, costuma ficar em 10%. Ressalta, porém que a Fifa e a CBF recomendam que a taxa de intermediação seja de, no máximo, 3%.

Em janeiro, no auge do inverno no hemisfério norte, Igor embarcou com outros dois aspirantes rumo à carreira de jogador na Alemanha – nenhum deles tinha visto de trabalho. Em Berlim, Igor, T. e J., estes dois últimos não quiseram se identificar,  foram recebidos por Jefferson e seu tio Vragel da Silva – este, um ex-jogador que também atuou na Alemanha.  Foi quando perceberam que a situação era bem diferente da que havia sido apresentada no Brasil. “Vragel disse que o Reginaldo não tinha repassado o dinheiro para eles, que a situação estava difícil”, relata Igor. Os três começaram então um tour por clubes amadores e por pensões de cidades alemãs.

Luiz Reginaldo apareceu na Alemanha, mas isso não melhorou em nada a vida do grupo – os rapazes chegaram a ficar dois dias sem comer. “O Vragel disse que não tinha como nos manter, que a encrenca era do Reginaldo”, lembra Igor. Ele afirma que chegou a ficar hospedado com outros dois brasileiros, menores de idade, num apartamento arranjado pelos intermediários, mas o aluguel venceu – e eles tiveram que sair. Os adolescentes voltaram para o Brasil, e Igor conseguiu um quarto emprestado para morar.

A situação dele é delicada: sua passagem de volta já caducou, ele não dispõe de dinheiro para comprar uma outra, a Embaixada Brasileira disse que não tem como ajudá-lo a retornar. Pior, seu prazo de permanência na Alemanha – ele entrou como turista – já venceu, ele não pode continuar por lá e corre o risco de ser deportado.

A história de J. é parecida. Ele conta que recebeu de Luiz Reginaldo a promessa de um contrato com um time da quarta divisão em troca de um adiamento de mil euros (cerca de R$ 3,6 mil). Mas ele e T. foram levados por Jefferson e Vragel para fazer testes no TSV Wichmannshausen, um clube amador da sétima divisão.

Em troca de uma ajuda de custo de 300 euros e de moradia, ele e T. chegaram a disputar alguns jogos, mas, por falta do visto de trabalho, tiveram que voltar para o Brasil. Ele e o colega querem retornar para a Alemanha – sonham em chegar a uma equipe da quinta divisão, em que teriam um salário de aproximadamente 800 euros (R$ 2,9 mil).

Luiz Reginaldo nega que tenha dito aos jovens que seriam contratados por times profissionais. “A gente se compromete a levá-los para uma avaliação”, diz. Não explica, porém, o que levaria um jogador a investir tempo e dinheiro para participar, sem qualquer garantia de emprego, de uma peneira na Europa. “Uma pessoa vai deixar sua vida no próprio país e arriscar num futuro incerto, sem ter qualquer certeza? Eu iria pagar para fazer teste em um clube amador? “, rebate Igor.

O intermediário diz que o contrato assinado com os atletas prevê apenas a participação nas tais avaliações, mas o documento assinado por Igor trata apenas da nomeação de seus representantes. Luiz Reginaldo afirma que faz este tipo de intermediação desde 2014 e que já levou entre dez e 12 atletas para a Alemanha. Apesar das dificuldades enfrentadas pelos jovens, ele se abstém de qualquer responsabilidade. “Não tenho como mantê-los por lá”, afirma.

Itamaraty fala em tráfico de pessoas

O Ministério das Relações Exteriores diz que a oferta enganosa de contratos em clubes de futebol é “incomum na Alemanha”, mas que casos parecidos têm sido registrados em diversos países.  O governo chega a classificar o problema como “uma das formas contemporâneas de servidão”. Segundo o Itamaraty, há cerca de seis mil jogadores brasileiros no exterior –  são registradas em torno de mil transferências por ano.

Os problemas são tantos, que o Itamaraty colocou em seu site o guia ‘Orientações para o trabalho no exterior’, voltado, principalmente, para jogadores de futebol, modelos, professores de capoeira e dançarinos.  A Tunísia é um dos países onde há mais irregularidades envolvendo atletas brasileiros.

De acordo com o guia, a viagem para teste em clubes estrangeiros “mascara com frequência o que se chama de tráfico de pessoas – arregimentação baseada na fraude e no engano, com o objetivo de exploração trabalhista.”

Os relatos de Igor e de J. se encaixam nas situações descritas no documento do Itamaraty. O texto fala na atuação de “agentes inescrupulosos, intermediários de propostas tentadoras que escondem armadilhas para o jogador. ”

O guia lista os cuidados que os jogadores devem tomar antes de aceitar esse tipo de oferta:

– As transferências devem ocorrer, preferencialmente, pelo sistema TMC ou pelo ITC, regulamentados pela Fifa.

– É fundamental que o jogador apure detalhes sobre o clube. Verificar se o intermediário é registrado na Fifa ou na CBF.

– É importante obter visto de trabalho ou de negócios.

– No caso de viagem de teste, o atleta deve exigir que o contrato estabeleça as responsabilidades do intermediário relacionadas a passagens, alimentação e hospedagem.

– Quem recebe uma proposta deve conversar com outros atletas que tenham sido agenciados pelo mesmo intermediário.

– Vale anotar, antes de sair do Brasil, contatos das representações diplomáticas brasileiras no país de destino.

– O contrato com o intermediário só deve ser assinado com orientação de um advogado.

– O atleta deve exigir que o contrato com o clube estrangeiro seja registrado na federação local e seja redigido e assinado também em inglês e português. Ele deve receber uma cópia do documento assim que ele foi firmado.

– É fundamental desconfiar de intermediários que pedem dinheiro. A remuneração do agente deve vir de uma comissão sobre o contrato com o clube.

– O jogador deve fazer um seguro que cubra a compra de passagem aérea de volta para o Brasil caso o empresário, em contrato, não se responsabilizar por esta despesa.

Escrito por Fernando Molica

Fernando Molica

É carioca, jornalista e escritor. Trabalhou na 'Folha de S.Paulo', 'O Estado de S.Paulo', 'O Globo', TV Globo e 'O Dia'; coordenou o MBA em Jornalismo Investigativo e Realidade Brasileira da Fundação Getúlio Vargas. É ganhador de dois prêmios Vladimir Herzog e integrou a equipe vencedora do Prêmio Embratel de 2015. Lançou, este ano, o romance 'Uma selfie com Lenin'.

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