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A moda de esquerda sob o olhar dos arapongas

Documentos revelam que agentes do DOPS acompanhavam o estilo e as tendências dos jovens ‘subversivos’

milico2/Claudio DuarteJulho de 1971, a repressão no Brasil estava com um aparato bem montado, azeitado, e já havia produzido vítimas que se tornariam “emblemáticas”, como o ex-deputado Rubens Paiva, morto em 20 de janeiro, e Stuart Angel Jones, morto em 15 de maio daquele mesmo ano, além de muitas lideranças do meio rural e sindical. No Rio – estado com o maior número de vítimas do período, 163 mortos e desaparecidos – os agentes da Secretaria de Segurança Pública da Guanabara, conhecidos como “Turma de Atividades Anti-democráticas”, se dedicavam à arapongagem, às campanas e à moda.

Na análise do agente, os jovens de sexo masculino que trajassem “calças blue-jeans de brim grosso, surrado, ou submetido a processo químico, para assim parecer”, e usassem barbas e cabeleiras, eram comunistas e subversivos. Portanto, mereciam ser monitorados.

Pelo menos foi isso que fez o agente Zonildo Castello Branco (matrícula ilegível), no plantão do dia 1° de julho de 1971.  Documentos localizados pela Comissão da Verdade Rio (CEV-Rio) no Arquivo Público do Estado (Aperj), revelam que o ocupado agente produziu o “informe” nº 035, de classificação C.2 (ou seja, baixa confidencialidade). Assunto: “Propaganda Psicológica”. O documento, sem anexos, para efeito de arquivamento no DOPS, teve como referência o nome “Mistificação de Massas”.

O tal informe, na verdade, tratava-se de uma “análise” (recheada de erros gramaticais) dos trajes usados pelos jovens de esquerda da época que, segundo Zonildo, não passavam de “hippies” de origem “alienígena”. O objetivo do trabalho não fica muito claro, mas tudo indica que seria uma tentativa de facilitar a identificação visual desses jovens.

Na análise do agente, os jovens de sexo masculino que trajassem “calças blue-jeans de brim grosso, surrado, ou submetido a processo químico, para assim parecer”, e usassem barbas e cabeleiras, eram comunistas e subversivos. Portanto, mereciam ser monitorados. Já as moças com blue-jeans surradas, bolsas a tiracolo e sandálias confeccionadas com pedaços de pneu, estariam optando por roupas com forte “significação de protesto, rejeitando os costumeiros trajes usuais, protocolares, da vida cotidiana, atuando sobre os sentidos, que causam emoções, impressionando as massas – jovens -, despertando-lhes agressividade”.

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Prosseguindo com a sua observação “antropológica”, o agente avaliou também que “símbolos gráficos, plásticos e sonoros”, serviriam como “excitantes condicional (sic?), nas aclamações da multidão – vide os festivais universitários de música, o som livre-exportação, etc – onde seu comportamento positivo, desce ao delírio, tanto estático, como furioso”.

Não se pode dizer, no entanto, que o agente Zonildo, ao produzir o seu informe, não tenha “pesquisado” o tema. Vê-se que foi aplicado. Tanto assim que arriscou antecipar as novas influências que arrebatariam a juventude brasileira, no “quesito indumentária”. E previu: “atualmente esse tipo de moda sofrerá alteração para uma fase mais agressiva, ou seja, o WAR-LOOK que é uma moda-soldado, vinda do Vietnam (sic), introduzida pela juventude norte-americana. Consta de: camisetas de malha com inscrições U.S.Army, túnicas de campanha em brim ou gabardina verde-exército”…

Ele observou também que “as bolsas a tiracolo foram substituídas por mochilas de lona. A bijuteria foi transformada em correntes prateadas, pesadas, sustentando placas de identificação e amuletos, pulseiras de identificação iguais às usadas pelos soldados durante a guerra. O tecido é em vários tons de verde, como para os homens, o casaco verde garrafa é o – guerrilheiro cubano -, é a saharienne, o blue-jeans”.

E, para não deixar nenhuma dúvida sobre o quanto se aprofundou no assunto, Zonildo fez questão de situar as influências para o setor.

A origem dessa moda, dessa propaganda, provém de Paris, capital da França, numa tentativa vã de desabrochar a juventude brasileira, criando-lhe um mito de desagregação, inculcando-lhe ideias, através de uma corrente poderosa – propaganda, falsas em contradição flagrante com tudo o que é causa do nosso progresso, com a Ciência, a Técnica, no atual momento.

E, por fim, conclui o seu “estudo”: “Os veículos de propaganda, são disseminados pelos “costureiro”, (sua dedicação à gramática não condiz com seu interesse por moda) butiques, os elementos do meio artístico-cultural-social através de seus trajes avançados”.

Para a jornalista e editora de moda, Iesa Rodrigues, “faltava descobrir este tipo de documento”.

Em sua opinião, “quem viveu esta época deve lembrar a reação deste tipo de “profissional” em relação aos que passavam usando um figurino considerado “subversivo”.

Iesa destaca alguns pontos visados pelos agentes responsáveis por detectar os de tendência esquerdista. “Vestir calças meio rasgadinhas, camiseta surrada e tênis Bamba ou sandália franciscana definia pessoas com ideias liberais, fora da corrente oficial despertava suspeitas.” E pondera que “bem, podia ser verdade, pois por um ponto de vista – esta onda meio hippie contrariava as modas elegantes da época, os anos 1960. Em lugar dos redingotes chiques das mães, os jovens preferiam roupas um tanto desmazeladas, as meninas deixavam cabelões naturalmente crespos, os caras deixavam as barbas crescerem.” Este culto ao modelo fora do padrão tinha lá os seus motivos, aponta ela. “Os sapatos confortáveis, baratinhos, serviam para correr nas passeatas. Afinal, a moda tem seu lado de expressão sócio-político e contestador…”, conclui Iesa.

Todo o esforço de Zonildo teve um destino em 12 de junho de 1971. A peça “antropológica” feita por ele chegou ao Centro de Informações do Exército (CIE), sob a referência nº 1159/71M.E n- CIE, acompanhada de documento que dá conta de que o “expediente” fora encaminhado ao setor de Buscas Especiais e recebido no dia 09/07/71 –  através do protocolo da D.O. nº 2846 e do S.E. nº 2376 -, depois de assinado pelo responsável da seção de “Organizações subversivo-terroristas”.

Isto feito, o chefe da Seção de Buscas Especiais recebeu, “Em aditamento ao despacho exarado no expediente supra”, a informação de que o detalhado documento passou a dormitar no arquivo do CIE, ao lado das publicações das organizações subversivo-terroristas, “Classe Operária” e “O Proletariado”, ambos editados pelo PC do B, bem como o jornal clandestino “União da Juventude Patriótica”, segundo apuraram aqueles dedicados senhores da arapongagem. Desta vez, assina “ciente” o chefe do (Setor de Buscas Especiais) S.B.E, Deuteronomio Rocha dos Santos, matrícula: 141.502. Isto, depois de receber mais três carimbos. Era assim, nos tempos da ditadura. Nada escapava ao controle.

Escrito por Denise Assis

Denise Assis

É jornalista e passou pela Veja, Isto É, Jornal do Brasil, O Globo,
e O Dia. É autora dos livros: "Propaganda e cinema a Serviço do Golpe" e "Imaculada". Também é idealizadora da coleção "Elas São de Morte" e autora de "Vende-se vestido de noiva", lançada pela Editora Rocco. Foi assessora da presidência do BNDES, pesquisadora da CNV, e assessora-pesquisadora da Comissão da Verdade do Rio. Também coordenou os trabalhos de elucidação da explosão da bomba da OAB.

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