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Pecuária sustentável. Será?

Rede de fast food começa a comprar carne livre de desmatamento

Quase 40% da carne consumida no Brasil vem da Amazônia, e a pecuária é a principal responsável pelo desmatamento na região. Arquivo ICV
Quase 40% da carne consumida no Brasil vêm da Amazônia, e a pecuária é a principal responsável pelo desmatamento na região. Arquivo ICV

Uma situação “mal passada” por anos parece finalmente estar chegando ao ponto. Graças ao projeto Novo Campo, um dos pioneiros no Brasil (e no mundo), que tem como objetivo tornar a pecuária mais sustentável, a rede McDonald´s anunciou em setembro sua primeira compra, na Amazônia, de carne proveniente de práticas que tem esse objetivo. Ou seja, que não só atendem a critérios econômicos, como também a ambientais (seus produtores não podem provocar desmatamento e precisam investir em técnicas agrícolas, que seguem o manual de requisitos básicos da Embrapa, por exemplo) e sociais (não pode haver trabalho escravo ou infantil na propriedade, que tem que ser totalmente legalizada e ter o gado vacinado). Assim, a empresa – cujo principal produto é feito de carne bovina e, portanto, ocupa um papel fundamental nessa cadeia produtiva – tornou-se a primeira do segmento de fast food a adquirir carne proveniente de regiões verificadas como sustentáveis. A remessa inicial foi de apenas 250 toneladas, mas a ideia é que 100% dos hambúrgueres da rede, não só no Brasil como em toda a América Latina, possam ser feitos com este tipo de matéria prima. Mas prazos para isso ainda não foram fixados.

Por ano, compramos 30 mil toneladas de carne. Estamos comprando 250 toneladas do projeto. Sabemos que ainda é muito pouco, mas não queremos nos apressar, até para não pressionar os produtores e correr o risco de desmatamento para atender à demanda.

Leonardo Lima
Diretor de Sustentabilidade da Arcos Dorados

“Por ano, compramos 30 mil toneladas de carne. Estamos comprando 250 toneladas do projeto. Sabemos que ainda é muito pouco, mas não queremos nos apressar, até para não pressionar os produtores e correr o risco de desmatamento para atender à demanda”, explica Leonardo Lima, diretor de Sustentabilidade da Arcos Dorados, empresa que administra a marca McDonald’s em 20 países da América Latina e é a franqueadora responsável pelo maior faturamento da rede no mundo. Só no Brasil, são 884 restaurantes. E a preocupação com sustentabilidade não é recente. Tanto que o McDonald´s conquistou certificações junto a entidades de relevância no setor, como a MSC para o peixe do McFish, a FSC para suas embalagens, e a Rainforest Alliance para o café vendido pela rede.

Há dois anos a divisão brasileira da Arcos Dorados está apostando no Programa Novo Campo, que fica no município de Alta Floresta, no Norte de Mato Grosso, dentro do bioma amazônico. O projeto foi implementado pela empresa Pecuária Sustentável da Amazônia (Pecsa), responsável por captar recursos financeiros e implantar as boas práticas nas fazendas, conjuntamente com o Instituto Centro de Vida (ICV), responsável pelo monitoramento dessas práticas. A JBS – empresa brasileira que é a maior produtora de proteína do mundo – é parceira do Novo Campo, garantindo a compra, fazendo o abate e o processamento da carne.

“Quarenta propriedades integram o projeto Novo Campo. Três delas estão mais avançadas nas práticas. Destas, escolhemos uma (a Bevilaqua) para o trabalho que fazemos agora. No caso do Novo Campo, nós somos os únicos que já estamos comprando. Mas empresas como Carrefour, Walmart e Pão de Açúcar também trabalham com outros projetos semelhantes. A Walmart, por exemplo, compra carne sustentável do Xingu”, acrescenta Lima. Atualmente sete projetos afins em cinco estados brasileiros são apoiados pelo Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS).

Área de pastagem recuperada pelo projeto Novo Campo. Arquivo ICV
Área de pastagem recuperada pelo projeto Novo Campo. Arquivo ICV

Quase 40% da carne consumida no Brasil vêm da Amazônia, e a pecuária é a principal responsável pelo desmatamento na região. Segundo dados do Greenpeace, apenas três frigoríficos assumiram, desde 2009, o compromisso de não comprar bois de fazendas que têm novos desmatamentos, que usam trabalho escravo ou estão dentro de terras indígenas. Neste contexto, o Novo Campo foi criado em 2012, com o objetivo de tornar a pecuária na Amazônia mais produtiva, menos emissora de gases de efeito estufa, menos desmatadora – e, por causa disso, mais sustentável. Tudo começou com dez propriedades de médio porte (30 hectares), que totalizam 54% das propriedades que se ocupam de corte de gado em Alta Floresta, região cujo principal motor da economia é a pecuária.

“A pecuária do futuro não tem a menor chance de não ser sustentável. O desafio que nós temos é a população, que cresce”, observa Leonardo Lima. Não por acaso nasceu no Brasil, um grande produtor, o que pode ser chamado de a primeira mesa redonda para discutir pecuária sustentável. “E ela reúne desde os fornecedores de insumos e produtores até bancos e ONGs”, diz Francisco Beduschi, coordenador da Iniciativa de Pecuária Sustentável da ONG ICV, fundada há 25 anos no Mato Grosso e que trabalha com a questão do uso sustentável da terra.

Temos 70 mil fazendas no Brasil inteiro. Do total, 40 mil na Amazônia Legal. É cada vez mais necessário esse controle. Imagina o nível de dificuldade para saber o status ambiental de cada uma. Não compramos de fazendas que não respeitam os critérios. Se isso acontece, podemos bloqueá-las no cadastro de compras.

Daniela Teston
Gerente de Sustentabilidade da JBS

Beduschi, que é engenheiro agrônomo com especialização em zootecnia e economia, explica que, quando uma fazenda quer entrar para a Novo Campo, ela é submetida a um diagnóstico econômico e social. Ai, parte-se para a implementação das onze práticas sustentáveis, que vão desde a nutrição do gado (visando a menor emissão de carbono) e do bem-estar dos animais até a gestão da propriedade e o acompanhamento do resultado. Empresas de assistência técnica parceiras fazem a implementação, e nós, o monitoramento. A propriedade passa a ter técnicas de criação de gado altamente eficientes, o que inclui produzir o que o gado vai comer.

“Com isso, o gado terá sempre alimento e água garantidos. Não precisa se deslocar subindo e descendo montanhas, tem trato veterinário. Os bois têm o mínimo de estresse. E evita-se a necessidade de invadir áreas de conservação e de florestas”, complementa Lima. “Mudança de cultura nunca é simples. Por anos e anos, o gado foi criado livre, sem muita técnica”.

“Temos 70 mil fazendas no Brasil inteiro. Do total, 40 mil na Amazônia Legal (área de risco e de bastante interesse público). É cada vez mais necessário esse controle. Imagina o nível de dificuldade para saber o status ambiental de cada uma. Mas através de recursos como mapas georreferneciados, diariamente checamos o status delas. Não compramos de fazendas que não respeitam os critérios. Se isso acontece, podemos bloqueá-las no cadastro de compras”, diz Daniela Teston, gerente de sustentabilidade da JBS”. Mas hoje (20 de setembro) publicamos os resultados da terceira auditoria independente que fizemos, e 97% das compras foram feitas conforme os critérios estabelecidos por órgãos como Ibama e Ministério Público Federal. Foi esse rigor no controle que propiciou um cenário seguro para McDonald´s virar parceiro numa iniciativa da magnitude do Programa Novo Campo. Somos parceiros desde 2013. Depois do sucesso com eles, estamos conversando agora com outros clientes que tenham interesse. Até porque, para a produção do hambúrguer só se usa alguns cortes do boi. Precisamos de outros interessados que comprem o restante dos cortes, para o que chamamos de maximização da carcaça”.

Procurado para falar sobre o projeto, o Greenpeace, que tem a campanha chamada “Carne ao molho madeira – vamos colocar a Amazônia na frente dos bois” para incentivar os consumidores a não comprar carne em supermercados que não sabem ou não revelam a procedência do produto, disse que só falará sobre o assunto depois de analisar profundamente a iniciativa, o que ainda não aconteceu.

Escrito por Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha se completam. No trabalho e na vida. Juntos, têm umas quatro décadas de jornalismo. Ela, no texto, trabalhou no Globo por 17 anos, depois de passar por Jornal do Brasil, O Dia e Revista Veja, sempre cobrindo a cidade do Rio. Ele, nas imagens (paradas ou em movimento), há 20 anos bate ponto no Globo. O melhor desta parceria nasceu em novembro passado. Chama-se Pedro, e veio fazer par com a irmã, Maria.

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3 Comentários

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  1. Não resta dúvida que os limites estabelecidos são importantes e comprometidos com os atuais critérios de sustentabilidade, no entanto é absolutamente insustentável o argumento de que a substituição de florestas nativas, ou mesmo secundárias, por pastagens tenha qualquer compromisso com a crise de sustentabilidade que o planeta atravessa. Não se trata de desqualificar as iniciativas que visam dialogar com esta crise, mas de colocar em dúvida as medidas tomadas hoje com vista a gravidade das projeções referidas às mudanças climáticas já em curso. Ainda que seja importante dar valor e saudar a proposta, no que tange a trazer à tona a necessidade de implementar ações concretas no âmbito da sustentabilidade, não podemos deixar de considerar que o impacto da notícia é muito maior no campo da comunicação e de marketing do “socialmente responsável” do que na formulação de propostas comprometidas com o tema. Vivemos sob o grande dilema de vivermos, e sermos movidos, pela cultura do consumo e da acumulação de riquezas, atores da sociedade do desperdício e assistirmos a progressiva e fatal degradação do meio ambiente incapazes de agir em direção ao que sabemos necessário.

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