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Igualdade no mercado de trabalho? Só no século 22

A hegemonia dos homens brancos nas empresas ainda levará 120 anos para acabar

Entre os executivos, mulheres e negros são minoria (Unknown Photographe / Image Source/AFP)
Entre os executivos, mulheres e negros são minoria (Unknown Photographe / Image Source/AFP)

Tecnologia, inovação, comunicação… O mundo avança em um ritmo que muitas vezes fica difícil de acompanhar. Mas quando o assunto é equidade, parece que voltamos à Idade Média. E os números estão aí para confirmar como o mercado de trabalho mudou muito pouco no último século. A hegemonia dos homens brancos continua se impondo sobre mulheres e negros. Mudanças? No ritmo atual, só em mais de um século! Isso mesmo, serão necessários pelo menos 120 anos para que a meritocracia seja soberana nas empresas brasileiras. Esse e outros dados desanimadores fazem parte de um guia para a Promoção da Equidade Racial que o Instituto Ethos lança hoje.

O trabalho é baseado no “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas”, um retrato do mercado de trabalho no país, lançado anualmente pelo instituto. O estudo mostra que negros e mulheres são minoria nas grandes empresas, principalmente nos cargos de gestão. Nos Conselhos Administrativos, por exemplo, apenas 4.9% são negros e 11%, mulheres; entre os executivos, 4.7% são negros e 13.6%, mulheres. E o mais espantoso: mesmo com números tão claros de desigualdade de raça e gênero, das 500 empresas que participaram da pesquisa, apenas 3,6% têm políticas de inserção de negros no quadro de trabalhadores.

Vocês não precisam começar a se matar, como fazemos nos Estados Unidos. Temos muito poder. Somos um bilhão de negros na África e 250 milhões no resto do mundo. Desses, 110 milhões estão aqui no Brasil. Temos que mostrar às empresas que somos um número significativo de consumidores e precisamos ter representatividade

Joe Beasley,
ativista americano

Em um cenário tão desestimulante, uma voz que passou a vida combatendo o racismo, na busca pela equidade racial, se diz otimista com o futuro dos negros brasileiros. Aos 80 anos, o ativista americano Joe Beasley acha que o país precisa aproveitar esse momento de visibilidade e juntar forças para reverter este quadro.

“O Brasil teve a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Todo mundo passou a prestar atenção no país. Nós temos irmãos em todas as partes do mundo e precisamos unir forças. Tudo vai ficar bem”, comentou Beasley, em visita ao Brasil para participar de uma série de palestras. Uma das missões de Beasley e sua fundação é tentar fazer com sejam criados programas de inclusão e sustentabilidade que garantam melhor qualidade de vida para os negros, principalmente nas grandes empresas.

Mas como buscar essa mudança? Para o ativista, uma coisa é certa: a violência não vai trazer mudanças, mas o uso da inteligência pode ser uma grande arma coletiva. “Vocês não precisam começar a se matar, como fazemos nos Estados Unidos. Nós precisamos cruzar essa linha juntos. Temos muito poder. Somos um bilhão de negros na África e 250 milhões no resto do mundo. Desses, 110 milhões estão aqui no Brasil. Temos que mostrar às empresas que somos um número significante de consumidores e precisamos ter representatividade. Podemos mudar esse quadro, mas precisamos nos unir”, defende Beasley.

Dentro da lógica do grande ativista, uma forma de tentar pressionar as empresas a contratarem mais mulheres ou negros seria acompanhar de perto a representatividade desses grupos em seus quadros de funcionários ou mesmo em suas campanhas publicitárias. O trabalho realizado pelo Instituto Ethos traça um perfil de cada uma das 500 empresas e se propõe a criar o Fórum Empresarial Nacional de Equidade de Gênero e Raça, em 2017, com o objetivo de ajudar a implementar políticas que ajudem na busca por equidade social e de gênero no mercado de trabalho.

O caminho é longo e o ritmo tem sido lento. Se o quadro atual mostra que a desigualdade entre brancos e negros no mercado de trabalho só será superada em 120 anos, quando o assunto é  a desigualdade entre homens brancos e mulheres, o tempo diminui, mas ainda assim é longo: 80 anos. A percepção dos gestores em relação à desigualdade ajuda a explica a lentidão nas mudanças. Entre os executivos  das 500 empresas analisadas, 36% acham “adequada” a presença de negros na companhia onde trabalham, e 43,4% têm a mesma opinião em relação às mulheres.  Analisando números como esses, podemos entender porque ainda temos décadas e décadas até que as diferenças sejam superadas.

Escrito por Claudia Silva Jacobs

Claudia Silva Jacobs

Carioca, formada em Jornalismo pela PUC- RJ. Trabalhou no Jornal Dos Sports, na Última Hora e no Globo. Mudou-se para a Europa onde estudou Relacões Políticas e Internacionais no Ceris (Bruxelas) e Gerenciamento de Novas Mídias (Birkbeek College). Foi produtora do Serviço Brasileiro da BBC, em Londres, onde participou de diversas coberturas e ganhou o prêmio Ayrton Senna de reportagem de rádio com a série Trabalho Infantil no Brasil. Foi diretora de comunicação da Riotur por seis anos e agora é freelancer e editora do site CarnavaleSamba.Rio. Está em fase de conclusão do portal cidadaoautista.rio.

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