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O retrocesso da Petrobras

Na contramão da história, empresa decide abandonar o etanol e o biodiesel

Ônibus movido a etanol na Índia. Foto The Times of India/Ranjit Deshmukh
Ônibus movido a etanol na Índia. Foto The Times of India/Ranjit Deshmukh

Está sendo realizada, em Marrakech, a 22ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP22), que prioriza, entre os temas, uma maior justiça climática. Especialmente para o continente africano, muito vulnerável aos efeitos do aquecimento global, como lembrou a ministra francesa do Meio Ambiente, Ségolène Royal, que presidiu a conferência anterior (COP 21), realizada em Paris. “Peço justiça climática para a África (…). A mudança climática neste continente é a mais cruel e a mais injusta”, disse Royal, citando a iniciativa africana em energias renováveis. Cem países no mundo ratificaram o Acordo de Paris, mas Donald Trump, eleito presidente dos EUA, é hostil a ele.

O etanol, por exemplo, é um produto basicamente agrícola e certamente não é a nossa especialidade (…) Continuaremos a ser a maior empresa integrada de energia do Brasil em petróleo e gás, com crescente participação nas energias alternativas.

Enquanto isso, no Brasil, o novo Plano de Negócios e Gestão (PNG) da Petrobras, anunciado recentemente, coloca a empresa e, conseqüentemente o país, na contramão da história no que concerne à política global de redução das emissões de gases do efeito estufa. Pelo novo PNG da Petrobras haverá “a retirada integral da companhia” do setor de “biocombustível”, porque “claramente não somos os melhores operadores deste tipo de produto”. E continua: “O etanol, por exemplo, é um produto basicamente agrícola e certamente não é a nossa especialidade”. Mas, contraditoriamente o PNG afirma que “continuaremos a ser a maior empresa integrada de energia do Brasil em petróleo e gás, com crescente participação nas energias alternativas”. Como crescer essa participação saindo do etanol e também do biodiesel, cujo percentual no diesel tende a aumentar? Com a venda do controle da BR, prevista no PNG, a Petrobras recua da distribuição dos biocombustíveis também.

Em direção oposta, caminha a Shell, que se tornou sócia da Cosan e da Raizen, grandes produtores de etanol no Brasil. Também a BP (British Petroleum), que lançou há alguns anos o slogan Beyond Petroleum (Além do Petróleo), e a Exxon Mobil, que criou o programa global de biocombustível.

A Petrobras teve um papel fundamental no advento do Programa Nacional do Álcool para uso automotivo, tornando-se paradigmático no mundo por ocasião dos choques do petróleo que mudaram a face do mundo em 1973 e 1979. No primeiro deles, respondeu com o programa do álcool anidro como aditivo à gasolina, sem necessidade de mudar os motores. A produção era em destilarias anexas às usinas de açúcar. A partir de 1979, o álcool passou a ser produzido em destilarias autônomas e era usado em motores fabricados para usar álcool hidratado puro. Durante a década de 80, após atingir mais de 90% de vendas de carros novos a álcool, houve falta do combustível nos postos e a venda de carros a álcool despencou. Apenas com o advento dos motores flexíveis, para álcool ou gasolina, e seu incentivo, a partir de 2003, subiu de novo o consumo. Mas com o preço baixo da gasolina seu consumo caiu e muitos produtores ficaram em dificuldades.

Os EUA produzem mais álcool que o Brasil, mas de milho, que não dispõe de bagaço, como a cana brasileira, para queimar na destilação.  As emissões de CO2 na combustão do álcool e do bagaço são compensadas pela sua absorção no crescimento da cana. O biodiesel foi adotado como aditivo no governo Lula. Produzimos principalmente o de soja, que não é uma boa opção energética, mas o Brasil tem alta produção da matéria-prima para exportação com excedente.

O Brasil foi, tradicionalmente, proativo nas Conferências do Clima, a começar pela Rio 92. Na COP de Kioto, em 1997, apresentou a Proposta Brasileira, com grande impacto. Na COP de Copenhague, em 2009, assumiu compromisso de reduzir suas emissões projetadas para 2020, embora não tivesse obrigação pela Convenção do Clima, pois como país em desenvolvimento ficou fora do Anexo I. Reduziu o desmatamento, principal causa de suas emissões, mas agora, além disso, deve reduzir emissões na energia, conforme foi decidido na COP de Paris. Estudo coordenado pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, em parceria com o Centro Clima, do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, e apresentado na Conferência do Clima, em Paris, mostra ser possível um cenário de redução de emissões com uso de energia renovável, promovendo crescimento e geração de emprego.

Escrito por Luiz Pinguelli Rosa

Luiz Pinguelli Rosa

Professor titular e emérito da UFRJ, onde ingressou em 1969. Eleito diretor da Coppe por cinco vezes, atualmente é diretor de Relações Institucionais da instituição, onde integra o corpo docente do Programa de Planejamento Energético. Um dos maiores especialistas de energia no país, foi presidente da Eletrobras de janeiro de 2003 a maio de 2004. Desde 1998, é autor ou revisor de relatórios do IPCC, e, de 2004 a 2016, atuou como secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.

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Um Comentário

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  1. Luiz Pingueli: quantos metros de linhas elétricas ele construiu . Todos os cargos que ocupou foram frutos de politica partidária.

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