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Oportunidade de bandeja (e sem preconceito)

Curso para formar garçons, cozinheiros e técnicos em refrigeração e eletricidade atrai até ex-traficantes

Curso gratuito para formação de garçons, em São Gonçalo, está na quarta turma: aula de solidariedade. Foto: Sylva Villerot / Photononstop

A oportunidade vem de bandeja. Quem a oferece é Jorge Baptista, de 52 anos, gerente do tradicional restaurante Taberna da Glória há 8 anos. Há cerca de 16 anos, consternado com a batalha cruel por um emprego de pessoas sem qualquer qualificação – e sem condições de pagar para aprender um ofício -, decidiu arrumar um jeito de ajudá-las: criou o Curso Profissionalizante Comunitário (CPC), para formar garçons. Alguns alunos chegam numa situação tão dramática que a turma se cotiza para doar cestas básicas para suas famílias – até que eles consigam um trabalho. É o caso de um ex-traficante de 37 anos, que prefere não se identificar. Ele tem mulher, filhos e ainda está desempregado.  “Já fui auxiliar de cozinha e, quando soube do curso, por uma amiga da minha mãe, da igreja, me interessei. Veio de Deus para mim”, agradece ele.

Ele também já trabalhou como vigilante e foi jogador de futebol. “Por circunstâncias da vida, acabei num caminho errado. Mas a gente aprende com nossos erros. Estou convertido e hoje tenho paz, independentemente de ainda estar desempregado”, diz. “O curso é muito bom, e o Seu Jorge é uma pessoa muito atenciosa. Estou vendo a oportunidade de  ter uma porta aberta para mim”.

Jorge Baptista, criador do curso, na Taberna da Glória, onde trabalhar: aula de solidariedade. Foto: Renee Rocha

Não tem lugar para o preconceito na bandeja de oportunidades que Jorge oferece.  O maitre, que também é pastor evangélico, se orgulha dos resultados de seu projeto. “Começamos com 22 alunos, e consegui encaminhar muitos para o mercado de trabalho. Alguns estão abrindo seus próprios negócios”. O trabalho deu tão certo que, além de formar garçons, ele acabou estendendo as aulas, gratuitas, para ajudantes de cozinha e cozinheiros. Mais: agora, se prepara para a formatura das primeiras turmas de técnicos em refrigeração e em elétrica doméstica.

Tudo começou quando Jorge Baptista morava no Caju. Procurou a associação de moradores da comunidade e se ofereceu para dar o curso de garçom. “Eu tinha 32 anos, e experiência como garçom, gerente e maitre de restaurantes, como Marius, Porcão e Aspargus”, conta, lembrando que acumula 16 diplomas na área de gastronomia, além de espanhol pelo Cervantes, inglês pelo CNA e Marketing pela Unicarioca.

Quando se mudou para São Gonçalo, transferiu o curso – que está na quarta turma – para lá. As aulas, hoje, acontecem no salão da igreja evangélica Moriah, na comunidade de Santa Luzia, do município, na região metropolitana do Rio. Ali, o aspirante a garçom aprende desde a maneira correta de dobrar guardanapos até postura e posicionamento para servir, além da elaboração de cardápios. “Mais importante do que aprender a profissão é ser educado”, diz Jorge.  “Também costumo levar profissionais da área para dar testemunhos motivacionais”.

Um curso de formação de garçom como o do CPC custa entre R$ 1.800 e R$ 3 mil. Já o de refrigeração, cerca de R$ 2.500. O de elétrica não fica atrás. Mas no CPC é tudo “0800”, como diz Jorge.  São três meses de aulas (12 no total). As apostilas custam R$ 12, mas só paga quem puder.  A turma, agora, está enchendo um cofrinho para fazer um coquetel para suas famílias no dia 5 de setembro, quando haverá um culto de ação de graças para os formandos.

Um dos ex-alunos montou uma chocolateria e outro, que não sabia nem o que era um ovo pochê, hoje tem um bufê e prepara jantares nas casas das pessoas

Jorge Baptista
Maitre e idealizador do Curso Profissionalizante Comunitário

A turma anterior a esta tinha 46 alunos.  Os professores são sempre voluntários.  “Nesta fase, consegui o apoio do chef Almeida (gerente e sócio do Olimpo, em Niterói), do Joaquimenes (hoje no Berbigão do Catete), que dava aulas de francês e inglês para melhorar o atendimento dos alunos, e da nutricionista Adriana Alves, que também davam aulas gratuitas”, diz. “Empregamos oito pessoas. Um dos ex-alunos montou uma chocolateria e outro, que não sabia nem o que era um ovo pochê, hoje tem um bufê e prepara jantares nas casas das pessoas”, conta orgulhoso.

Thiago Gonçalves Rocha, de 26 anos, fez parte da terceira turma do CPC. Ele já havia trabalhado no ramo e queria se qualificar. “As aulas me ajudaram muito. Eu não tinha noção de como preparar pratos. Trabalhava manipulando salgados numa fábrica. Depois do curso, fui trabalhar no Berbigão, na Rua do Catete, e há três anos estou no Cuccina Pena, na Cadeg. Comecei na cozinha e me chamaram para assumir a gerência. Mas pedi para voltar a cozinhar. Hoje, sou o segundo chef. É muito bom fazer o que a gente gosta”.

O ex-aluno Thiago Gonçalves Rocha virou chef: “É muito bom fazer o que a gente gosta”.  Foto: Renee Rocha

Atualmente, o curso de formação de garçons, que acontece às segundas-feiras, tem 13 alunos. Entre eles, apenas uma mulher. Na turma de refrigeração (freezer, geladeira, ar condicionado e split),  são 21 alunos. As aulas, com o professor Manoel Alves da Silva, acontecem às quintas-feiras. O curso de elétrica doméstica, às sextas, tem 18 anos. O professor é Alexandre Emiliano da Silva, que trabalha nas Lojas Americanas.

A sociedade diz: ‘Não tem jeito, tem que morrer’. Mas as pessoas podem se consertar, sim. Para a maioria delas, o que falta é oportunidade

Manoel Alves da Silva
Professor e técnico em refrigeração

Tem quem faça mais de um curso. Como Luiz Phylipe Lopes dos Santos, de 25 anos, morador de São Gonçalo, que está assistindo às aulas de garçom e de refrigeração. “Já fui ajudante de obras e entregador, mas nunca tinha trabalhado nem como garçom nem como técnico em refrigeração. E nunca havia pensado em fazer nenhum dos dois cursos. Mas estou me empenhando ao máximo e adorando. Por enquanto, estou me identificando mais com o de garçom. Até porque, no fim de semana passado tive minha primeira experiência num restaurante em Jurujuba, Niterói. Acho que fui bem. Pude fazer um pouco do que aprendi. Agora pretendo ter a mesma oportunidade de treinamento em refrigeração”, conta ele.

No que depender do professor Manoel Alves da Silva, não faltarão oportunidades: “Levo alguns componentes e ferramentas que uso no dia a dia para apresentar a eles nas aulas. Agora, estou levando alguns alunos para fazer instalações na casa de clientes”.  Manoel fez cursos profissionalizantes e trabalha na área de manutenção que há 32 anos. “Tenho 18 cursos, e paguei por todos eles. Esses rapazes estão tendo uma grande oportunidade. Alguns têm alguma noção. Para outros, além de ensinar o conteúdo profissionalizante, preciso ensinar também linguagem e como tratar o cliente”, diz ele.

Nas turmas atuais, entre os aspirantes a garçons e técnicos em refrigeração e elétrica doméstica há outros dois ex-traficantes.  “A sociedade diz: ‘Não tem jeito, tem que morrer’. Mas as pessoas podem se consertar, sim. Para a maioria delas, o que falta é oportunidade”, atesta Manoel.

Jorge explica que, apesar de ser pastor da igreja Moriah, não é preciso seguir a religião para fazer os cursos. “Eles só acontecem lá porque não precisamos pagar pelo espaço. É tudo na base do 0800. No momento, damos as aulas dentro do próprio templo, enquanto não conseguimos concluir as obras nas três salas da igreja que pretendemos usar no futuro. Tenho um padeiro, um sushiman e um especialista em tortas prontos para dar aulas. Mas, para isso, precisamos de uma cozinha estruturada. Para finalizar as obras faltam uns R$ 6 mil”, faz as contas. Quando as salas ficarem prontas, ele planeja, inclusive, ampliar o leque de cursos. “Também tenho profissionais de informática e fotografia (para formar, por exemplo, fotógrafos de eventos e de bufês) interessados em dar aulas”.

Escrito por Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha

Paula Autran e Reneé Rocha se completam. No trabalho e na vida. Juntos, têm umas quatro décadas de jornalismo. Ela, no texto, trabalhou no Globo por 17 anos, depois de passar por Jornal do Brasil, O Dia e Revista Veja, sempre cobrindo a cidade do Rio. Ele, nas imagens (paradas ou em movimento), há 20 anos bate ponto no Globo. O melhor desta parceria nasceu em novembro passado. Chama-se Pedro, e veio fazer par com a irmã, Maria.

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